Oriah Mountain Dreamer


A Dana



Orelha do Livro:

       Neste belo livro, Oriah Mountain Dreamer nos mostra como descobrir nossa natureza essencial. No devemos investir nossa energia em mudar, mas sim em nos tornarmos
plenamente a pessoa que j somos. A chave  entender que quem somos  o suficiente.
       A Dana  um livro cheio de questionamentos. E  exatamente este o seu ponto forte. A autora no tem a pretenso de dar todas as respostas. Num tom de conversa 
ntima, ela conta como enfrenta seus medos e problemas, s vezes acertando e outras errando.
       Suas histrias nos comovem porque tratam de questes universais: as dificuldades no amor e nos relacionamentos em geral, a educao dos filhos, a ansiedade 
no trabalho, a tentao de aceitar mais tarefas do que podemos executar, a ambio, a solido e o medo da morte.
        "Por que repetidamente deixo de levar adiante as intenes que so importantes para mim? Quero saber como diminuir o intervalo entre os desejos mais sinceros 
da minha alma e minhas aes do dia-a-dia", desabafa Oriah, ao longo do livro. Ao dividir suas angstias, ela nos faz refletir e, assim, ilumina nosso caminho rumo 
a uma verdade libertadora.
       Com suave sabedoria, A Dana nos convida a viver de uma forma compatvel com os desejos da nossa alma.
       
       ORIAH MOUNTAIN DREAMER  professora da Universidade de Toronto, no Canad. Formada em Servio Social, ela trabalhou muito tempo com meninos de rua, vtimas 
de violncia e famlias em crise. Autora de O Convite, ela faz palestras e seminrios nos Estados Unidos e no Canad.
  
       
       

Copyright  2003 por Mountain Dreaming Productions, Inc.
Traduo
Claudia Gerpe Duarte
Preparo de originais
Regina da Veiga Pereira
reviso
Antnio dos Prazeres Srgio Bellinello Soares
Capa
Jim Warner
Ilustrao da capa
D. M. Grethen
Projeto grfico e diagramao
 Valria Teixeira
Fotolitos 
RR Donnelley Mergulhar
Impresso e acabamento Geogrfica e Editora Ltda.
Miolo impresso em Chamois Fine Dunas 80g/m2
CIP-BRASIL. CATALOGAO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.
M883d      Mountain Dreamer, Oriah, 1954-.
A dana: acompanhando o ritmo do verdadeiro eu / Oriah Mountain Dreamer; traduo de Claudia Gerpe Duarte. - Rio de Janeiro: Sextante, 2003.
Traduo de: The dance ISBN 85-7542-044-5
1. Mountain Dreamer, Oriah, 1954-. 2. Vida espiritual. I. Ttulo.
02-2082.  CDD 299. 93 CDU 298. 9
Todos os direitos reservados, no Brasil, por Editora Sextante (GMT Editores Ltda. ) Av. Nilo Peanha, 155 - Gr. 301  Centro 20020-100 - Rio de Janeiro  RJ Tel.: 
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Para Linda Mulhall,
por todos os anos em que danamos
como melhores amigas.



"Alguns amantes se satisfazem com o desejo.
No sou um deles."


Rumi
 (trad. Coleman Barks)

Sumrio

       Preldio
       A Dana
       
       UM        Mas Voc Sabe Danar?
       DOIS        Danando com o Mistrio
       TRS        Fora de Compasso
       QUATRO        A Danarina
       CINCO        Escolhendo uma Dana Alegre
       SEIS        Indo de Encontro ao Muro
       SETE        Danando Juntos
       OITO        Danando na Terra
       NOVE        A Coreografia
       DEZ        A Cano
       ONZE        A Dana da Solido Compartilhada
       DOZE        O Vazio Sagrado
       Agradecimentos
       
       
      
       
       
Preldio
       
       
       E se, na verdade, no importa o que voc faz e sim como voc faz, seja l o que for?
       Como isso mudaria o que voc decidiu fazer com a sua vida?
        E se voc pudesse ser mais presente e ter uma atitude mais acolhedora com cada pessoa que encontrasse, se, em vez de estar fazendo um trabalho que achasse 
importante, estivesse trabalhando como caixa de uma pequena loja ou recepcionista de um estacionamento?
       Como isso mudaria o modo como voc quer passar seu precioso tempo neste planeta?
       E caso sua contribuio para o mundo e a conquista da sua felicidade no dependam da descoberta de um novo mtodo de rezar ou de uma tcnica de meditao 
mais adequada, nem de ler o livro certo ou comparecer ao seminrio apropriado, e sim de voc realmente ver e apreciar profundamente a si mesmo e ao mundo como eles 
so neste momento?
       Como isso afetaria sua busca de crescimento espiritual?
       E se no houver necessidade de mudar, de se transformar numa pessoa mais bondosa, mais presente, mais amorosa ou mais sbia?
       Como isso afetaria todos os aspectos da sua vida em que voc est sempre procurando ser melhor?
       E se a tarefa for simplesmente desabrochar, se tornar quem voc realmente   uma pessoa meiga, bondosa, capaz de viver plenamente e de estar apaixonadamente 
presente?
       Como isso afetaria a maneira como voc se sente quando acorda de manh?
       E se quem voc  essencialmente agora for exatamente o que voc ser sempre?
       Como isso afetaria o modo como voc se sente em relao ao futuro? E se a essncia de quem voc  e sempre foi for suficiente?
       Como isso afetaria a forma como voc v e se sente em relao ao passado?
       E se a questo no for: por que  to raro eu ser a pessoa que realmente quero ser, e, sim, por que  to raro eu querer ser a pessoa que realmente sou?
       Como isso mudaria o que voc acha que precisa aprender?
       E se o fato de nos tornarmos quem realmente somos no acontecer atravs do esforo e da tentativa, e sim por reconhecermos e aceitarmos as pessoas, os lugares 
e as experincias que nos oferecem o calor do estmulo de que precisamos para desabrochar?
       Como isso determinaria as escolhas que voc faz a respeito de como quer viver o momento presente?
       E se voc soubesse que o impulso para agir de uma maneira que ir criar a beleza no mundo surgir bem no seu ntimo e servir de orientao sempre que voc 
simplesmente prestar ateno e esperar?
       Como isso daria forma  sua quietude, seu movimento, sua disposio de seguir este impulso, de apenas se soltar e danar?
       
       
  
       

A Dana

       
Eu lhe mandei meu convite,
a nota inscrita na palma da minha mo pela
       chama da vida. 
No d um salto gritando: "Sim,  isso que eu quero!
       Vamos em frente!" 
Apenas se levante em silncio e dance comigo.

Mostre-me como voc segue seus desejos mais profundos,
descendo em espiral em direo  dor dentro da dor, 
e lhe mostrarei como eu me volto para dentro e me
       abro para fora 
para sentir o beijo do Mistrio, doces lbios sobre
       os meus, todos os dias.
       
No me diga que voc quer encerrar o mundo inteiro
       no seu corao.
Mostre-me como voc evita cometer outra falta sem
se desesperar quando sofre uma agresso e tem medo de
       no receber amor.
       
Conte-me uma histria sobre quem voc ,
e veja quem eu sou nas histrias que estou vivendo. 
E juntos nos lembraremos que cada um de ns sempre
       tem uma escolha.
       
No me diga que as coisas sero maravilhosas... um dia. 
Mostre-me que voc  capaz de correr o risco de ficar
       completamente em paz, 
totalmente  vontade com a maneira como as coisas so
       neste exato momento, 
e tambm no momento seguinte, e no seguinte...
       
J ouvi histrias demais sobre a audcia herica. 
Conte-me como voc desmorona quando
       esbarra no muro, 
o lugar que voc no pode transpor pela fora
       da sua vontade.
O que conduz voc para o outro lado desse muro,
para a frgil beleza da sua condio humana?
       
E depois de mostrarmos um ao outro como definimos e
       mantivemos os limites claros e saudveis que nos 
       ajudam a viver lado a lado um com o outro,
vamos correr o risco de lembrar que nunca deixamos de 
       amar em silncio aqueles que um dia amamos 
       em voz alta.
       
Leve-me para os lugares do planeta que ensinam
       voc a danar, 
os lugares onde voc pode correr o risco de
       deixar o mundo partir seu corao, 
e eu conduzirei voc aos lugares onde a terra debaixo
       dos meus ps 
e as estrelas no cu fazem meu corao ficar inteiro
       de novo, e de novo.
       
Mostre-me como voc cuida dos negcios 
sem deixar que eles determinem quem voc . 
Quando as crianas esto alimentadas mas as vozes
       internas e as externas
gritam que os desejos da alma tm um preo alto demais, 
vamos lembrar um ao outro que o que importa
       no  o dinheiro.
       
Mostre-me como voc oferece ao seu povo e ao mundo
as histrias e as canes que voc quer que os filhos de
       nossos filhos recordem, 
e eu revelarei a voc como eu me empenho, 
no para mudar o mundo, mas para am-lo.
       
Sente-se do meu lado e compartilhe comigo longos 
       momentos de solido,
conhecendo tanto a nossa absoluta solitude quanto o
       nosso inegvel pertencer. 
Dance comigo no silncio e no som das pequenas
       palavras cotidianas, 
sem que eu me responsabilize no fim do dia por
       nenhum de ns dois.
       
E quando o som de todas as declaraes das
       nossas mais sinceras 
intenes tiver desaparecido no vento, 
dance comigo na pausa infinita antes da grande
       inalao seguinte do alento que nos sopra a
       todos na existncia, 
sem encher o vazio a partir de dentro ou de fora.
       
       No diga "Sim!".
       Pegue apenas a minha mo e dance comigo.
       
       Oriah Mountain Dreamer

UM
Mas Voc Sabe Danar?


Eu lhe mandei meu convite,
a nota inscrita na palma da minha mo pela chama da vida. 
No d um salto gritando: "Sim,  isso que eu quero!
Vamos em frente!''
Apenas se levante em silncio e dance comigo.
       

       
       A vantagem da palavra escrita  que posso lhe dizer quase no comeo o que s me foi relevado praticamente no fim: escrevo estas palavras para declarar que 
eu... que todos ns... somos dignos de ir para casa, dignos de ter nossos desejos satisfeitos, dignos de despertar nos braos do Ser Amado. No basta descobrir e 
expressar o anseio da nossa alma. Nossa capacidade de viver de uma maneira coerente com o nosso ardente desejo  nossa habilidade de danar  depende do que acreditamos 
que devemos fazer. Se nossa inteno for modificar quem realmente somos, no teremos sucesso. Se nossa inteno for nos tornar quem essencialmente somos, no poderemos 
deixar de ser verdadeiros diante dos mais profundos anseios da nossa alma.
       E um luminoso dia de outono, o tipo de dia em que o azul do cu nos surpreende e leva a acreditar que tudo  possvel. Encontro-me no ptio, um espao verde 
cheio de rvores entre os velhos edifcios de pedra do St. Michael's College, na Universidade de Toronto. Mas no estou consciente do calor do sol, do frescor da 
brisa, nem dos alunos que, no gramado, riem, falam e vivem vibrantes a alegria dos seus vinte anos. Tudo que consigo ouvir  o meu corao de quarenta anos trovejando 
nos meus ouvidos, batendo to forte e rpido que meu corpo trepida com a reverberao. Cada vez que dou um passo, o suor desce pingando pelas minhas costelas debaixo 
do suter de l. Uma dor comprida e fina irradia do meu peito e desce pelos braos como cacos de vidro percorrendo as artrias. Uma mo gigante est arrancando o 
corao do meu peito, e sinto medo.
       O que acabo de descrever lhe revela que nunca me ocorre pedir ajuda aos que passam por mim. Estica diante do que de repente temo que possa ser o fim, penso 
com meus botes: "Oriah, seria burrice morrer num lugar como este". Depois, eu me pergunto como seria um local interessante para morrer, mas no momento me concentro 
em seguir adiante, convencida de que tudo ficar bem se eu conseguir chegar  biblioteca do outro lado do ptio e me deitar numa das grandes poltronas da sala de 
leitura.
       De repente, ali, na calada, debaixo do sol de uma tarde insuportavelmente comum, ouo parte do poema de Pablo Neruda, "Ficando em Silncio", passar pela 
minha cabea como a letra de uma melodia triste sendo tocada no meu corpo:
       
       Se no estivssemos to empenhados
       Em manter nossa vida em movimento,
       E pelo menos uma vez pudssemos no fazer nada.
       Talvez um enorme silncio
       Pudesse interromper a tristeza
       De nunca entender a ns mesmos
       E de nos ameaarmos com a morte.
       
       Sinto o que parece ser uma pedra seca e afiada na garganta. Eu a engulo e me concentro em dar outro passo. Levo dez minutos para percorrer um caminho que 
geralmente fao em dois minutos. Reclinada em um sof, sinto a dor lentamente diminuir, e minha pulsao pouco a pouco voltar ao normal. A ltima linha do poema 
de Neruda fica se repetindo na minha cabea. Por que estou me ameaando com a morte? Mais tarde, um mdico me disse que eu tive um leve ataque do corao, enquanto 
outro declarou que foi um grave episdio de angina. Seja o que for, a mensagem  a mesma: 1apesar de expressar a mais sincera inteno de moderar meu ritmo de vida 
e descansar, continuo a fazer coisas demais, correr muito rpido, tentar em excesso. Continuo a me ameaar com a morte.
       E essa recusa de descansar no  a nica maneira pela qual tenho deixado de viver de uma forma coerente com meu mais profundo desejo de estar plenamente presente 
e inteira comigo mesma e com os outros. Recostada na biblioteca, revendo os ltimos meses da minha vida, tomo conscincia de um intervalo  que temo ser um abismo 
 entre meu desejo de viver de um modo ntimo e apaixonado comigo mesma e com os outros e as escolhas que fao continuamente, a maneira como no consigo me amar 
e amar os outros tal como quero.
Deixei de notar os sinais de alcoolismo avanado e de grave depresso no homem que tinha entrado na minha vida na primavera anterior. Embora ele funcionasse relativamente 
bem durante o dia, como arquiteto, acabei sabendo que Paul mantinha todas as noites um ritual no qual consumia grandes quantidades de usque. Era um hbito para 
amortecer a dor que ele desenvolvera cinco anos antes, depois que sua esposa morrera em um acidente de carro, porque ele adormecera ao volante. Se eu tivesse ouvido 
tudo que Paul me contou desde o incio  que, apesar do seu desejo de reconstruir a vida, ele achava que nunca seria capaz de amar ou ser amado de novo, que estava 
dando voltas em direo  morte  ser que mesmo assim eu o teria amado? Acho que sim. Eu j descobrira o corao meigo, a mente aguada e o esprito delicado debaixo 
da dor e do vcio. Mas se eu tivesse percebido e aceito as escolhas que ele estava fazendo para sua vida  para sua morte , eu o teria amado como o amo agora,  
distncia, sem esperar um relacionamento repleto de companheirismo e profunda intimidade. Quando me afastei, cheia de tristeza pelo que poderia ter sido, falei para 
mim mesma: "Eu devia ter dito a ele desde o incio: 'No me interessa que sua resposta ao meu convite seja Sim! Eu quero saber se voc sabe danar'".  Mas a verdade 
 que ele tinha me dito desde o incio que no seria capaz. Eu simplesmente no quisera ouvir. Aps aconselhar centenas de mulheres nos ltimos quinze anos, passei 
a acreditar que quase todos os homens dizem a verdade no incio de um relacionamento, mesmo quando  ou talvez especialmente quando  as mulheres a quem eles se 
dirigem esto praticando a escuta seletiva, no so capazes ou no se dispem a estar totalmente presentes ao que realmente existe.
       No entanto, o lugar onde eu mais deixei de estar presente da maneira como queria estar foi no caso do meu filho mais velho, Brendan. Na primavera, o pai dele 
e eu descobrimos que Brendan, uma vez mais, mentira para ns dizendo que estava indo  escola. Quando algum que amamos nos mente, ficamos de corao partido por 
perceber que ele no acredita que vamos continuar a am-lo se ele disser a verdade. Esperto, carinhoso e confuso, Brendan est claramente infeliz, incapaz de decidir 
o que quer fazer e sem vontade de receber conselhos ou procurar orientao. Nada muito anormal para um rapaz de dezenove anos. E eu, uma me completamente normal 
de um confuso rapaz de dezenove anos, estou me torturando com imagens dele, aos quarenta e cinco anos, morando no poro da minha casa e dormindo at o meio-dia. 
Alterno entre ficar furiosa com ele e terrivelmente preocupada, com medo de que Brendan no encontre o caminho para sua felicidade. Quero ser paciente, carinhosa 
e solidria. Na maioria das vezes sou intolerante, crtica e rabugenta. No existe nenhuma dvida quanto ao amor que sentimos um pelo outro, mas a nossa habilidade 
de ficarmos juntos na mesma sala sem entrar em atrito  sempre incerta. As discusses so freqentes, acaloradas e cada vez mais desagradveis, deixando os dois 
abatidos e eu, profundamente deprimida. Sei que preciso acreditar que Brendan  capaz de fazer as prprias escolhas e aceitar as conseqncias, mas tenho medo por 
ele. Ao escrever e meditar sozinha num lugar afastado durante um retiro de que participei no final de um longo vero repleto de conflitos, resolvo fazer as coisas 
de um modo diferente: serei mais paciente; afinal, ele s tem dezenove anos, h tempo para fazer escolhas. Vou me preocupar menos; afinal de contas, ele no est 
bebendo nem usando drogas. Serei mais solidria  ficarei em silncio com relao aos seus erros e aplaudirei o seu sucesso. No sou ingnua. Sei que vai ser difcil, 
mas tenho esperanas de que a fora do meu desejo ardente de am-lo me oriente e permita que eu seja uma me melhor. Posso sinceramente dizer que no h nada que 
eu queira mais na vida. Talvez seja isso que torna to difcil sermos pais  os filhos so importantes demais. E mais difcil aceitar meus erros humanos, meus erros 
de julgamento, minha falta de sabedoria neste caso, porque estou profundamente apegada ao resultado.
       Cheia de sinceras intenes de agir melhor, chego em casa e encontro Brendan me esperando na sala de estar. Duas semanas antes havamos concordado que, enquanto 
eu estivesse ausente, ele iria se aconselhar com algum, pensar nas opes que tinha diante de si, tomar algumas decises e comear a agir de alguma maneira  obtendo 
informaes sobre o ingresso nas escolas, candidatando-se a empregos, conversando com o pai. E aps duas semanas, depois de passar o vero inteiro na mais absoluta 
inrcia, ele no fez nada do que tinha combinado  no pensou, no tomou nenhuma deciso, no entrou em ao.
       "Voc no fez nada?" Minha voz desliza uma oitava para cima, com toda a desenvoltura mas sem a suavidade de uma soprano de pera. "Nada? Mas voc prometeu. 
Eu dei um tempo para voc. O que voc achava que ia acontecer quando eu voltasse? Eu simplesmente no consigo acreditar nisso!" Questiono, protesto, acuso, e depois 
desabo em silncio, mais devastada pela minha reao do que pela contnua inao dele, toda a esperana se esvaindo do meu corpo e do meu corao. Eu falhei com 
meu filho. Falhei comigo. Admitindo a derrota e com medo de causar um dano maior, fao a nica coisa que me vem  cabea. Digo a ele que v embora, que v morar 
com o pai. No se trata de um plano. No  uma estratgia.  uma tentativa desesperada de mudar as coisas, se no para ele, pelo menos entre ns. A dor me parte 
ao meio, mas eu sei que no podemos continuar como estamos.
       Brendan se muda naquele dia para a casa do pai. Dois dias depois, ele se candidata a um emprego e comea a trabalhar no final da semana, fritando hambrgueres 
numa lanchonete do bairro. Nove meses mais tarde, enquanto escrevo estas linhas, ele continua trabalhando, colocando dinheiro numa poupana, tentando descobrir o 
que quer fazer, mas claramente mais feliz do que era h nove meses. Ele me visita com freqncia, mas a nova distncia entre ns  apesar de pequena, pois seu pai 
mora oito casas depois da minha  est nos ajudando a aprender uma nova maneira de ficarmos juntos. Eu me policio antes de dizer que ele precisa se barbear, que 
devia usar um suter mais quente ou que no devia beber tanto caf  bem, pelo menos metade das vezes. Na outra metade, ele generosamente me ignora.
       Com o corao oprimido pelas trs vezes em que fui malsucedida no meu desejo de amar adequadamente a mim e aos outros, torna-se dolorosamente bvio que a 
inteno de viver de um modo coerente com os desejos da alma no  suficiente, mesmo quando esses desejos so profundamente sentidos e claramente articulados. Eu 
quero saber por que  to raro eu ser a pessoa que realmente quero ser. Comeo ento a escrever, porque a expresso escrita  minha maneira de procurar, de me abrir 
a uma possvel sabedoria. No estou interessada em saber por que eu no ajo de acordo com o que  realmente importante para mim. Eu sei por que no me exercito, 
embora repetidamente afirme que vou faz-lo: eu no gosto de me exercitar; na verdade eu no quero fazer exerccio; isso  uma coisa que eu acho que deveria fazer 
e no algo que eu realmente tenha a inteno de fazer. Mas quero saber por que repetidamente deixo de levar adiante as intenes que so importantes para mim. Quero 
saber como diminuir o intervalo entre os mais sinceros desejos da minha alma e minhas aes do dia-a-dia. Acredito que estar disposta a viver a verdade a respeito 
de mim mesma  o primeiro passo necessrio para reduzir o intervalo entre minhas intenes e minhas aes. E estou certa. Simplesmente no consigo imaginar ou antever 
qual  essa verdade e o que ela ir exigir de mim.
       Certa noite, depois de escrever durante vrios meses, uma das ancis que aparecem nos meus sonhos h mais de quinze anos  e que eu chamo de Avs  vem e 
fala comigo enquanto eu durmo. "A pergunta est errada, Oriah", diz ela. "No se trata de saber por que  to raro voc ser a pessoa que realmente quer ser. A questo 
 por que  to raro voc querer ser a pessoa que realmente ". Ela faz uma pausa. "Sabe por qu? Porque voc no acredita que quem voc  seja suficiente". A voz 
dela  suave, cheia de tristeza. "Mas acontece que . A verdadeira natureza dos seres humanos  repleta de compaixo, e essa natureza essencial os torna capazes 
de estarem ntima e plenamente presentes. Quem voc realmente ,  o bastante".
       Acordo, acendo a luz e escrevo no meu dirio: "A questo no  por que  to raro sermos a pessoa que realmente queremos ser. A questo  por que  to raro 
querermos ser a pessoa que realmente somos. " Sentada na cama,  luz que antecede o amanhecer, eu me vejo atordoada por uma estranha imobilidade. A caneta cai da 
minha mo e o dirio fica aberto no meu colo. Esta talvez tenha sido a primeira vez na vida, e possivelmente a ltima, em que no consigo pensar. O silncio  minha 
volta e dentro de mim cresce como a quietude palpvel e alongada que acontece depois que o som de um grande sino se extingue. A convico que tenho naquele momento 
de que o que a Av est me dizendo  verdade nunca ser apagada. O que ela me disse  que o que somos em nossa natureza essencial  suficiente; que somos, em cada 
momento, capazes de sentir compaixo e estar plenamente presentes e inteiros em um relacionamento ntimo com ns mesmos, com o mundo e com o Mistrio; que somos 
tudo que precisamos ser pela nossa prpria natureza; que o auto-aperfeioamento no  necessrio; que no vivemos os mais profundos desejos da nossa alma com o objetivo 
de mudar quem somos, e sim com a inteno de ser quem ns somos. E muito claro que essa inteno  de mudar ou de ser quem somos  molda profundamente a maneira 
como vivemos, o que achamos que precisamos fazer para aprender: se precisamos sempre nos obrigar a subir cada vez mais, ou se simplesmente precisamos encontrar a 
coragem e a confiana necessrias para o desabrochar de quem realmente somos. Esta ltima alternativa requer escolhas que amparem e expandam nossa natureza essencialmente 
bondosa, enquanto a primeira parte do princpio de que nossa natureza fundamentalmente imperfeita deve ser aperfeioada por meio de esforos hericos e infinitas 
tentativas.
       Embora essa permanente tentativa no esteja funcionando,  o que eu sei fazer. E difcil acreditar que seja suficiente eu ser como sou. Eu quero ser mais 
 mais bondosa, mais presente, mais consciente, mais amada e carinhosa, mais ntima de mim mesma e do mundo. Quero descobrir como ser diferente  melhor  do que 
sou. Embora eu no tenha conseguido viver sistematicamente meus mais profundos desejos, e esteja exausta por esforar-me tanto para me tornar quem eu acho que devo 
ser para viver esses desejos, me recuso a desistir de tentar. Confio na minha capacidade de me esforar. No tenho experincia e nem confio na minha capacidade de 
simplesmente ser quem eu sou.
       Essa falta de confiana em quem somos est incrustada na essncia da cultura que criamos. Estamos cercados pela suposio de que somos estruturalmente inadequados, 
pela noo do pecado original, que se tornou implcita numa cultura secular que prega a realizao, o aperfeioamento e a mudana. O mundo est cheio de livros, 
fitas e palestrantes que dizem como podemos mudar e nos transformar em algo que no somos, o que significa que o que somos no  suficiente, que somos, na melhor 
das hipteses, profundamente defeituosos e, na pior, desagradveis e agressivos. Em outras palavras: pecadores.
       Muitos dos mestres espirituais da Nova Era afirmam constantemente como nossa conscincia est "evoluindo". Essa afirmao pode ou no ser verdadeira, embora 
eu ache que talvez voc argumente, dizendo que o fato de nos tornarmos mais eficientes como fabricantes de armas para a destruio em massa e confiarmos cada vez 
mais apenas no pensamento racional, excluindo ou desvalorizando as emoes e a intuio, poderia ser considerado um sinal de involuo. Mas mesmo que voc escolha 
acreditar que estamos evoluindo, qualquer pessoa que tenha estudado o processo da evoluo lhe dir que ele  extremamente lento e provavelmente no ser til na 
minha tentativa de me tornar uma me mais paciente e amorosa antes que meus filhos atinjam a idade de se aposentarem. De qualquer forma, invocar a evoluo como 
a salvao esperada significa que nossa natureza precisa ser fundamentalmente transformada para que sejamos as pessoas que realmente queremos ser.
       Outros oradores expem uma idia semelhante de forma diferente. Compareci recentemente a uma apresentao oferecida a instrutores de grandes companhias, pessoas 
que trabalham tanto com executivos em atividade quanto com aqueles que perderam o cargo. O apresentador, um orador motivacional inteligente e divertido, no falava 
sobre o aumento do lucro ou a aquisio de bens materiais. Na verdade, ele questionava a utilidade dessas metas na nossa vida e sugeria que vivssemos cada dia com 
mais plenitude, uma inteno que pareceu coincidir com a minha. Mas quando ele passou a insistir, com um zelo verdadeiramente evanglico, que as pessoas da audincia 
"andassem um quilmetro extra" e vivessem mais plenamente, que se tornassem melhores pais, instrutores e executivos, que se levantassem uma hora mais cedo para se 
exercitar, que se levantassem duas horas mais cedo para meditar e se exercitar, que almoassem cada dia com uma pessoa diferente... senti que estava ficando exausta 
s de ouvi-lo. E, quando olhei para o rosto quieto e cansado dos homens e mulheres da platia  pessoas que j dormiam muito pouco e tomavam cafena demais , senti 
um enorme peso nos membros. De repente me dei conta de que eu estava concordando com ele: sim, essas eram as coisas que eu teria que fazer para ser coerente com 
minha inteno de viver plenamente. E eu soube bem ali, naquela hora, que eu no iria conseguir, que eu nunca seria disciplinada o suficiente para realizar todas 
aquelas coisas que eu teria que fazer se quisesse viver sistematicamente os anseios da minha alma ou as aspiraes daquele homem. Eu simplesmente no possua dentro 
de mim a energia necessria para todos aqueles avanos e conquistas.
       Cansada e desencorajada, pensei em voltar ao buf gratuito para comer outro croissant cheio de calorias  por que no, se eu nunca iria fazer mesmo metade 
do que deveria? Naquele momento exato o orador disse uma coisa que me sacudiu. Com absoluta convico, ele afirmou: "Quanto mais duros vocs forem consigo mesmos, 
mais fcil a vida ser para vocs!" Algo dentro de mim acordou imediatamente. Eu sabia que isso no era verdade. Ele estava oferecendo um acordo: se vocs se esforarem, 
a vida os recompensar. Numa frao de segundo, eu soube que esse era o lugar onde iria aterrissar vezes sem fim, levando meu corpo e meu corao ao limite da exausto, 
na esperana de realizar a sempre evasiva transformao espiritual, se continuasse a acreditar que a pergunta era por que  to raro sermos a pessoa que realmente 
queremos ser? E se o sucesso , na melhor das hipteses, improvvel, a nica esperana  um acordo, uma frmula mgica que oferece uma promessa e nos mantm escravizados 
 rotina do auto-aperfeioamento, esperando que algum ou alguma coisa perceba o nosso esforo e nos conceda um benefcio.
       No entanto, existem dias  meus filhos podero dizer semanas  nos quais a procura de indcios de que minha natureza fundamental  profundamente capaz de 
compaixo e bondosa  praticamente infrutfera. s vezes me sinto uma merda. Mesmo. Passo muito tempo pegando no p dos meus filhos por eles no fecharem bem o filme 
plstico que impede o queijo de endurecer na borda e por esquecerem de dar comida ao gato. Desconfio que eles deixam de propsito os tnis enormes no corredor para 
que eu tropece neles. Fico zangada com pessoas que no fazem as coisas do meu jeito, como a moa com quem falei ao telefone, que parece ter doze anos de idade, e 
no me deixou enviar meu material para o meu editor atravs do servio de courier a cobrar  apesar de eu j ter feito isso dezenas de vezes  porque acabara de 
ocorrer a ela que os Estados Unidos e o Canad no so o mesmo pas e a poltica da companhia  no fazer remessas a cobrar para o exterior. E, acreditem, eu posso 
ser muito desagradvel quando algum que est apenas cumprindo sua obrigao ou, porque est tendo um mau dia, no consegue perceber que o Meu Jeito  melhor.
       Mas a eu penso naqueles que amo. E engraado mas, ao contrrio da maneira como vejo a mim mesma, no tenho muita dificuldade em pensar nas outras pessoas 
como sendo essencialmente boas e cheias de compaixo, mesmo quando enxergo alguns aspectos pouco cativantes. Linda, minha melhor amiga h vinte e dois anos, tem 
mau gnio e, embora tenha sido uma freira catlica (ou talvez por causa disso),  capaz de xingar como um soldado da cavalaria quando est zangada. Uma coisa de 
assustar!
       Linda vem passando ultimamente por importantes mudanas na vida. Se voc a conhecesse agora, poderia pensar que ela  basicamente uma mulher com muita raiva 
dentro de si, e se voc me dissesse isso, eu lhe responderia sem hesitar que ela est apenas muito assustada. O medo de Linda se manifesta em forma de raiva. Consigo 
facilmente no perder de vista que Linda no  a raiva dela, que, bsica e essencialmente, Linda  uma mulher delicada e cheia de compaixo, realmente capaz de ser 
plenamente presente e amorosa com qualquer pessoa no planeta. Como eu sei isso? Porque j vi. E claro que voc poder acrescentar que eu tambm j vi a impacincia 
e a raiva. Por que, ento, no me sinto pelo menos um pouco confusa a respeito de quem  a Linda essencial? No sei. Eu simplesmente sei que a verdadeira essncia 
da minha amiga  a parte boa.  o amor que me deixa enxergar isso em Linda e saber que o que vejo  verdade. Talvez seja isso que falte quando examino a mim mesma.
       Mas se os seres humanos so por natureza basicamente capazes de compaixo e bondosos, por que nos deixamos levar to freqentemente pela raiva, pela intransigncia 
e pela impulsividade? Uma vez mais, quando olho para algum de quem eu gosto, a resposta a essa pergunta no  nenhum mistrio: medo. Linda se comporta de uma maneira 
incompatvel com sua natureza bondosa essencial quando est com medo, quando o medo se coloca entre ela e seu conhecimento de quem e do que ela . Esse conhecimento 
a tranqilizaria, dizendo-lhe que ela faz parte fundamentalmente de um todo, que ela, eu e voc somos feitos da mesma substncia e, portanto, nada de mau pode acontecer 
ao nosso eu essencial.
       O processo  o mesmo para cada um de ns, embora o que nos faz ter medo, o que nos faz esquecer quem e o que somos, possa ser diferente. Existem muitas maneiras 
de descrever os fatores que moldam nosso medo e influenciam nosso comportamento: os traumas e condicionamentos do passado, as tendncias hereditrias e as reaes 
adquiridas, a biologia humana, a psicologia e a espiritualidade. Podemos nos conhecer melhor se examinarmos um ou todos esses fatores, mas no acredito que possamos 
um dia afirmar que temos uma explicao definitiva para a totalidade do nosso comportamento. Permanecemos, como grande parte do universo, um mistrio para ns mesmos. 
Sejam quais forem as razes do comportamento incompatvel com a natureza essencialmente bondosa e solidria que nossa querida Av afirma possuirmos, a pergunta prtica 
que devemos fazer se quisermos viver o anseio da nossa alma  a seguinte: como podemos expandir as oportunidades e aumentar a probabilidade de viver em harmonia 
com nossa natureza essencial? Como podemos danar?
       Se eu quero viver minha capacidade de ser plenamente presente, inteira, bondosa, capaz de compaixo, minha capacidade de estar com tudo  com a alegria e 
com a tristeza , preciso encontrar a maneira, as pessoas, os lugares e as prticas que me ajudam a ser tudo o que realmente sou. Preciso cultivar modos de ser que 
me deixem sentir o calor do estmulo no meu corao quando ele estiver. abatido. Preciso ser ardente e apaixonadamente sincera comigo mesma com relao s escolhas 
e aes incompatveis com minha natureza mais profunda e com os desejos da minha alma. Preciso encontrar a letra das canes que acompanharam minha vida, as melodias 
que me fazem lembrar o que eu realmente sou e suavemente me chamam de volta para agir com base nesse conhecimento. Preciso aprender a danar.
       A Dana  um livro que vai procurar lhe dizer como encontrar maneiras de deixar que sua natureza essencial oriente suas escolhas e aes. Vai lhe mostrar 
como olhar sinceramente para os momentos em que  difcil para todos ns sermos guiados por quem realmente somos  os momentos em que estamos cansados ou magoados, 
assustados ou zangados. Sobre os lugares na nossa cultura onde  fcil ficarmos confusos a respeito de quem somos  quando estamos lidando com o dinheiro, o sexo, 
a morte e o poder.
       Declarar em voz alta os desejos da nossa alma pode fazer nosso sangue correr mais depressa e nossas paixes se inflamarem. Quando compartilhei um poema que 
eu escrevera, declarando o anseio da minha alma, com homens e mulheres que tinham participado comigo de seminrios e retiros, muitos responderam com um sincero "Sim!" 
ao chamado que ouviram para viverem mais plenamente presentes e inteiros na vida e no mundo. Homens e mulheres me disseram que tinham usado o poema como uma pedra 
de toque para escolher seus parceiros. Uma mulher me contou que lera o poema em voz alta na terceira vez que saiu com um novo namorado e esperou para ver a reao. 
Quando ele pegou a mo dela, olhou-a nos olhos e disse, entusiasmado: "Quero que voc saiba que eu digo 'Sim!' para tudo", ela soube que esse era o homem que ela 
queria. Outra moa me apresentou ao noivo, um homem que tambm reagira com entusiasmo ao poema meses antes, depois que o namorado dela na poca dera de ombros, com 
indiferena, ao ouvi-lo.
       Adoro escutar essas histrias, pois s Deus sabe que eu e outras pessoas j nos unimos a parceiros com base em indcios mais frgeis do que um entusiasmo 
mtuo por um poema que consideramos significativo.
       Expressar nossas intenes freqentemente faz parte de sermos claros a respeito das nossas aes e de assumirmos um compromisso com elas. s vezes, quando 
essas intenes so expressadas atravs de palavras que vm do mais profundo de nosso ntimo, nos momentos em que temos clareza sobre o que  realmente importante 
para ns, as prprias palavras tm o poder de abrir nosso corao e nossa imaginao  possibilidade de realmente vivermos o nosso grande desejo. E esse o poder 
da poesia que eu amo, a poesia de Rumi, Yeats e Neruda, de Mary Oliver, Annie Dillard, Susan Griffin e de muitos outros. As palavras podem se tornar atos de beleza 
que despertam e fortalecem nosso compromisso de viver os desejos da nossa alma.
       No entanto, ser sinceros ao dizer uma coisa e ser capazes de viv-la so duas coisas muito diferentes. Quanto mais eu envelheo, mais gosto das palavras e 
confio nas aes. Quando eu era jovem e conhecia um homem, queria saber se ele achava que as mulheres tinham os mesmos direitos que os homens. Hoje, estou mais interessada 
em saber se ele vai preparar regularmente algumas das refeies e lavar a loua depois  e isso inclui limpar a sujeira no identificvel que se acumula no ralo 
da pia da cozinha  sem reclamar muito. Estou menos interessada nas convices espirituais ou na filosofia poltica que as pessoas declaram ter e mais interessada 
em saber se elas so ou no sinceras com elas mesmas, at quando isso lhes custa alguma coisa, se elas conseguem ou no ser gentis, quando  mais fcil ser indiferente, 
se elas conseguem ou no se lembrar de que faz parte da condio humana termos defeitos e sermos ao mesmo tempo espetaculares e cheias de compaixo.
       Se no somos capazes de ouvir a msica da nossa suave natureza nos chamando, se no conseguimos lembrar que a inteno  viver quem realmente somos, fica 
difcil saber como avanar, onde comear, como danar.  por isso que nem sempre  uma boa idia comear a falar alto, com entusiasmo, a respeito do que vamos fazer, 
de como vamos viver o grande desejo da nossa alma, por mais forte que esse anseio seja sentido no momento. s vezes precisamos apenas ficar quietos juntos, de mos 
dadas, at que um de ns oua a msica e comece a danar.
       
MEDITAO SOBRE SUA NATUREZA ESSENCIAL
       
       O objetivo desta meditao  expandir delicadamente sua capacidade de estender para voc a mesma bondosa compaixo e compreenso que oferece queles que ama.
       Sente-se ou deite-se numa posio confortvel e concentre sua ateno na respirao, acompanhando o ar enquanto ele entra e sai do seu corpo, relaxando os 
msculos cada vez que soltar o ar. Faa isso doze vezes, apenas seguindo o subir e descer do seu corpo em cada respirao.
       Traga agora  mente algum que conhea bem, algum que voc tenha visto nos melhores e piores momentos, algum que voc ame profundamente. Passe um momento 
visualizando essa pessoa, sentindo o amor que tem por ela.
       Lembre-se agora de como essa pessoa se comporta quando no est nos melhores momentos, quando est profundamente amedrontada e incapaz de conviver com o medo. 
Ela  agressiva com os outros ou se recolhe? Ela foge da dor ou mergulha nela, acusando-se e sofrendo mais por se sentir culpada? Veja essa pessoa como ela  nesses 
momentos e perceba que o que ela faz no altera o amor que voc sente por ela nem muda aquilo que voc sabe ser o que h de melhor nela.
       Imagine agora qual seria a impresso que essa pessoa querida daria, em seus piores momentos, para algum que no a conhecesse, algum que poderia chegar  
concluso de que ela  essencialmente agressiva, carente, arrogante ou fria. Imagine-se descrevendo para esse algum o que voc v e ama naquela que voc conhece, 
falando do que h de essencial nela. Visualize-a tornando-se a pessoa que voc est descrevendo, a pessoa que voc sabe que ela , reluzindo na natureza essencial 
dela, e desligue-se dessa imagem.
       Volte agora a ateno para voc e visualize-se, como voc fez com a outra pessoa, em um dos seus piores momentos. O que voc faz quando est com medo e simplesmente 
no consegue conviver com esse sentimento? Voc tem uma reao agressiva ou se afasta dos outros? Veja-se tendo um comportamento inadequado e imagine que uma pessoa 
desconhecida tambm est olhando para voc. A que concluses essa pessoa poder chegar a seu respeito ao presenciar o que est acontecendo e sem conhecer ou amar 
voc? Explique a esse desconhecido por que voc est se comportando de um modo inadequado. Fale-lhe do profundo medo, insegurana, cansao ou perplexidade que motivam 
esse comportamento. Diga-lhe como  essa pessoa  que  voc  em sua natureza essencial. Conte-lhe quais so as coisas mais profundamente importantes para esse 
ser humano, como ele ama e qual a contribuio que ele quer trazer ao mundo. Enquanto voc descreve sua natureza essencial, veja-se no seu melhor momento, aquele 
em que suas aes esto em harmonia com essa natureza. Reflita sobre esta questo: "E se eu for realmente assim? E se a nica coisa que eu preciso fazer for permitir 
o desabrochar do que sou essencialmente? E se tudo que eu preciso fazer  me tornar quem eu realmente sou? E se isso for o suficiente?".
       
 

DOIS
Danando com o Mistrio

Mostre-me como voc segue seus desejos mais profundos,
descendo em espiral em direo  dor dentro da dor,
e lhe mostrarei como eu me volto para
dentro e me abro para fora
para sentir o beijo do Mistrio, doces lbios
sobre os meus, todos os dias.


       
       Este  o meu segredo: eu sempre senti ao meu lado uma presena maior do que eu.
       Esta  minha mais antiga e clara lembrana: estou deitada na cama, o corpo arqueado em forma de uma bola, ouvindo com cada clula do meu corpo. Devo ter trs 
ou quatro anos, sou crescida o suficiente para dormir numa cama sem grades, mas bem pequena para ser posta na cama quando a luz que entra pela janela ainda me permite 
enxergar as paredes rosa plido do meu quarto. Posso ouvir meus pais discutindo no quarto ao lado. No consigo distinguir as palavras, mas reconheo o som da raiva 
e do choro. Os momentos de silncio so piores do que as palavras  uma separao que ameaa a totalidade do meu mundo.
       Embora no paream jovens para mim, meus pais tm apenas vinte e poucos anos. Mais tarde, quando adulta, darei valor  maneira como eles suportaram o estresse 
e a tenso decorrentes do fato de serem to jovens e j casados, com duas crianas pequenas. Mais tarde, depois de me casar e 2me divorciar duas vezes, perguntarei 
a mim mesma como eles continuaram juntos, ficarei maravilhada por no ter havido mais discusses e me sentirei grata pela ausncia da violncia. Mais tarde, quando 
eu me arrastar para um canto escuro, debaixo da escrivaninha no apartamento em que moro com meu primeiro marido, encostando os joelhos no queixo, na esperana de 
me tornar bem pequena, a ponto de ele no conseguir me puxar para fora e bater em mim de novo, pensarei nos meus pais. E quando meu marido tentar me convencer de 
que o que est acontecendo conosco  normal entre os recm-casados, que todos os jovens casais convivem com a infelicidade e a violncia, quase acreditarei nele. 
Quase. O que vai me salvar  a lembrana dos meus pais que, mesmo quando jovens, discutiam sem violncia, riam mais do que choravam e se divertiam mais do que brigavam.
       Mas, aos trs anos de idade, deitada no escuro e ouvindo o som da voz deles, no tenho essa viso. Estou simplesmente assustada com o barulho da discusso. 
Eu me esforo para ouvir as palavras, esperando que eles parem, desejando que fiquem amigos de novo. Pouco a pouco a raiva na voz deles  substituda pelo cansao 
e tudo fica em silncio. Aliviada, mas ainda preocupada, no consigo dormir. Meu corpo continua arqueado formando um n bem apertado e ouo meu corao batendo bem 
forte. Rezo ento ao Deus de que ouvi falar quando minha me levou-me ao culto dominical da Igreja Presbiteriana. Peo a ele que nos proteja, que acabe com a briga, 
que me ajude a pegar no sono. E, enquanto eu rezo, comeo a sentir uma presena no quarto. E uma fora afetuosa que envolve a minha cama. Meus msculos se relaxam 
diante dessa presena que parece me abraar e eu me imagino dentro de uma mo gigante  a mo de Deus  ali na minha cama. Ento eu pego no sono, envolvida por uma 
grande ternura.
       Invocar essa presena se torna minha maneira de enfrentar as dificuldades. A ansiedade faz parte da vida, e s eu vezes me sinto oprimida pelo mundo, pelas 
expectativas e por tudo que h para aprender. Mas, cada vez que eu rezo, sinto que me envolve a presena de algo que  maior do que eu. s vezes, quando estou particularmente 
aborrecida com o que aconteceu durante o dia  uma briga com meu irmo, ou por eu ter feito alguma coisa que inflamou o gnio terrvel da minha me , ouo uma voz 
enquanto pego no sono, uma voz que me chama pelo nome e me enche com um calor que comea no peito, bem no centro da minha pequena caixa torcica, debaixo da minha 
camisola de flanela, e se espalha pelo corpo. A voz, que parece vir ao mesmo tempo de fora e de dentro de mim, diz o seguinte: "Estamos sempre com voc. Estaremos 
sempre com voc". E eu sei que  verdade.
       No converso com ningum a respeito das minhas preces, da mo de Deus, nem da voz que me conforta  noite. No por ser especialmente fechada. Eu apenas suponho 
que cada pessoa deve ter sua prpria maneira de saber que est sendo protegida por Deus quando no consegue dormir. Para mim, conversar sobre isso  o mesmo que 
falar sobre a respirao  so coisas to naturais quanto o fato de estarmos vivos.
        medida que vou crescendo, minhas preces viram conversas. Fao perguntas, peo orientao. "O que devo fazer com a minha vida? Como posso transformar o mundo 
num lugar melhor? O que est certo e o que est errado?" E sempre escuto respostas. E claro que elas no so muito precisas, como "Faa isso! Faa aquilo". O mais 
comum  eu ouvir dentro de mim perguntas do tipo: "O que voc gosta de fazer? Quem  que voc v sofrendo? Como voc pode ajudar?" s vezes as respostas so curtas: 
"respire" ou "desapegue-se" ou "tenha pacincia". E sempre h essa sensao de uma presena me envolvendo, de vozes prometendo que sempre estaro comigo.
       Aos quatorze anos descubro que nem todo mundo tem esse tipo de experincia e fico bastante abalada. Minha melhor amiga, Debbie,  a portadora das ms notcias. 
Estamos voltando juntas para casa, reclamando da prova de matemtica, nos preocupando porque nenhum rapaz nos convidou para sair e falando sobre Deus. Sua declarao 
 categrica, desafiadora, pois ela simplesmente no consegue acreditar na minha estupidez. "Nenhuma outra pessoa escuta respostas quando reza. Ningum ouve nada".
       No consigo entender. Moramos numa cidade de cinco mil habitantes que tem pelo menos oito igrejas regularmente freqentadas por quase todo mundo que eu conheo. 
A religio representa uma grande parte da estrutura social da cidade e, embora fique frustrada com a monotonia dos servios religiosos e com o dogmatismo dos ensinamentos, 
imagino que cada um dos participantes tem seu prprio dilogo com algo maior do que eles mesmos.
       Debbie  enftica: "As pessoas rezam. Rezamos na igreja, rezamos antes das refeies e ao deitar. Mas, de um modo geral, no rezamos quando estamos sozinhos, 
e mesmo quando fazemos isso, no ouvimos nada!".
       Fico atordoada e, por um momento, sinto medo. E se um dia eu no conseguir ouvir nem sentir nada? No consigo imaginar como as pessoas conseguem enfrentar 
o mundo sem sentir a presena de algo maior do que elas. Sobretudo porque tenho plena conscincia de que minhas aflies so bastante insignificantes quando comparadas 
com as daqueles que no tm uma famlia carinhosa ou uma renda adequada. Mas o medo  apenas momentneo. Durante toda a minha vida ouvi as vozes me garantindo que 
sempre estariam presentes, e eu acredito nelas.
       Nada tem alimentado mais os meus esforos para cultivar uma prtica espiritual diria do que a lembrana dos momentos em que eu no conseguia nem mesmo me 
lembrar de entrar em contato com a presena que me envolvera. Nesses momentos eu me via presa em uma rida amnsia do corao. No  que algum dia eu tenha pensado 
que essa presena tivesse me abandonado, mas houve ocasies, durante meu primeiro casamento, quando eu tinha apenas vinte e poucos anos, em que eu simplesmente no 
conseguia achar nem tempo nem energia para olhar na direo dessa constante emanao de amor. Eu estava distrada pelo que parecia ser uma necessidade terrvel de 
decidir o que fazer com a minha vida, bem como pela violncia cada vez mais intensa no meu casamento. Lembro-me de ter pensado vagamente em certa ocasio, enquanto 
eu literalmente voava pelo ar e caa sobre os azulejos pretos e brancos do cho da cozinha, que tinha algo que eu precisava procurar, algo que eu precisava lembrar 
e que iria mudar tudo. Mas no consegui desanuviar minha mente ou meu corao para poder lembrar o que era. Cheguei at a esquecer que tinha algo a ser lembrado, 
tragada pela necessidade de ter que me afastar das trevas do momento presente  como se houvesse algum lugar para ir.
       Foi a doena que tive alguns anos mais tarde, causada em grande parte pela violncia daquele casamento, que me levou a retomar e cultivar conscientemente 
minha conexo com o Esprito. Ficar deitada na cama pode ser muito solitrio. Mas s quando aprendi a permanecer com a solido de uma maneira consciente, e sentir 
um indescritvel desejo,  que me lembrei de como eu costumava pegar no sono ajudada pela mo de Deus. E quando avancei na direo da presena que sempre estivera 
presente, as vozes que tinham dito que nunca me abandonariam apareceram imediatamente ao meu lado. Eu tornei a ouvi-las. Ns sempre corremos o risco de nos afastar 
da solido rpido demais, fugindo da dor antes que ela possa nos levar de volta ao Bem-Amado.
       O fato de Deus se comunicar diretamente comigo na infncia quando eu o chamava no me parecia estranho. Quando adulta, comecei a perceber como esse fato ofendia 
algumas pessoas. H alguns anos, um pastor protestante me assegurou, com grande convico, que Deus j tinha dito tudo que precisava ou queria dizer queles que 
tinham escrito a Bblia. Aquelas foram as palavras finais de Deus.
       "Mas", retruquei, "a situao do mundo  o sofrimento, a crueldade, o desespero , tudo isso d a impresso de que os seres humanos no ouviram o que Deus 
estava tentando dizer. O que o senhor fala me d a impresso de que Deus  como uma me ou um pai zangado, dizendo: 'Se voc no entendeu da primeira vez, eu no 
vou repetir.' Eu no acredito que Deus seja assim. O senhor no acha que um Deus amoroso iria querer transmitir sua mensagem aos seres humanos do maior nmero de 
maneiras possvel para aumentar as chances de eles entenderem?".
       Ele permaneceu impassvel diante do meu argumento, insistindo obstinadamente que ningum hoje em dia poderia experimentar diretamente Deus ou a mensagem de 
Deus para ns. Essa forma de ver as coisas me parece hoje uma conseqncia quase inevitvel da idia de que Deus  algo ou algum fora ou separado de ns. Se ns 
no somos essencialmente uma personificao do divino,  claro que no merecemos ou somos incapazes de nos comunicar diretamente com Deus ou vivenciar essa presena 
sagrada.
       Os ancios das tribos indgenas norte-americanas com quem estudei dizem que devemos tomar cuidado, porque temos a propenso de abrir mo da nossa responsabilidade 
quando conclumos que as coisas so sinais ou mensagens divinas. Conheci muitas pessoas que justificam suas escolhas atravs do horscopo do dia ou da forma como 
interpretam a primeira coisa que cruzou seu caminho depois que fizeram uma pergunta durante uma sesso de meditao  uma frase fortuita num livro, o telefonema 
de um amigo, uma msica no rdio. Eu no estou dizendo que essas coisas, ou aquilo que chamamos de coincidncias, no sejam sinais ou transmitam mensagens que nos 
ajudam a examinar mais profundamente as questes da nossa vida. Mas nunca achei que as experincias que eu tive com essa presena sagrada na infncia ou na idade 
adulta me tiraram a responsabilidade pelas escolhas que fiz e fao. Nunca recebi respostas fceis, s perguntas e sugestes que me fizeram refletir mais profundamente 
sobre a minha experincia.
       Eu chamo essa presena de Mistrio, porque sei que tudo o que pensamos a respeito dela so apenas nossas idias. Eu no sei o que ela . Sei apenas, a partir 
da minha experincia, que ela existe.
       Todos os dias, s vezes quando estou meditando, ou trabalhando no computador, sentada no carro esperando o sinal abrir, ou jantando com amigos, presto ateno 
em minha respirao e me visualizo num plano interior, com o rosto voltado para aquilo que  maior do que eu  o Grande Mistrio. Basta voltar o rosto para ele. 
Tomo conscincia da temperatura do ar que toca minha face. Imagino as molculas de oxignio, hidrognio e dixido de carbono acariciando a pele do meu rosto. E sinto 
que essas molculas esto vivas, com uma vibrao, uma presena que tambm se encontra na pele do meu rosto, nas molculas dessas clulas e nos tomos e partculas 
subatmicas dessas molculas.
       Volto lentamente a ateno para a paisagem que me cerca e que tambm est dentro de mim, e me torno consciente dessa presena, como o murmrio de uma grande 
cano que constantemente ressoa por toda parte e emana do meu corpo, da cadeira que me sustenta, do cho debaixo dos meus ps e das pessoas  minha volta. Conheo 
essa presena como um todo que  maior do que a soma das partes e, no entanto, inseparvel das partes  inclusive de mim  que esto em constante mudana. E vivencio 
essa presena, esse fio de existncia que corre atravs da escura tapearia da vida cotidiana, como aquilo que me confere a capacidade de verdadeiramente conhecer 
as outras pessoas como um outro eu  como compaixo.
       Quando eu me abro totalmente  conscincia dessa presena, meus ombros caem um pouco, meu abdmen relaxa e libera os depsitos acumulados de pequenas preocupaes 
cotidianas que se amontoam nas minhas entranhas como os depsitos minerais das fontes de gua. Se permaneo com a conscincia dessa presena, eu a sinto como o calor 
do centro da vida, como a inata alegria orgsmica que grita "Viva!" mesmo quando se consome totalmente. Eu a conheo como a essncia, a prpria substncia da qual 
eu e tudo que existe somos feitos, e me lembro que isso  esse Mistrio que  sagrado   quem e o que ns somos.
       Embora minha experincia dessa presena tenha permanecido essencialmente a mesma atravs dos anos, minha forma de v-la e descrev-la se modificaram. O contato 
com outras religies e meu desenvolvimento como mulher mudaram a idia de Deus como um ser divino transcendente masculino. Mas a presena ao redor e dentro de mim 
permaneceu a mesma. Por volta dos trinta anos, comecei a ter sonhos muito ntidos com um conselho de mulheres idosas que chamei de Avs. Elas me encaminharam a um 
xam, um curandeiro, um ndio americano que se tornou meu professor. Meu amor pelas regies agrestes me conduziu a esses ensinamentos e prticas ligados  terra, 
originrios do solo que eu amo. Por causa disso, e tambm por causa do meu interesse em fortalecer o elemento feminino tanto na minha vida quanto no mundo, talvez 
no deva causar surpresa o fato de a presena da voz dessas Avs no sonho ter se tornado uma parte, uma expresso particular, da presena maior que sempre esteve 
comigo.
       Por vivenciar esse Mistrio como algo constante, permeando tudo, minhas palavras, que so essencialmente limitadas, no so capazes de captar a natureza dele, 
mesmo que em algum nvel eu consiga compreend-lo. Descrever minha experincia do Sagrado como o beijo do Mistrio  uma metfora para tentar descrever a experincia 
que quero compartilhar. Seja como for, a impossibilidade de descrever com preciso no muda a realidade dessa presena. Quando estamos sofrendo ou com medo, sentir 
essa presena  um conforto especialmente profundo. Alguns encontram conforto e orientao chamando e experimentando essa presena como Deus, Al, Cristo, a Grande 
Me, conscincia de Buda. Os seres humanos possuem literalmente milhares de nomes e imagens para sua experincia do Sagrado.
       Tudo que eu sei  o seguinte: existe uma presena maior do que eu que est comigo desde que nasci. Sinto essa presena como amor e, de um modo essencial, 
ela  o que eu sou.
       Conheo muitas pessoas que vivenciam essa presena de um jeito que elas jamais rotulariam de espiritual  contemplando e exaltando tudo que  verde e est 
vivo no planeta, atravs da sua participao na deslumbrante batalha da criatividade, entregando-se a uma beleza maior na forma, na cor, no som ou na palavra. Um 
anseio dentro de ns  satisfeito quando realmente prestamos ateno e participamos da beleza da criao. Essa atitude nos liga  presena do que  indescritvel. 
Debaixo de qualquer um dos nossos desejos est expresso o profundo desejo da alma de viver, em cada momento, com a conscincia dessa presena que  maior do que 
ns.
       Mas nossas preces so as preces de seres humanos e por isso raramente so to grandiosas. Quando estamos desempregados e preocupados com a sobrevivncia dos 
nossos filhos, nossa prece mais sincera pode ser um pedido de dinheiro ou de emprego. Quando vivemos essas inquietaes imediatas e muito legtimas, descobrimos 
em ns a necessidade de saber que pertencemos a uma comunidade, que no estamos sozinhos, oprimidos pelos caprichos reais ou imaginrios do mercado ou pelas incertezas 
do mundo. E debaixo desse genuno desejo de apoio e comunho existe o anseio do contato com aquilo que sustenta e conecta todos ns: o Grande Mistrio.
       No estou desqualificando nossas necessidades humanas e considerando-as menos valiosas do que o nosso anseio pelo Sagrado. Certa aluna minha, uma mulher de 
cinqenta e poucos anos com quem j trabalho h muito tempo, perdeu a me e o irmo quando tinha quinze anos. Eles morreram num acidente de carro. Freqentemente, 
a dor dessa perda e o anseio pela me so novamente tocados, abrindo a ferida interior que nunca fica curada. Sentei-me ao seu lado num retiro, enquanto ela soluava 
de modo incontrolvel. Quando conseguiu falar, ela me disse: "s vezes eu me pergunto se no estarei confundindo o anseio pela minha me com o ardente desejo pelo 
Esprito".
       E eu respondi: "E o mesmo anseio".
       Vemos Deus no rosto do filho, da filha, do marido, da mulher, do pai ou da me que amamos. Ns nos sentimos envolvidos pelo Mistrio quando uma pessoa com 
quem temos uma relao de amor ou amizade estende a mo e abre o corao para ns. s vezes essa sensao  mais intensa quando o gesto de carinho vem de um estranho. 
No entanto, no podemos procurar satisfazer nossa necessidade mais profunda com esses relacionamentos, pois eles so necessariamente passageiros e mutveis, enquanto 
o nosso desejo  por aquilo que  constante e permanente. Temos a tendncia de procurar satisfazer essa necessidade profunda nos relacionamentos romnticos, talvez 
porque a chama da intimidade sexual, quando estamos apaixonados, seja extremamente semelhante ao xtase que sentimos quando os doces lbios do Mistrio tocam os 
nossos.
       Jai Uttal, talentoso msico e cantor, dirige centenas de pessoas nos cnticos hindus dirigidos  deusa Sita e ao deus Ram, num retiro no norte do Estado de 
Nova York. No sou hindu, mas, ao ritmo do tambor e do harmnio, canto esses belos nomes desconhecidos da presena que eu conheo. Gosto muitssimo desses cnticos, 
porque so declaraes de devoo ao divino. De vez em quando minhas preces se parecem demasiadamente com uma lista de compras de necessidades. Nos retiros, cantamos 
durante mais de uma hora e sou preenchida pela conscincia do Bem-Amado ao meu redor e dentro de mim. Dentro da melodia, uma voz canta: "Voc  minha".
       Mais tarde, sozinha na minha cabana, fico deitada no escuro e penso no meu nome.
       Oriah  um nome que me foi dado em sonho pelas Avs, quando eu tinha trinta anos. Durante vrios anos sofri com a sndrome de deficincia imunolgica da fadiga 
crnica e, quando acordei, senti que adotar esse novo nome fazia parte da cura que eu buscava to desesperadamente. Mas eu me sentia assustada. Tudo parecia excessivamente 
fantstico, extravagante demais. Eu tinha medo do que os outros poderiam pensar. Apesar do medo, uma semana depois mudei de nome. Quando perguntei s mulheres dos 
meus sonhos o que o nome significava, elas simplesmente balanaram a cabea e disseram: "No est na hora".
       No decorrer dos dez anos seguintes, as mulheres dos sonhos me disseram coisas a respeito do significado do meu nome. Na ltima vez, h cerca de seis anos, 
uma delas disse: "Seu nome significa Aquela Que Pertence a Deus". Eu sei que ela poderia ter usado a palavra Mistrio ou Bem-Amado com a mesma convico e me perguntei 
se ela no disse Deus para me lembrar das experincias da infncia.
       Deitada na cama depois dos cnticos hindus, penso novamente nesse significado do meu nome: aquela que pertence a Deus. Como esse nome  verdadeiro para todos 
ns! Pertencemos a Deus -  sagrada fora vital. Repito meu nome para mim mesma, sussurrando na escurido: "Oriah, Aquela Que Pertence a Deus... Aquela Que Pertence 
ao Bem-Amado... Aquela Que Pertence ao Grande Mistrio...", e comeo a imaginar como seria viver cada dia, dirigir minhas aes, escolher minhas palavras e ver o 
mundo como uma pessoa que se lembra que pertence e  uma personificao do Sagrado. Como essa pessoa trataria o prprio corpo e o corao? Como trataria as outras 
personificaes do Sagrado  as outras pessoas, as rvores e os animais, a terra? Como voc planejaria seu dia se realmente soubesse que pertence a Deus, se acreditasse 
que voc  uma personificao do sagrado Mistrio, se tivesse conscincia de que ns estamos rodeados e envolvidos pelo Bem-Amado?
       No estou em busca da perfeio. Simplesmente procuro me lembrar todos os dias de quem eu sou e do que eu sou. Procuro as pessoas, os lugares e as prticas 
que me ajudam a desenvolver essa conscincia no meu dia, na minha vida e nas minhas escolhas. Nossa vida  a dana que foi tecida desde o incio na estrutura do 
nosso ser. A presena do Grande Mistrio est sempre conosco. Tudo que preciso fazer  voltar o rosto na direo dele para encontr-lo  como uma voz debaixo do 
som das ondas verde-claras que quebram na praia, como um toque do invisvel atrs do meu pescoo, que me faz parar e me virar enquanto corto cenouras na pia da cozinha, 
como um beijo que se prolonga quando eu acordo dos sonhos na nvoa das manhs sombrias.
       
MEDITAO PARA A CONSCINCIA
       
       s vezes abrir a conscincia para a sagrada fora vital que est ao mesmo tempo dentro de ns e  nossa volta  to simples quanto qualquer um dos nossos 
gestos cotidianos.
       Assim sendo, experimente fazer isso onde quer que voc esteja no momento. Sem preparativos ou expectativas, simplesmente volte a ateno para a pele do seu 
rosto. Tome conscincia da temperatura do ar que toca sua face, sua testa, seus lbios e seus olhos. Imagine as correntes de ar deslocando-se pelo seu rosto, tocando 
sua pele, modificando-se, redirecionadas pelos movimentos que voc faz. Vire lentamente o rosto e tome conscincia da mudana da sensao no ponto em que o ar toca 
sua pele.
       Imagine agora as molculas que formam esse ar no ponto em que ele toca sua pele  as molculas de oxignio, hidrognio e dixido de carbono colidindo umas 
com as outras e ricocheteando contra sua pele. Imagine os tomos que compem essas molculas vibrando com o movimento de partculas subatmicas. Conscientize-se 
dessa vibrao como uma energia uniforme da fora vital em todas as diferentes molculas do ar que toca seu rosto e envolve voc.
       Agora, mantendo parte da ateno no ar  sua volta, imagine esse mesmo tipo de vibrao nas clulas da pele que o ar est tocando. Imagine as molculas dessas 
clulas vibrando no nvel dos tomos e partculas subatmicas. V tomando conscincia dessa energia da fora vital em todo o corpo. Faa-a descer pelo pescoo, atravessar 
os msculos do tronco e 3descer pelos braos e pelas pernas. Imagine essa mesma vibrao nos rgos internos do corpo  nas clulas, nas molculas e nos tomos do 
pulmo, do estmago e do corao. Sinta todo o corpo como uma manifestao dessa mesma fora vital que vibra nas molculas do ar  sua volta.
       Agora, mantendo parte da ateno na vibrao existente no corpo e no ar  sua volta, tome conscincia dos objetos ao seu redor  do cho debaixo de voc, 
da cadeira na qual voc se senta, das outras pessoas que possam estar prximas. Lentamente, ao mesmo tempo que mantm a sensao da presena da fora vital avanando 
por todas as clulas do seu corpo, conscientize-se da mesma fonte de vibrao movendo-se atravs das molculas do que est ao seu redor. Tome conscincia do grande 
 as rvores, o muro, o cho debaixo de voc  e do pequeno  cada folha de grama, os gros de areia e de terra, as partculas de poeira no ar. Tome conscincia 
da vibrao inata dos microcosmos dentro de cada um deles, de como a mesma fora faz seus eltrons rodopiarem atravs do espao interior. Sinta que a fora por trs 
do vento que balana os galhos da rvore  a mesma que faz o ar que entra e sai do seu pulmo se movimentar e renovar. Imagine o fluxo da seiva vital subindo e descendo 
pelo tronco das rvores e sinta que esse movimento provm da mesma fonte que faz o sangue circular no seu corpo.
       Expanda ainda mais a conscincia, deixando sua ateno abraar o todo  a fora vital que se agita, cria e sustenta tudo que existe dentro e fora de voc. 
Sinta que o todo  maior do que a soma das partes, que ele est personificado dentro de voc mas  maior do que voc. Tome conscincia de como essa presena  constante, 
mesmo quando voc no volta sua ateno para ela. Tome conscincia de como ela envolve permanentemente voc.
       
       
       
TRS
Fora de Compasso
       

No me diga que voc quer encerrar o mundo
inteiro no seu corao.
Mostre-me como voc evita cometer outra falta sem
se desesperar quando sofre uma agresso e tem
medo de no receber amor.
       


       Achar que h algo errado com uma pessoa significa tomar a deciso de coloc-la fora do nosso corao. E o tipo de crtica que diz ao eu do outro: "Voc  
um imbecil, um merda! H alguma coisa fundamentalmente errada com voc!".
       Existem muitas maneiras de transmitir essas coisas, de demonstrar que alguns aspectos seus ou da outra pessoa esto errados, sem jamais pronunciar palavras 
to duras. Aqueles, como eu, que fizeram anos de terapia e compareceram a um sem-nmero de seminrios de desenvolvimento pessoal sabem como dissimular as crticas 
que magoam e separam as pessoas, fazendo afirmaes habilidosamente construdas, comeadas por "eu", evitando as declaraes acusatrias iniciadas por "voc" ou 
a auto-reprovao descadaradamente malvola. Mas, mesmo assim, a crtica ainda est presente no tom da voz, como uma espada afiada que avana por baixo, decepando 
a outra pessoa na altura do joelho, enquanto calmamente lhe fitamos os olhos. Ela est presente na nossa expresso corporal, na leve inclinao da cabea, no estreitar 
dos olhos quando observamos a outra pessoa ou nos olhamos no espelho. Ela est presente na maneira como nos esgotamos trabalhando demais em coisas sem importncia, 
relacionando-nos com pessoas que no se importam conosco. A crtica diz a mesma coisa tanto para a outra pessoa quanto para o eu: voc no  suficiente.
       Pela manh, eu medito, suavizo minha respirao e procuro alcanar aqueles que esto sofrendo. Tento encerrar no corao o mundo e a parte de mim mesma que 
est assustada. Depois, avano em direo ao meu dia, rezando para me lembrar que eu sou compaixo, esperando ser capaz de manter o corao aberto. Alguns dias so 
melhores do que outros.
       Estou tomando o caf da manh num retiro. Eu me apresentei a dois homens sentados  mesa e comeamos a falar um pouco de ns mesmos enquanto comemos ovos 
mexidos e tomamos ch. Um homem alto e atraente se junta a ns e diz chamar-se Sam. Quando ouve meu nome, seus olhos se iluminam. "Oriah? Voc escreveu O Convite?" 
Por e-mail algum lhe enviara uma cpia do poema. "E um prazer conhec-la", diz ele entusiasmado, tirando de dentro do casaco uma mquina fotogrfica. "Realmente 
quero registrar este momento".
       Estremeo ao ver a cmera e ergo a mo. "Sinto muito, Sam. Eu no gosto de tirar fotografias, nem mesmo nos meus melhores momentos, e certamente o caf da 
manh no  um deles". Tenho nos lbios um sorriso agradvel, mas sou clara e firme. "Por que voc no toma caf conosco?" Ele se senta ao meu lado com a mquina 
ainda na mo.
       "Ora, que bobagem. Existem momentos que simplesmente tm que ser captados". Ele leva a cmera ao rosto e comea a ajustar o foco. "No. Eu realmente no gosto 
de ser fotografada. Estou falando srio  eu realmente no quero que voc tire a foto".
       Ele continua a ajustar o foco, inclinando-se para trs e para a frente na cadeira para obter ngulos diferentes. "Isso  importante. Voc tem que tirar a 
foto!" Seu tom de voz  insistente e cada vez mais agressivo. Olho, perplexa, para os outros homens  mesa, que esto visivelmente constrangidos. No sei como me 
comunicar com Sam.
       Ele persiste. Durante cinco minutos fica insistindo que precisa tirar minha foto. Sinto meu rosto ficar tenso devido ao esforo de tentar sorrir, de tentar 
manter meu tom de voz ao mesmo tempo firme e neutro, enquanto vou dizendo no. Sem dar ateno  minha recusa, ele dispara o obturador e tira uma foto. Sinto algo 
dentro de mim desistir. A conversa  mesa se tornou impossvel. Finalmente, querendo apenas que tudo aquilo acabe o mais rpido possvel, fico sentada, imvel, enquanto 
ele tira de dez a quinze fotos. Sei que elas vo ficar horrveis. Fechei uma parte de mim e fico sentada, sofrendo calada. As fotos certamente vo refletir minha 
disposio de nimo.
       Deixo a mesa zangada e irritada. Mais tarde, no mesmo dia, conto a um amigo o que aconteceu. Ele se mostra solidrio e concordamos que o homem invadiu meu 
espao. Eu me sinto um pouco melhor.
        noite, deitada na cama, repasso mentalmente todo o incidente. Fico furiosa pensando como esse cara foi idiota e imaginando todas as coisas que eu podia, 
ou devia, ter dito ou feito. Eu devia ter agarrado a cmera quando ele comeou a tirar as fotos, abrindo-a e estragando o filme. Eu devia ter me levantado e perguntado 
num tom de voz que todo mundo no salo de refeies ouvisse: "Voc no entende o significado da palavra no?".
       Mas a eu paro. Meditei o dia inteiro sobre a compaixo amorosa. E relativamente fcil e estimulante pensar em encerrar no corao os doentes, os pobres ou 
as partes do mundo, ou de mim, que esto sofrendo. Mas e esse cara, o Sam? No sinto por ele nenhuma compaixo. Meu corao endurece quando penso nele me pressionando 
daquela maneira, sem respeitar meus limites. Mas vamos enfrentar os fatos: estamos falando de uma foto, no de um ataque fsico. Eu tinha todo o direito de insistir 
que no queria que ele tirasse uma fotografia minha, mas ser que tinha uma maneira de dizer isso a ele sem transform-lo num Idiota? Fico me debatendo com isso. 
Como dizer delicadamente a algum para "se mandar?" No quero ver Sam como um outro eu. Tenho certeza de que eu nunca insistiria em tirar fotos de uma pessoa sem 
a permisso dela.
       Fico sentada na cama e acendo a luz, perturbada pelo fato de no conseguir enxergar nenhuma maneira de realmente sentir que este homem est no meu corao. 
Dizer ou pensar que sinto muito no basta. De que adiantam todas as horas que eu passo meditando sobre a compaixo, se no consigo descobrir uma maneira de manter 
meu corao aberto para algum que me irrita profundamente? Se no consigo fazer isso, como posso esperar ter compaixo por aqueles que realmente fazem mal a mim 
ou aos outros?
       Sento-me numa posio confortvel, fecho os olhos e me concentro na respirao. Estou determinada a ficar sentada e meditar at conseguir me conectar de alguma 
maneira com Sam. No estou procurando um sentimento afetuoso. Estou tentando perceber Sam como outro eu, um semelhante que eu posso encerrar conscientemente no meu 
corao.
       Passa-se um longo tempo e comeo a perder a esperana. O quarto est ficando frio e o que eu quero mesmo  dormir. Quando penso no incidente da manh, tudo 
que sinto  raiva e averso. No consigo me identificar com coisa alguma no comportamento de Sam. Comeo a rezar: "O Seres Sagrados, ajudem-me a encontrar um jeito 
de no deixar esse homem fora do meu corao. " Espero. Respiro. Repito minha prece. Surgem as perguntas: Por que Sam no deu ateno aos limites que eu claramente 
estabeleci? Por que ele no se importou com o fato de suas aes estarem violando esses limites? Imediatamente surge a resposta: porque ele queria muitssimo fazer 
o que queria  uma boa foto e uma conexo pessoal comigo naquele momento. Ironicamente, ao insistir, ele destruiu qualquer possibilidade de conseguir qualquer uma 
das duas.
       De repente, penso nos meus filhos quando eram pequenos, o modo como eles s vezes se fixavam em algo que queriam, implorando, tentando me agradar e me pressionando 
insistentemente depois de eu ter repetido no muitas vezes, me deixando zangada e destruindo qualquer chance de conseguirem o que queriam, tanto naquele momento 
quanto depois. Eu me lembro do primeiro e nico acesso de raiva de Nathan aos trs anos de idade, seu corpinho explodindo com a ira de exigncias no satisfeitas. 
Por acaso eu expulsei algum dos dois do meu corao por estarem me irritando e fazendo exigncias? No. Eu cedi aos pedidos deles? No. Tinha geralmente um bom motivo 
para ter dito no pela primeira vez, e a insistncia deles no modificava essa razo.
       Pensar nos meus filhos faz surgir uma pequena possibilidade de me tornar capaz de encerrar algum no corao, mesmo quando essa pessoa est exigindo de mim 
uma coisa que no estou disposta ou sou incapaz de dar. De repente, vejo Sam como um terceiro filho que est descontrolado, desejoso de que as coisas sejam como 
ele quer naquele exato momento e, em funo disso, agindo de uma maneira que garante que ele no vai conseguir o que deseja. Meu corao comea ento a se sensibilizar 
diante da condio humana daquele homem, do sofrimento que ele causa a si prprio.
       Penso ento nas ocasies em que eu quis que as coisas fossem  de certa maneira  da minha maneira. O modo como, j no final do meu segundo casamento, eu 
queria  desejava ardentemente  que meu marido conversasse comigo, me abraasse, ficasse comigo no fim do dia, quando ele estava exausto e desanimado demais e s 
queria ficar sozinho. A maneira como eu o perseguia, ostensiva ou dissimuladamente, pedindo, pressionando, insistindo, acusando, o tempo todo, sabendo que meus atos 
s faziam aumentar a distncia entre ns e, no entanto, no meu desespero, sendo incapaz de parar.
       As situaes so diferentes, mas a motivao que faz com que cada um de ns no leve em conta os desejos dos outros  querendo impor a nossa vontade   a 
mesma. De repente, pude ver Sam apenas como um ser humano igual a mim em meus maus momentos, e consegui encerrar no corao a parte dele que eu tinha descoberto, 
a criana desesperada que est com medo de no conseguir o que quer. Abri um espao para Sam em meu corao da mesma maneira como consigo guardar a mim e a meus 
filhos no corao quando insistimos em vencer a parada.
       Ao me sensibilizar com Sam, pude enxergar com muito mais clareza meu comportamento da manh. Como eu j no precisava mais tornar Sam um Idiota, tambm no 
tinha necessidade de ser a Vtima Virtuosa. Por que eu no tinha simplesmente me levantado e ido para outra mesa? Porque, talvez, eu estivesse lisonjeada por receber 
a ateno de um homem atraente. Meus vizinhos de mesa nunca tinham ouvido falar no meu poema, e a reao entusistica de Sam fez com que todos soubessem que estavam 
sentados com uma Escritora. Mais tarde, ao solicitar a solidariedade do meu amigo contando-lhe o ocorrido, pude ter a sensao de que eu estava certa e Sam errado.
       Resmungo, rio em voz alta, apago a luz e deslizo para debaixo das cobertas. Tanto a minha presuno quanto a insistncia de Sam em impor a sua vontade contriburam 
para criar a situao. Balano a cabea ao pensar na nossa condio humana.
       Na qualidade de seres que tm compaixo, somos capazes de encerrar no corao todos os aspectos do mundo e de ns mesmos, inclusive os aspectos irritantes, 
maldosos e totalmente desagradveis. Mas temos que estar dispostos a nos esforar para descobrir como fazer isso, observando sinceramente nossas aes e reaes 
internas e externas e aprendendo com cada circunstncia a expandir nossa capacidade de viver a compaixo.
       Pense em todas as situaes em que voc se separa dos outros, estabelecendo uma distino entre "ns" e "eles". No minuto em que fazemos isso, estamos construindo 
a idia do nosso prprio eu, no baseados no que realmente somos, e sim tentando nos sentir melhores do que os outros, por causa do nosso medo de no sermos suficientes. 
Eu me vejo fazendo isso o tempo todo.
       E quando olho com sinceridade e compaixo, descubro que estar certa no  uma exigncia necessria para eu ser feliz.
       Tenho criticado abertamente alguns aspectos da espiritualidade da Nova Era.  claro que existe alguma verdade nas minhas crticas, e continuarei a levantar 
questes sobre todos os caminhos espirituais porque estou interessada em saber a verdade at onde for possvel. Mas existem maneiras de fazer perguntas que abrem 
para um honesto questionamento  o questionamento de quem pergunta porque, de fato, quer entender  e maneiras de fazer perguntas que fecham a comunicao. E existem 
ainda maneiras destinadas a estabelecer uma diferena entre "ns" e "eles", maneiras com o objetivo de fazer com que eu sinta que estou certa  que sou mais autntica, 
mais equilibrada e mais inteligente  fazendo com que a outra pessoa esteja errada.
       Alguns meses atrs, compareci a um evento de dia inteiro apresentado por uma conhecida palestrante da Nova Era. O livreiro presente ao evento tinha me pedido 
que fosse ajud-lo na mesa dos livros, depois da apresentao. Bonita e divertida, a oradora atraiu uma audincia de vrias centenas de pessoas e durante a palestra 
apresentou as idias e prticas de muitos mestres espirituais tradicionais combinadas  sua filosofia particular da Nova Era. A audincia estava fascinada e eu me 
esforava ao mximo para manter a mente aberta. Eu no concordava com grande parte das convices daquela mulher e fiquei inquieta com a absoluta certeza que ela 
demonstrava de que cada um de ns cria e controla cada aspecto da prpria vida. Os resultados que ela liberalmente garantia a qualquer pessoa desejosa de seguir 
os nove passos do seu programa ou de fazer as afirmaes dirias que ela oferecia me deixaram muito pouco  vontade. Resultados garantidos e passos demarcados podem 
ser seguros e teis para assar biscoitos e montar estantes de livros, mas eu os considero arriscados e potencialmente enganadores quando estamos falando a respeito 
de encontrar um significado para a vida e criar a felicidade.
       Continuei a olhar para os participantes, muitos concordando com a cabea e demonstrando um entusiasmo que eu sabia carecer de uma viso mais crtica. Senti 
o desejo e a tendncia de me separar dessas pessoas. Elas estavam aceitando aquilo? Por qu? Eu no tinha dvida de que elas sabiam que no havia respostas fceis, 
medidas simples capazes de curar todas as desgraas da vida. Talvez elas fossem apenas preguiosas. Mas, mesmo enquanto eu me separava das pessoas, estava consciente 
do que estava fazendo, procurando achar uma maneira de no fechar meu corao aos que estavam ao meu redor, de no diminu-los na minha mente como sendo inferiores 
a ns que sabemos que o desenvolvimento espiritual pode ser difcil e que no existem respostas fceis.
       Aps o evento, trabalhei na mesa onde eram vendidos os livros, conversando com as pessoas que estavam indo embora. Uma mulher se aproximou de mim enquanto 
eu arrumava minhas coisas e me fez perguntas a respeito das tcnicas de meditao que a palestrante tinha defendido. Era uma meditao matutina, relativamente simples, 
projetada para acalmar a mente e fazer a pessoa se concentrar na respirao, e a oradora garantira que a prtica regular dessa meditao daria  pessoa o poder de 
manifestar o que ela quisesse na vida.
       Era uma mulher baixa e magra, vestia um agasalho de l longo, com um capuz muito grande para ela. Apresentou-se como Isabel. "Posso fazer essa meditao sozinha?", 
ela perguntou. "Pode", respondi. "Estou certa de que voc pode, embora muitas pessoas achem mais fcil comear uma prtica de meditao com um grupo. E difcil manter 
a disciplina sozinha".
       "Mas o que eu vou conseguir com isso? O que eu vou ganhar se fizer a meditao todos os dias?" O tom da voz dela assumiu uma qualidade lamurienta e eu senti 
que estava ficando irritada. "Quanto tempo vai levar para dar resultado? Vou notar alguma diferena depois de uma semana? Como vou saber se est funcionando?".
       Esse era exatamente o tipo de coisa que eu detestava  a procura de uma soluo rpida, o desejo de resultados garantidos, a resposta simples. Faa isso e 
conseguir aquilo. Essas eram, eu pensei, exatamente as expectativas que uma apresentao como a que eu acabara de assistir provocavam. E onde estava a mulher que 
as provocara? Tinha ido embora, deixando-me l para responder perguntas para as quais no tinha respostas curtas e simples. Meus filhos estavam esperando por mim 
e eu queria ir para casa.
       Respirei profundamente, olhei diretamente para Isabel e coloquei minha mochila no cho. Tentei falar devagar, achando que talvez assim eu teria mais pacincia. 
"Bem, a meditao  mais um processo do que uma atividade voltada para um resultado. Ela pode ajud-la a ficar mais consciente do que est acontecendo dentro e ao 
redor de voc e isso pode reduzir o estresse. No h como saber quanto tempo vai levar para isso acontecer. Eu j medito h anos. Existem dias em que minha mente 
est completamente dispersa e outros em que eu tenho uma verdadeira sensao de paz e tranqilidade. Meu melhor conselho  simplesmente que voc procure ser paciente 
com voc mesma". Peguei minha mochila e comecei a abotoar meu casaco. Eu realmente tinha que ir embora e queria sair enquanto estava me sentindo virtuosa por no 
arrancar a cabea dela.
       Mas quando comecei a me afastar, Isabel, de repente, agarrou meu brao com uma fora surpreendente. "Espera a. O que eu quero saber"  e o tom de sua voz 
foi num crescendo que se aproximava de um verdadeiro pnico  " se a meditao vai me ajudar a encontrar Deus. Se eu meditar, terei a experincia de alguma coisa 
ou de algum que est l fora me ouvindo, uma coisa que est realmente comigo?".
       Uma onda de desespero deslocou-se dela em direo a mim e fiquei surpresa ao perceber que meus olhos estavam cheios de lgrimas. Essa mulher no estava buscando 
uma resposta fcil ou uma frmula garantida por ser preguiosa. Ela no queria um plano simples porque era incapaz ou no estava disposta a pensar criticamente a 
respeito do que iria funcionar. Ela queria algo que funcionasse rpido, porque estava com a corda no pescoo. Ela queria algo que desse resultado em uma semana, 
porque tinha medo de no conseguir resistir se o processo levasse meses ou anos. Ela queria saber... sentir que tinha realmente algo maior do que ela, e estava apavorada, 
com medo de no ser capaz de prosseguir se no tivesse logo essa experincia. Reconheci outro eu: o eu que est s vezes no limite extremo de sua resistncia, sem 
saber se  possvel continuar. O eu que est sentindo tanta dor que cada respirao parece ser o nico desafio que ele  capaz de enfrentar.
       Coloquei gentilmente a mo sobre a de Isabel, agarrada ao meu brao. "Est tudo bem, Isabel, todos ns s vezes nos sentimos desesperados. Ningum faz tudo 
sozinho. Todos ns precisamos de ajuda". A mo relaxou debaixo da minha e ela comeou a chorar. Conversamos um pouco mais e dei o nome de alguns professores de meditao 
que dirigiam pequenos grupos na cidade, estimulando-a a encontrar uma comunidade onde pudesse se sentir amparada. Quando fui embora, no me afastei de um "deles". 
Eu disse at logo para um de "ns", um ser humano que est fazendo o melhor que pode, procurando o lar pelo qual o corao de todos ns anseia.
       No existe nenhum eles. S existe ns. Quando nos separamos dos aspectos da condio humana de que no gostamos, fazemos isso basicamente por medo de que 
esses aspectos estejam vivos em ns. E a verdade  que esto mesmo.
       No caminho de casa, comecei a pensar em outras pessoas da audincia. Algumas, sem dvida, no estavam em uma busca desesperada 4como Isabel. Provavelmente 
desejavam divertimento e respostas fceis, porque no queriam ter o trabalho de cultivar o aspecto espiritual de sua vida. Eu j no precisava mais me separar delas. 
Comecei ento a pensar nas situaes em que eu desejo uma resposta fcil e um resultado garantido, porque quero escapar do trabalho. Lembrei imediatamente do exerccio 
fsico e de todo o dinheiro gasto com academias, equipamentos de ginstica e um sem-nmero de fitas de vdeo de treinamento, para descobrir finalmente que comprar 
todas essas coisas no nos faz ficar em forma.  preciso realmente fazer exerccio. Ser que eu era to idiota a ponto de no saber disso? Claro que no. Eu simplesmente 
no queria me esforar.
       Reconhecer que eu posso ter preguia de me exercitar, assim como outras pessoas podem ter preguia de se dedicar  prtica espiritual, no livra nenhum de 
ns desses sentimentos. O fato de compreender o comportamento de Sam e me lembrar que tambm sou capaz de passar por cima dos limites dos outros quando quero obsessivamente 
que as coisas sejam do meu jeito no significa que Sam ou eu sejamos justificados quando fazemos isso. Significa apenas que estamos diante de um problema humano 
que  nosso  de ns todos  e no apenas dele, embora naquele momento seja ele quem o est representando. Sentir compaixo no significa aceitar ou concordar indiscriminadamente 
com as aes dos outros, sem pensar nas conseqncias que elas possam acarretar para ns ou para o mundo. Sentir compaixo envolve ser capaz de dizer no quando 
for necessrio, sem excluir o outro do nosso corao, sem fazer do outro um ser humano inferior. Existe uma diferena entre opor-se a um comportamento nocivo e achar 
que existe algo fundamentalmente errado com a pessoa que tem esse comportamento  que ela  inferior a ns, que  uma parte menor da presena que  maior do que 
todos ns.
       Tanto Sam quanto Isabel eram pessoas desconhecidas. Embora nosso breve encontro tenha desafiado minha capacidade de sentir compaixo, eu no tinha uma ligao 
especial com nenhum dos dois. Manter o corao aberto para algum muito prximo que nos tenha ferido profundamente com suas aes  mais difcil. Quanto mais amamos, 
mais profunda  a ferida e mais difcil fica deixar de achar que o outro est errado. Existem maneiras veladas de retirar uma pessoa do nosso corao: contamos aos 
amigos, especialmente aos conhecidos comuns, como fomos tratados injustamente, negando ou omitindo qualquer responsabilidade nossa na histria. Ou sentimos prazer 
quando ouvimos falar nos pequenos  ou mesmo grandes  insucessos da outra pessoa.
       No estou sugerindo que devemos fingir ser mais magnnimos do que realmente somos. Uma amiga abandonada recentemente pelo parceiro me disse uma semana depois 
do rompimento: "Eu realmente desejo o melhor para ele". Eu reagi: "Papo furado. E cedo demais. Voc no quer o bem dele. Neste momento voc espera que ele esteja 
sofrendo, sentado sozinho em casa, sentindo-se arrasado porque acaba de se dar conta de que perdeu a melhor mulher que poderia esperar ter na vida".
       Ela riu. "Bem, acho que isso  verdade. Mas eu quero desejar o melhor para ele  um dia". Ri com ela: "E provavelmente voc vai desejar. Mas, no momento, 
aceite que voc est ferida e com raiva. Conviva com esses sentimentos e com a maneira como tudo aconteceu  qual foi o seu papel, qual o dele, de que forma vocs 
magoaram um ao outro e, s vezes, a si mesmos".
       Recentemente, deixei de tomar essa mesma atitude com minha amiga Sharon. Os detalhes no so importantes. Eu sabia que precisava me afastar do relacionamento 
com ela, mas no tinha conscincia do quanto eu ainda estava sentida com uma coisa que Sharon fizera. Quando no temos conscincia do que estamos sentindo  apesar 
de isso talvez parecer estranho numa pessoa com mais de quarenta anos , pode ser perigoso. No foi tanto o que eu disse para Sharon. Na verdade, minhas palavras 
descreveram com a maior preciso qual tinha sido o comportamento dela que exigia que eu me afastasse. Mas o tom de uma das frases que saram da minha boca teve a 
inteno de magoar o esprito da minha amiga, dando a entender que ela no era aceitvel, que tinha algo fundamentalmente errado com ela.
       Vou dizer uma coisa que vocs provavelmente j sabem: quanto mais eu tenho conscincia de que a compaixo  minha natureza essencial, mais eu sofro quando 
minha dor me faz esquecer essa natureza e eu ataco violentamente outra pessoa, sugerindo que ela est errada, como fiz com Sharon.  isso que significa ficarmos 
profundamente deprimidos: agir de uma forma contrria  nossa natureza. E no h como voltar atrs, no existe qualquer maneira de garantir  outra pessoa que voc 
no a retirou do seu corao, porque voc de fato fez isso, mesmo que apenas por um momento.
       O padre catlico Henri Nouwen escreveu o seguinte: "Perdo  o nome do amor praticado entre pessoas que amam de forma sofrvel. E a dura verdade  que todos 
ns amamos de um modo sofrvel. Precisamos perdoar e ser perdoados a cada dia, a cada hora  incessantemente. Este  o grande trabalho do amor na comunidade dos 
fracos que compem a famlia humana".
       Devido  minha condio humana, eu me esqueo de que o que sou  suficiente, especialmente quando estou ferida ou com medo de no ser amada. Imersa na dor 
e no medo, que fazem parte desse esquecimento, s vezes mago outra pessoa. No entanto, at mesmo essa deficincia, pela qual sou responsvel, me diz para no mudar, 
para continuar a ser quem eu sou, para permanecer dentro do meu corao congenitamente capaz de compaixo. E aprendo que  possvel expandir o nosso ser e, ao expandi-lo, 
nos tornarmos capazes de ter mais compaixo, mesmo em situaes em que isso nos parecia impossvel.
       Foi o homem que me estuprou quando eu tinha vinte e dois anos que me deu a oportunidade de aprender isso. Vou dizer a verdade. Eu nem mesmo me esforo para 
colocar esse homem no meu corao. Quando penso nele  e ainda penso, tantos anos depois, quando ouo a histria de outra mulher que tenha sido estuprada  eu simplesmente 
vejo, quando medito, esse homem e eu dentro do corao daquilo que  maior do que eu e ao mesmo tempo parte de mim. Respiro algumas vezes e deixo o corao maior 
que sempre me abraou, que est corporificado na minha essncia, envolver minha dor e minha raiva. E, quando fao isso, tenho um vislumbre do sofrimento  da angstia 
 que deve existir dentro do ser humano que estuprou outro. Ao reconhecer esse fato, no posso deixar de pensar que esse homem foi em algum momento, tal como meus 
filhos, filho de uma mulher com esperanas e receios. E no se torna to impossvel, como certa vez eu achei que seria, rezar e chorar, no apenas por mim, mas tambm 
por ele.
       Embora existam importantes diferenas no grau da ofensa cometida contra outra pessoa, no estou certa de que existam diferenas no tipo de ofensa. E isso 
que faz com que seja to importante desenvolver a capacidade de encerrar a ns mesmos e as outras pessoas em nosso corao quando cometemos ofensas relativamente 
pequenas tanto contra ns quanto contra os outros. Que esperana posso ter de no fechar o corao ao homem que me estuprou, ou a mim mesma, quando mago algum 
que eu amo, se no consigo resistir ao impulso de achar que o desconhecido que me irritou com a cmera e sua necessidade desesperada esto errados?
       Aleksandr Soljenitzyn escreveu as seguintes palavras depois de sofrer os horrores de um campo de concentrao na Sibria: "Se ao menos tudo fosse to simples! 
Se ao menos houvesse pessoas ms em algum lugar cometendo insidiosamente ms aes e fosse apenas necessrio separ-las do restante de ns e destru-las. Mas a linha 
que divide o bem do mal atravessa o corao de todo ser humano, e quem est disposto a destruir um pedao do prprio corao?".
       
MEDITAO SOBRE O CULTIVO DA COMPAIXO
       
        importante comear esta meditao com algo pequeno  uma pequena desfeita que tenha aborrecido voc ou uma irritao passageira que tenha despertado seu 
mau humor mas que no chegou a causar uma dor profunda. Mais tarde, talvez voc queira fazer essa meditao para ofensas mais graves cometidas contra outras pessoas 
ou o eu, mas  uma boa idia comear com coisas relativamente sem importncia.
       Sente-se de uma maneira confortvel e concentre-se na sua respirao. Respire profundamente trs vezes, inspirando pelo nariz e soltando o ar pela boca, deixando 
os ombros carem e visualizando qualquer estresse ou tenso deixando o seu corpo. Acompanhe o ritmo da respirao durante alguns minutos.
       Pense agora no que aconteceu nos trs ltimos dias. Deixe sua mente descobrir um momento em que algum lhe causou um aborrecimento ou irritao, um incidente 
no qual sua reao interior foi repudiar a outra pessoa, considerando-a uma idiota. Pode ter sido um completo desconhecido  algum que lhe tenha dado uma cortada 
no trnsito, que tenha ocupado sua vaga no estacionamento do local de trabalho ou que tenha lhe prestado um mau atendimento num restaurante ou numa loja. A vida 
est cheia de oportunidades para ficarmos aborrecidos uns com os outros. Pode ser algum que voc conhece  o parceiro que deixou o banheiro todo molhado, um filho 
que comeu um pedao da sobremesa do jantar que voc ia oferecer  noite, um amigo que chegou muito atrasado a um encontro. Qualquer coisa, desde que no seja muito 
importante.
       Concentre-se nesse incidente e na raiva ou aborrecimento que voc sentiu. Tome conscincia da sensao de retirar a outra pessoa do corao, mesmo que apenas 
por um momento. Permita-se repassar na mente o incidente e expandir interiormente a raiva contra a falta de considerao da outra pessoa.
       Agora, decida o seguinte: voc quer descobrir uma maneira de sentir compaixo por essa pessoa na situao que lhe causou aborrecimento? Voc se prope a enxergar 
um outro voc no comportamento dela?
       Se a resposta for positiva, comece a encarar a situao a partir do ponto de vista dessa outra pessoa. Voc pode ter pouca ou nenhuma informao a respeito 
da razo que a levou a comportar-se daquela maneira. Use a imaginao. Pense na essncia do que ela fez: foi uma coisa negligente, egosta, inconseqente e indelicada? 
Pense em como voc s vezes  possivelmente em circunstncias muito diferentes  se comporta de uma maneira inconseqente, negligente ou deixa de ter considerao 
pelos outros. Talvez isso acontea quando voc sente cansao, est sob presso, sente raiva ou se assusta. Trabalhe com as vrias possibilidades at conseguir se 
ver no comportamento da pessoa que lhe causou aborrecimento ou irritao. Quando conseguir isso, imagine-se colocando voc e essa outra pessoa no seu corao quando 
sentir cansao, ficar com raiva ou se assustar. Lembre-se de que no voc precisa perdoar o comportamento dela, mas simplesmente coloc-la junto com voc no corao 
quando ela ou voc estiverem enfrentando esse desafio particular da condio humana.
       
  
       
QUATRO
A Danarina

Conte-me uma histria sobre quem voc ,
e veja quem eu sou nas histrias que estou vivendo.
E juntos nos lembraremos que cada um de ns
sempre tem uma escolha.
       

       
       Confio nas histrias. As histrias que escolhemos contar a nosso respeito deixam que o mundo saiba quem ns somos, porque o que ns somos no aparece no que 
fazemos e sim na maneira como vivemos. E  isso que modela o mundo.
       Estamos em outubro de 1963 e tenho nove anos de idade. Minha famlia acaba de se mudar para uma nova cidade situada mais ou menos seiscentos e cinqenta quilmetros 
ao norte de onde morvamos e  meu primeiro dia na nova escola. Minha professora, a Sra. Lawson, uma senhora grisalha do tipo maternal, de voz suave, me conduz ao 
ptio de recreio interno. As crianas tiveram permisso para brincar no grande salo  meninos de um lado, meninas do outro  porque o dia est frio e chuvoso. O 
recinto  uma algazarra de vozes estridentes que ricocheteiam nas paredes de concreto, uma sopa malcheirosa de corpos suados e casacos de l encharcados. Acompanho 
as costas largas da Sra. Lawson, que atravessa o mar de crianas e finalmente se aproxima de duas meninas. "Jill e Patsy, esta  a nova colega de vocs. Quero que 
tomem conta dela e mostrem o colgio para ela".
       Eu me volto para as garotas, pronta para sorrir. O rosto de Jill  redondo e corado como uma lua cheia avermelhada. Seu olhar corre de Patsy para mim, examinando-nos 
atentamente. Patsy est claramente no comando.  loura, do tipo mignon, olhos azuis bem claros. Ela no sorri enquanto me examina de alto a baixo. A indiferena 
das duas  quase hostil, e meu estmago d voltas. No estou preparada para isso. Na minha antiga escola eu estava entre as melhores da classe e era a rainha da 
festa, pelo menos no ptio do recreio. Bem, eu tinha tido minhas disputas e nem sempre sara vencedora, mas mesmo nas dificuldades e tribulaes havia uma espcie 
de justia, do tipo lei da selva. Agora, esse exame minucioso da parte das Senhoritas Patsy e Jill era outra coisa. Eu claramente no estava sendo aprovada, mas 
no conhecia os critrios pelos quais estava sendo julgada.
       Enquanto eu estava ali, observando os olhares trocados por Patsy e Jill que manifestavam razovel desprezo, de repente surgiu ao meu lado uma cigana de olhos 
castanhos. Ela era banguela e me deu um sorriso enviesado, dizendo para a professora: "T tudo bem, Sra. Lawson, vou mostrar a escola para ela. " Ruth foi minha 
salvadora, meu anjo que caiu do cu. Ela tinha um cabelo castanho-escuro, cacheado e embaraado, e me cumprimentou como se estivesse genuinamente feliz por me ver 
ali, como se tivesse estado esperando por mim. Fiquei cheia de gratido por no ter sido entregue aos doces cuidados de Jill e Patsy.
       Ruth foi comigo at a sala de aula, mostrou-me onde pendurar o casaco e colocar minha merendeira, e depois me conduziu a uma carteira no fundo da sala ao 
lado da dela. Quando me sentei, percebi que os outros alunos me olhavam de cima a baixo, mas imaginei que aquilo fosse normal. Uma nova criana na sala sempre desperta 
curiosidade. Mas havia outra coisa, um erguer de sobrancelhas quando viam que Ruth e eu estvamos juntas.
       Eu era ingnua. Mesmo. No sei como tinha ido to longe  at a quarta srie  sem ter conscincia do sistema de classes sociais, mas eu realmente ignorava 
o assunto. Talvez fosse por ter vivido at aquele momento numa cidade maior, onde a freqncia da minha escola era em grande parte composta por crianas de um bairro 
bastante homogneo da classe operria. Talvez porque a atividade especializada do meu pai, aliada  estabilidade que ele tinha no emprego, nos colocasse no topo 
daquele grupo da classe operria. Eu no sei. Mas numa cidade pequena as coisas eram diferentes. Todas as famlias mandavam os filhos para a mesma escola  ricos 
e pobres, empregados de escritrio e trabalhadores braais, beneficirios da previdncia social e donos de empresa.
       Talvez tivesse chegado a minha vez  aquela em que todos aprendemos a dura verdade a respeito de como os membros da nossa espcie podem ser desprezveis uns 
com os outros, de como pessoas de todas as idades so rpidas em estabelecer uma rgida hierarquia social. A primeira indicao de estratificao ocorreu na hora 
do almoo. Havia aqueles que altivamente pagavam dez centavos por meio litro de leite puro ou com chocolate, aqueles que, com um servilismo quase imperceptvel, 
recebiam o leite de graa, sem chocolate, por terem sido classificados como necessitados, ou seja, pobres. E havia meu irmo e eu que, por medida de economia, levvamos 
para a escola leite puro numa garrafa trmica dentro de uma merendeira com cheiro de mofo.
       Ruth ia de nibus para a escola e recebia o leite de graa. E exalava mau cheiro. Era inteligente, engraada e uma das meninas mais valentes que conheci, 
mas cheirava mal. Eu no tinha notado isso naquela primeira manh na escola, mas quando almoamos juntas eu percebi. E o que meu filho Nathan chama de cheiro de 
pobreza, o odor que faz com que ele se recuse a comprar roupas usadas nos bazares cuja venda reverte para obras de caridade, apesar de eu garantir que podemos tirar 
completamente o cheiro de qualquer roupa lavando-a na mquina ou mandando lavar a seco na lavanderia. E o cheiro do corpo das pessoas que no tomam banho e de roupas 
que so usadas com freqncia sem serem arejadas ou limpas.
       Minha av costumava dizer: "No h desculpa para a sujeira, por mais pobre que a pessoa seja. O sabo  barato". Mas, alm da higiene, a limpeza tambm envolve 
a esperana. Minha av fora pobre durante a depresso, ao lado de milhares de outras pessoas que estavam lutando, mas ainda tinham sonhos e esperanas. O cheiro 
que eu sentia em Ruth, o que Natham sente nos bazares,  a desesperana das pessoas pobres cercadas por outros que tm muito.
       No sei quanto tempo eu levei para entender a situao  tenho certeza de que no foi mais do que uma semana , mas aprendi que se quisesse ser aceita pelo 
resto das meninas da minha turma eu teria que me livrar de Ruth. Ela era uma pria, estava na base da escada social porque era pobre, porque sua famlia morava em 
um barraco na periferia da cidade, porque sua me e seu pai eram alcolatras que viviam  custa da previdncia social e porque corria o boato de que sua irm mais 
velha estava grvida do prprio pai.
       Na verdade, essas coisas no me perturbavam. Eu nem mesmo entendia algumas delas. Minhas preocupaes eram todas egostas. Eu no queria ser rejeitada porque 
uma menina solitria  mesmo sendo algum de quem eu gostava  tinha "grudado" em mim, apesar de isso ter feito com que eu me sentisse salva naquele primeiro momento.
       Havia uma vala atrs da escola onde meninos e meninas costumavam brincar e brigar, derrubando uns aos outros com gritos e ameaas. Eu era um pouco covarde, 
de modo que tentava ficar de fora, mas um dia, um menino chamado Snyder  ele estava na sexta srie, mas, eu juro que ele parecia ter dezesseis anos, e suas narinas 
eram enormes, como as de um gorila  me segura, agarra meu cinto e comea a me fazer rodopiar, preparando-se para me atirar na vala cheia de neve, quando Ruth, corajosamente, 
se joga contra ele, agarrando suas pernas por trs. Ele solta meu cinto, os dois rolam at o fundo da vala e ento Ruth, coberta de neve, as mos geladas, sem luvas, 
comea a acenar e gritar para mim: "Ns pegamos ele! Ns pegamos ele!" O fato de ela me incluir nessa vitria ultrapassa a generosidade   uma tentativa de criar 
um vnculo diante do inimigo  e o verdadeiro inimigo no  Snyder, e ela sabe disso.
       Mais tarde, talvez no mesmo dia  espero que tenha sido vrios dias depois, mas realmente no consigo me lembrar , estou acabando de sair da vala e vejo 
Ruth vindo atrs de mim. A encosta est escorregadia, de modo que espero que ela chegue a um lugar onde possa pegar a minha mo para que eu a puxe para o nvel do 
cho. Enquanto espero, ouo de repente um grupo de meninas que esto indo na direo da escola  pode at ter sido Jill e Patsy  dizerem: "Venha conosco. Vamos 
embora." Para minha surpresa, elas esto me chamando e acenando para que eu me junte a elas. Eu hesito e olho para Ruth. Ela tambm viu as meninas.
       Existem momentos em que no importa se temos nove, dezenove ou noventa anos. Sabemos que somos responsveis por aquilo que estamos prestes a fazer, sabemos 
o que  certo e sabemos que vamos fazer o que  errado, simplesmente porque temos medo de arcar com as conseqncias se fizermos o que  certo. Eu sabia que, se 
esperasse e ajudasse Ruth, ficaria indissoluvelmente ligada a ela na base da escada social e a parte de cima da escada nunca mais faria convites do tipo "venha conosco".
       Olhei para ela, ela olhou para mim, sorriu meio torto e me deu at logo com um aceno de mo, equilibrando-se na rampa gelada. Tentei me convencer mais tarde 
de que o sorriso tinha tido a inteno de me dizer que ela compreendia, que estava dizendo: "V em frente. Eu sei como  duro aqui embaixo. Se voc consegue sair, 
no hesite". Eu acenei de volta, ela baixou a cabea como para se concentrar onde estava pisando e eu corri atrs das meninas que tinham me chamado.
       Depois desse dia, Ruth e eu no voltamos a almoar juntas. Eu comia com as outras meninas. No sei onde ela almoava. Eu fazia questo de dizer al sempre 
que a encontrava nos corredores ou no ptio, como se estivesse publicamente demonstrando que era corajosa o suficiente para admitir que a conhecia, mas Ruth no 
acreditava nisso. Ela apenas sorria.
        claro que nunca cheguei realmente a fazer parte da estrutura social daquela pequena cidade, ficando sempre na periferia, sendo de vez em quando includa 
em um ou em outro grupo. Muitas coisas depunham contra mim: o fato de eu ser do sul, filha de um trabalhador braal, e a tendncia que eu tinha de me sentir atrada 
por pessoas excntricas e fora do comum  os prias  por reconhecer neles, eu suponho, espritos afins.
       Mas nunca mais voltei as costas para crianas impopulares ou antipatizadas, como fiz com Ruth naquele dia, na esperana de conseguir fazer parte de algum 
grupo. Mesmo com apenas nove anos de idade conclu que o importante no eram as pessoas com quem estvamos, mas a capacidade de conviver com ns mesmos.
       Quando criana, eu ouvia freqentemente meu pai dizer: "Voc sempre tem uma escolha". O calor dessa certeza do meu pai, arduamente adquirida, foi gravada 
no meu ser desde o incio da minha vida: cada um de ns  responsvel pelas prprias escolhas. E a vida tinha dado ao meu pai inmeras desculpas para ele no assumir 
responsabilidades. Quando criana, ele passara todas as noites na fazenda isolada, que era seu lar, esperando o pai voltar do trabalho na fbrica de aquecedores. 
Ele ficava esperando para ver o quo bbado e irritado o pai ia estar, para ver o quanto ele, a me e a irm mais velha iam apanhar naquela noite. Meu pai seria 
o primeiro a admitir que existe muita coisa que no podemos controlar, mas nunca usou aqueles anos de maus-tratos para justificar ou desculpar nenhuma das suas escolhas. 
Ele comeou a trabalhar aos dezessete anos, casou-se aos vinte e dois e aos vinte e cinco j tinha dois filhos. Meu pai trabalhava arduamente, sentia um grande amor 
por ns e nunca nos maltratou. A vida dele representava a deciso que ele tomou: "Eu tenho uma escolha. Os maus-tratos acabam aqui".
       Existe muita coisa que no podemos controlar, mas sempre temos uma escolha, mesmo que seja apenas na maneira como reagimos. Eu no podia controlar as regras 
e as normas sociais da sociedade daquela pequena cidade, mas podia escolher como responder, e sabia que tinha feito a escolha errada com relao a Ruth. Minha inteno 
ao contar essa histria no  fazer uma autocrtica. Eu a estou contando porque  uma das histrias em que eu me enxergo com mais clareza. Vejo que, quando estou 
com medo de no ser suficiente, e por isso desejo ser melhor do que sou  quero ser uma pessoa que, na minha opinio, vai ser apreciada por todo mundo, para garantir 
minha participao no grupo, seja ele qual for , fao escolhas que vo contra a minha natureza e que me levam a magoar a mim mesma e os outros. Essa atitude dos 
nove anos no  nem um pouco diferente da que eu tenho aos quarenta e seis, embora eu ache que, agora, mesmo que no seja mais corajosa do que era na quarta srie, 
sou um pouco mais consciente de mim mesma.
       A americana Pema Chdrn, religiosa budista e professora, fala em seus livros Falling Apart e Start Where You Are a respeito do cultivo do maitri, a capacidade 
de sermos amigos incondicionais do eu, que est na base da/capacidade de viver com compaixo e bondade amorosa em relao aos outros. Para sermos verdadeiros amigos 
do eu, precisamos ser capazes, sem ser rigorosos, de enxergar a verdade a respeito de ns mesmos, pouco importando que essa verdade seja difcil ou bonita.
       E claro que nem todas as notcias so boas. E desestimulante perceber com que freqncia eu no apenas no quero ser quem eu realmente sou, como tambm nem 
mesmo quero de fato ser melhor do que sou, e sim parecer que sou melhor. Gosto de contar uma histria a respeito de um famoso palestrante que se comportou de uma 
maneira inadequada numa conferncia a que compareci, mas no final da histria acrescento um comentrio aparentemente generoso, dizendo como deve ser difcil para 
qualquer pessoa com o nvel de fama e sucesso daquele homem comportar-se adequadamente o tempo todo. Eu at acho que isso  verdade, mas acho tambm que, se eu estivesse 
querendo realmente ser generosa e compreensiva com aquele famoso conferencista, simplesmente no contaria a histria. E acrescento isso no para manifestar uma verdadeira 
compaixo pela situao difcil desse homem notvel, mas para fazer com que eu parea menos mesquinha por ter contado a histria. Vocs percebem como esse processo 
 complicado?
       Viver despertos  sobretudo procurar aumentar sempre a autoconscincia, para que possamos deixar livre o caminho e conhecer o Mistrio que est bem ao alcance 
 que est nas nossas mos. No importa o nome que damos a esse Mistrio ou as medidas que tomamos  uma auto-analise, um programa de doze passos, a prtica da meditao, 
recapitulando nossas atividades no final de cada dia, ou simplesmente contemplando regularmente o mistrio de ns mesmos e do mundo. Trata-se do trabalho para viver 
uma vida centrada na alma. E a melhor maneira de fazer isso  nos lembrando sempre que o mais profundo e verdadeiro autoconhecimento no  alcanado quando nos isolamos 
ou na presena de circunstncias especiais, e sim ao permanecermos atentos aos nossos pensamentos, sentimentos e aes na agitao da vida cotidiana.5
       Nathan, meu filho mais novo, e eu estamos voltando para casa de bonde, depois das compras. O veculo est passando pela parte da Queen Street cheia de lojas 
decadentes e restaurantes baratos que h dez anos oferecem os mesmos pratos especiais. O ar est quente, mido e pegajoso, o tipo de dia que me faz ter vontade de 
ir morar em outra cidade, o tipo de dia que nos faz depender do ar-condicionado, porque derrubamos as rvores que nos teriam oferecido uma proteo verde e fresca 
e cobrimos tudo com o concreto e o asfalto que refletem e multiplicam o calor dos raios do sol. Estou cansada e ansiosa por chegar em casa, sentindo a blusa grudada 
 pele suada enquanto o bonde segue e pra, fazendo soar o sino para alertar os carros.
       De repente, exatamente quando parece que estamos nos movimentando um pouco mais rpido, o motorneiro grita: "Ei, o que voc est fazendo?", enquanto o sino 
toca mais uma vez e paramos abruptamente. Ouo o som de rodas de metal guinchando nos trilhos e um baque triste e repulsivo. E um som inconfundvel  o rudo firme 
e, no entanto, estranhamente suave e abafado de um veculo que atinge um corpo. O bonde atropelou um pedestre.
       As pessoas que esto na parte da frente do bonde se levantam dos seus lugares de olhos arregalados. "Voc viu isso?", elas cochicham entre si. "Ele caminhou 
diretamente na frente do bonde. O motorneiro no tinha como parar". O condutor usa o telefone para chamar uma ambulncia.
       Em situaes como essa eu sempre fico achando que existe alguma coisa que eu posso fazer  no algo que todo mundo deveria fazer, mas uma coisa que eu deveria 
fazer em particular. Mas nem sempre tenho certeza do que . Como no tenho qualquer habilidade especial a oferecer, concluo que a melhor maneira de ser til  ficando 
fora do caminho.
       A polcia vem em tempo recorde. Junto, chega um carro pequeno com um adesivo do servio de ambulncia  no se trata de uma ambulncia propriamente dita, 
mas de um homem num carro.
       O condutor nos manda descer. "O bonde vai ficar parado aqui durante muito tempo", diz ele bruscamente. Descemos obedientemente, algumas pessoas resmungam 
que esto atrasadas, querendo saber quanto tempo tudo isso vai demorar. Mas quando nos vemos na calada, onde podemos observar o homem deitado na frente do bonde, 
todos ficamos em silncio.
       E difcil determinar a idade do atropelado. Ele  magro e a pele cai frouxa dos braos nus debaixo da camiseta rasgada, rosa fluorescente, com o logotipo 
de um conjunto de rock heavy-metal. As mas do rosto so salientes e a pele  marcada por uma teia arroxeada de vasos sangneos debaixo da barba que j no  feita 
h uma semana.  difcil dizer at que ponto essas caractersticas so estragos causados pelo tempo ou apenas sinais de uma vida passada nas ruas com pouca comida 
e muita bebida. As calas esto sujas, manchadas e curtas demais. Os tnis surrados no tm cordo.
       Mas o que mais me chama a ateno  a cabea dele, a curva do crnio debaixo de alguns fios finos de cabelo grisalho, de um branco quase luminescente  luz 
brilhante do sol, plida e frgil como um ovo de pssaro na calada quente e escura. Olho para o peito do homem. Ele no parece estar respirando.
       Os policiais pedem s pessoas que permaneam na calada. O paramdico se ajoelha ao lado do corpo cado no cho e olha para a multido. "Algum aqui conhece 
a tcnica de ressuscitao?", ele pergunta. Sozinho, sem uma ambulncia totalmente equipada, ele procura algum que possa ajud-lo. Eu quero dizer que sei, embora 
j tenham decorrido mais de vinte anos que fiz o curso e no consiga me lembrar de nada. Quero ser til de alguma forma. Ele repete a pergunta enquanto encaixa uma 
mscara no rosto do homem e comea a apertar o balo para inflar o peito do acidentado.
       Tenho vontade de dar um passo adiante e dizer: "Mostre-me o que devo fazer", mas estou certa de que no  o momento adequado para um curso de reciclagem. 
A multido est em silncio e eu me lembro de uma histria que ouvi certa vez a respeito de um pas escandinavo onde todo mundo  todo mundo mesmo  aprende a tcnica 
da ressuscitao. A taxa de mortalidade decorrente de ataques do corao  praticamente nula, e eu me pergunto por que no tomamos essa medida, por que ensinamos 
s nossas crianas tcnicas como programar o videocassete e colorir mapas do mundo sem ultrapassar as linhas, mas no ensinamos um procedimento relativamente simples 
que poderia salvar vidas?
       Uma ambulncia estaciona e dois outros paramdicos se juntam ao que est cuidando da forma ainda inerte do homem deitado na rua. E possvel sentir a multido 
emitir um suspiro coletivo que sobe e paira no ar quente, como um denso espasmo de ansiedade. Estamos livres. Os especialistas chegaram e esto trabalhando como 
loucos. O motorneiro do bonde anda de um lado para o outro ao longo do meio-fio, celular na mo, obviamente falando com algum do departamento de trnsito, explicando 
que o homem se colocou na frente do bonde vindo no se sabe de onde, que ele no conseguiu parar a tempo, que a ambulncia e a polcia esto ali agora e que o trnsito 
est todo parado num raio de muitos quilmetros. Ele enxuga o suor do rosto vermelho com um leno, enquanto anda de um lado para o outro fumando. Tenho vontade de 
estender a mo e toc-lo no brao dizendo: "Est tudo bem, no foi sua culpa", mas ele no est perto de mim e eu me pergunto se minha atitude iria ajud-lo. Fico 
imaginando se, ao chegar em casa  noite, ele ter algum que possa acolh-lo, algum capaz de deixar que ele extravase a raiva at as lgrimas comearem a cair.
       A multido, que at esse momento estava aturdida e relativamente silenciosa, comea a se agitar. Pessoas que no conhecem ningum comeam a falar para o vento, 
como se estivessem se dirigindo a um amigo imaginrio. Eu quero mand-los calar a boca. Mas ento compreendo que no podem fazer isso, que esto falando para encher 
o espao, para extinguir o silncio de saber que o que observamos  a morte de um semelhante. Estamos contemplando a fragilidade e a qualidade finita da nossa vida.
       Nathan olha para mim e pergunta: "O que devemos fazer?" De repente ele parece um menino pequeno e me dou conta de que aos quatorze anos nunca conheceu ningum 
que j tenha morrido, nunca viu ningum morrer.
       Chego mais perto do meu filho, at que nossos ombros se tocam, e digo suavemente: "Ele no vai conseguir, Nath. Diga uma prece para ajud-lo enquanto ele 
parte". Estamos assistindo a vida de um homem terminar. Quase podemos ver o sopro vital deixar esse frgil corpo, como uma nvoa rarefeita que se evapora no ar quente. 
Digo uma prece e ofereo a nica coisa que eu tenho: minha ateno  vida que est terminando e sobre a qual nada sei.
       Fico pensando sobre essa vida. Eu me pergunto como esse homem ter sido na infncia, quando seus braos e pernas ainda eram firmes e fortes e sua pele, macia 
e rosada. Ser que ele ria muito? O que ele desejava ser? Quando abraava seu filho beb, o que sua me sonhava para ele? Tenho certeza de que ela nunca imaginou 
uma morte solitria na rua. Este pensamento me aperta o peito e, abraando Nathan mais forte, rezo pelo beb e pelo menino que ele foi, por sua me e a dor dela, 
onde quer que esteja.
       Eu me pergunto qual o caminho que trouxe esse homem at aqui, com quem ele fez amor, se existem ou no filhos crescidos e netos que levam seu DNA, pessoas 
que podem agora estar fazendo uma pausa por um motivo desconhecido, sentindo um estranho puxo, como quando um fio solto  puxado e desfaz um pedao do trabalho 
de tric. Ser que eles esto sendo tocados por uma estranha sensao de tristeza ou perda que no conseguem identificar? Ser que franzem a testa aturdidos e em 
seguida do de ombros, achando que no foi nada, e voltam a cortar a grama ou lavar a loua?
       Ou talvez no haja ningum. Talvez ele estivesse sozinho na vida. Talvez s haja ns, completos desconhecidos que assistimos a sua morte apenas por estarmos 
num determinado bonde. Sinto vontade de ir at onde ele est, sentar na calada e pr sua cabea  o ovo branco e frgil  no meu colo, mas desconfio que os policiais 
e os paramdicos no me deixariam fazer isso, de modo que simplesmente fico ali com meu filho, enquanto a multido narra os eventos e os paramdicos recolhem seus 
instrumentos. Rezo por esse homem que no conheo e nunca vou conhecer. Peo que ele encontre algum conforto nessa passagem, alguma paz que lhe possa ter escapado 
durante a vida. E no olho para o outro lado quando ele nos deixa.
       Naquela tarde quente no centro da cidade de Toronto, como em cada momento da minha vida, eu tenho uma escolha. Eu no poderia ter salvo a vida desse homem, 
e na imagem maior  estou me referindo  Imagem Maior da histria do cosmo, do planeta ou da espcie  provavelmente no tinha importncia se o homem com camiseta 
rosa morresse naquela calada, ou algum tempo depois, no hospital, ou da a cinco anos. Porque a verdade  que na imagem maior os detalhes do que nos acontece, bem 
como o que fazemos ou deixamos de fazer, no tm importncia, independentemente de quem ns somos. Mas acredito que a maneira como vivemos esses detalhes  importante. 
Estou certa de que o homem cado no cho no sabia que eu estava l, mas acredito que meu gesto  prestar ateno  fez diferena, no necessariamente para ele, 
e no apenas porque me fez sentir til, mas porque eu acredito que a imagem maior  de alguma maneira formada pelo modo como vivemos os detalhes, as pequenas imagens 
que passam pela nossa vida. Escolho pensar assim baseada apenas numa intuio. No  uma tese que eu seja capaz de defender com argumentos lgicos. No sou capaz 
realmente de explic-la, certamente no posso prov-la e no estou tentando vend-la. E nem consigo adivinhar como a coisa funciona, isto , de que modo a nossa 
escolha de estar despertos e manter o corao aberto molda o sonho coletivo das pessoas, do planeta ou do cosmo. Eu simplesmente acredito que essa  a verdade. Sou 
uma mulher que escolhe prestar ateno com a maior freqncia possvel.
       
MEDITAO PARA ESTARMOS COM NS MESMOS
       
       Esta meditao se baseia na minha experincia com uma pequena parte de uma maravilhosa prtica budista maior chamada tonglen, ensinada por Perna Chdrn. 
No tonglen eu me concentro em receber e ficar em contato ntimo com os sentimentos de que geralmente tento me livrar e passo adiante  compartilhando com os outros 
 os sentimentos a que normalmente tento me agarrar. Fao primeiro isso para mim, depois para outra pessoa e finalmente para o mundo. Recomendo fortemente que voc 
aprenda esta prtica.
       Sente-se numa posio confortvel e concentre a ateno na respirao. Respire profundamente trs vezes, inspirando pelo nariz e soltando o ar pela boca. 
V relaxando um pouco mais cada vez que expirar. Deixe os ombros carem um pouco. Faa com que o peso do corpo v para os quadris e as pernas. Relaxe ainda mais 
cada vez que soltar o ar. Sinta o corpo subir e descer a cada respirao. Ao inspirar, leve o ar para qualquer lugar do corpo onde haja tenso ou cansao e, ao expirar, 
deixe que a respirao conduza essa tenso ou cansao para o cho.
       Enquanto continua a acompanhar a respirao, tome conscincia de si e do ambiente em torno. Observe as sensaes que voc possa estar tendo. Preste ateno 
ao que seu corpo est sentindo, aos sons, aromas ou cores  sua volta. No resista a essas sensaes nem se concentre nelas; perceba apenas que existem. Se surgirem 
pensamentos, tome conhecimento deles e deixe-os ir embora, trazendo delicadamente a ateno de volta  respirao. Permanea apenas com voc.
       Reveja agora mentalmente os acontecimentos do dia  seu convvio com as outras pessoas, suas atividades  pensando descontraidamente em como passou o dia. 
Observe os sentimentos evocados por essas lembranas. Deixe-se ficar com esses sentimentos, inalando-os, aproximando-se um pouco mais da profundidade, da amplitude 
e da cor de cada um deles. Observe quais so os sentimentos com que voc quer ficar e quais voc quer afastar. Fique com um dos sentimentos que lhe causam desagrado; 
escolha um que no seja extremamente doloroso, apenas desagradvel. Tome conscincia de qualquer movimento para tentar se afastar do sentimento. Inspire nos locais 
do corpo ou do corao que possam estar resistindo a esse sentimento, deixando atenuar um pouco essa resistncia. Observe o que acontece.
       Ao inspirar em um sentimento do qual normalmente voc desejaria se afastar, expire um sentimento ao qual habitualmente voc quereria se apegar, compartilhando-o 
com outras pessoas no mundo.
       Passe algum tempo simplesmente acompanhando a inspirao e a expirao, aproximando-se de um sentimento que voc ache desagradvel e enviando para o mundo 
um sentimento ao qual voc tem tentado se agarrar. Quando surgirem pensamentos, simplesmente tome conhecimento deles e deixe que vo embora. Examine o que acontece 
sem fazer qualquer julgamento.
       
  
       
       
CINCO
Escolhendo uma
Dana Alegre
       
       
No me diga que as coisas sero maravilhosas... um dia.
Mostre-me que voc  capaz de correr o risco de ficar
completamente em paz, totalmente  vontade com a
maneira como as coisas so neste exato momento,
e tambm no momento seguinte, e no seguinte...
       
        

       Esta  a pergunta: voc se dispe a aceitar totalmente a maneira como as coisas so na sua vida neste momento? Voc se dispe, apenas por um instante, a esquecer 
todas as suas insatisfaes, todo o seu sofrimento com a maneira como as coisas so? Voc se dispe a se desapegar de todas as preocupaes e tenses existentes 
no seu corpo e simplesmente respirar?
       Para mim, felicidade  o prazer que eu sinto quando tenho a conscincia de estar completamente em paz e plenamente presente comigo mesma e com o mundo exatamente 
como ele  no momento. Trata-se de uma ausncia de sofrimento aliada a uma auto-reflexo que transforma a paz que estou sentindo num estado de percepo consciente. 
No estou simplesmente em paz: tenho conscincia de que estou em paz  feliz.
       Ento, voc se dispe a ser feliz?
       No estou perguntando se voc sabe como fazer isso. A minha pergunta  se voc se disporia a fazer isso, se soubesse como faz-lo. Esta parece ser uma pergunta 
muito simples. Quem no estaria disposto a ser feliz? No entanto, ela d origem a novas perguntas que nos fazem saber por que s vezes relutamos em desistir do nosso 
sofrimento. Minha mente que pensa fica desconfiada: se eu me dispuser a aceitar totalmente a maneira como as coisas esto na minha vida neste momento, isso significa 
que as mudanas que eu tanto desejo no vo acontecer? E as coisas que devem ser modificadas, ou seja, a crescente poluio do planeta, a injustia existente no 
mundo, meus hbitos autodestrutivos? Parece que perguntar se eu estou disposta a ser feliz da maneira como as coisas esto  um modo de tentar me dizer que as coisas 
no vo mudar para melhor  que meu filho nunca vai encontrar um trabalho de que goste, que eu nunca terei um relacionamento ntimo duradouro com um parceiro ou 
que minha sade jamais ser magnfica , de modo que  melhor eu me acostumar s coisas do jeito que elas esto?
       Minha melhor amiga, Linda, trabalha numa organizao que est lenta e dolorosamente se desintegrando. Suas habilidades so mal aproveitadas, no reconhecidas 
e subestimadas. A atmosfera do dia-a-dia no trabalho  prejudicial  produtividade criativa, e Linda no tem poder para mudar a situao. Ela sabe que precisa deixar 
o emprego e est tomando providncias para fazer isso nos prximos meses. Nesse meio tempo,  difcil para ela no se envolver com as maquinaes dirias da poltica 
do escritrio, com as preocupaes com relao ao futuro, com a frustrao diante das condies do seu emprego.
       Preocupada com a sade dela, eu lhe digo: "Pense no seguinte por um momento: voc estaria disposta a se sentir realmente bem com as coisas como esto hoje 
no seu trabalho, a aceitar as coisas como elas so, a deixar de se preocupar e sofrer com o como e por que elas no so como voc acha que deveriam ou poderiam ser, 
enfim, simplesmente se sentir em paz com o que existe?" O conflito e o medo se acendem no rosto dela: "Se aceitar as coisas como esto, tenho medo de no tomar providncias 
para modific-las. Medo de simplesmente empacar onde estou e no deixar o emprego".
       "Por que voc faria isso?", pergunto, surpresa. "Voc sabe que o lugar no  bom para voc". Linda faz uma careta: "Porque sou essencialmente preguiosa". 
Sorrio e retruco: "Dizer que no vamos fazer as mudanas necessrias, a no ser que estejamos sofrendo, porque somos basicamente preguiosos,  uma opinio bastante 
sombria a respeito dos seres humanos". Linda tambm ri: "No estou falando dos seres humanos em geral, apenas de mim. Sou eu que sou preguiosa, no o mundo todo!" 
Ns duas rimos. Linda  uma das pessoas mais esforadas que conheo.
       Eu continuo. "O fato de no sofrer por causa do que est acontecendo no seu trabalho no vai mudar o que voc sabe. Voc sabe que o lugar no  bom para voc. 
Voc quer ir embora porque sabe que pode contribuir de uma maneira mais completa e ser mais feliz em outro lugar. Voc est tomando as providncias necessrias para 
ir embora. Enquanto isso, o fato de ficar sofrendo por causa do que est errado, ficar indignada interna ou externamente com injustias que no pode mudar, faz com 
que voc se sinta infeliz e exausta. No acelera o processo. Na verdade, pode tornar as coisas at mais lentas, por fazer voc ficar doente e cansada. E afeta a 
qualidade do nico tempo que voc realmente tem  hoje, o momento presente. "
        sempre muito mais fcil sermos sbios a respeito da situao de outra pessoa. Eu fao a mesma coisa o tempo todo: confundo aceitao com consentimento. 
Temo que a paz leve  estagnao. Nos ltimos meses de 1999, dei comigo, pela primeira vez em muitos anos, verdadeiramente em paz com a idia de viver sozinha, ficando 
com meus filhos a metade do tempo. No decorrer dos anos, apesar da profunda satisfao com meu trabalho e meu relacionamento com os amigos e a famlia, o intenso 
desejo de ter um parceiro se tornou s vezes doloroso. Agora o desejo ainda estava presente, mas j no era doloroso. Eu no sofria por causa dele. Senti uma estranha 
sensao de paz, um novo gosto pela minha vida naquele momento. Eu estava sozinha, e realmente bem. Isso significava que eu tinha pouca ou nenhuma inclinao para 
gastar meu tempo e minha energia em encontros, procurando um parceiro ou explorando relacionamentos que eu sabia, de um modo intuitivo, que provavelmente no iriam 
se transformar numa parceria a longo prazo. Eu tinha uma estranha certeza estranha de que, se um homem com quem eu pudesse compartilhar minha vida cruzasse meu caminho, 
eu o reconheceria e caminharia na direo dele. E no tinha problema se isso acontecesse no dia seguinte ou da a dez anos. No tinha problema nem mesmo se isso 
nunca acontecesse. Embora reconhecesse o desejo de compartilhar uma intimidade profunda com um parceiro, eu no estava sofrendo nem um pouco por estar sozinha.
       A no ser nos momentos em que eu ficava preocupada por no estar aborrecida por estar sozinha  momentos em que eu sofria por no estar sofrendo. Eu me afligia 
com a possibilidade de ter ficado cansada demais para me importar com isso, de ter simplesmente desistido. Ser que eu estava aceitando o momento presente ou eliminando 
possibilidades porque os prazeres conhecidos de um banho quente, um livro interessante e uma boa noite de sono pareciam mais agradveis para meu corpo, minha mente 
e meu corao de meia-idade do que o possvel desapontamento de um encontro em que a conexo seria, na melhor das hipteses, frgil e superficial? Eu estava contente, 
ou sem esperana? Se eu no estava sofrendo por me encontrar sozinha, ser que eu iria me dar ao trabalho de passar pela mo-de-obra dos primeiros encontros, pelo 
processo s vezes lento de conhecer uma pessoa nova, pela exposio de mim mesma, necessria para estabelecer uma conexo? Estaria eu disposta a fazer as concesses 
indispensveis em qualquer relacionamento, ou tudo isso iria parecer excessivamente trabalhoso?
       Em algum ponto da vida muitos de ns assimilamos a idia de que para mudar  preciso sofrer. Lembro-me de uma conversa que tive com outra facilitadora de 
seminrios sobre o envio da propaganda dos eventos seguintes e a subseqente espera pelas inscries. "Eu percebo", disse ela, "que me sinto obrigada a me preocupar 
a respeito das inscries, a ficar um pouco angustiada com relao ao que eu farei se o nmero de inscries no for suficiente. Quando o evento tem um bom pblico, 
sempre me conveno um pouco, secretamente, que o sucesso aconteceu, em parte, porque fiquei preocupada; paguei meu preo pelo sucesso". Ns duas rimos diante da 
superstio bem conhecida de que a recompensa  alcanada atravs do sofrimento. Algumas coisas so conquistadas com o trabalho. Mas trabalho no  sofrimento. Mandar 
uma mala direta sobre um seminrio  trabalho. A preocupao com as inscries  sofrimento. Por que deveramos acreditar que o sofrimento tem alguma relao com 
o sucesso do evento? E por que acreditamos que no vamos fazer as mudanas que esto ao nosso alcance e so boas para a nossa vida  como Linda deixar o emprego 
ou eu fazer concesses nos relacionamentos  a no ser que sejamos forados a isso em funo do sofrimento, causado pela insatisfao no emprego, ou da solido?
       H muitos anos, minha famlia morava no Welland Canal, por onde passam os grandes navios que navegam os Grandes Lagos. Meu pai, que no  um grande nadador, 
queria que aprendssemos a nadar e tivssemos uma aptido que ele no pudera adquirir. Por isso, quando eu estava com cerca de seis anos de idade, ele colocou uma 
corda na minha cintura e me jogou no canal, achando que, naquelas dramticas circunstncias, eu no teria outra alternativa seno nadar. Meu pai me ama. Ele realmente 
queria que eu aprendesse a nadar e estou certa de que ele achava que aquela era a melhor maneira de aprender. Eu no estava correndo um perigo real de me afogar, 
pois ele poderia me puxar para fora do canal a qualquer momento. Mas fiquei apavorada. Para aquela criana de seis anos, o enorme muro de concreto do canal parecia 
impossvel de ser escalado, e a gua fria e escura representava uma ameaa  vida. Eu no aprendi a nadar. Aprendi a sobreviver.
       Na primeira vez que li o poema "The Swimming Lesson" [A Aula de Natao], de Mary Oliver, fui levada imediatamente de volta s guas frias do Welland Canal 
e s centenas de vezes em que me coloquei em situaes em que, se no nadasse, eu afundaria, convencida de que essa era a melhor maneira de aprender.
       
       A aula de natao
       
       Sentindo o coice gelado, as ondas interminveis
       Buscando a minha vida, movi os braos
       E tossi, e no final descortinei a terra.
       
       Algum, suponho, 
       Recordando o aforismo medieval, 
       Tinha me atirado na gua, 
       Querendo que eu aprendesse a nadar,
       
       Sem saber que nenhum de ns, que um dia tenha voltado
       Daquela longa e solitria queda e agitada subida,
       Jamais aprendeu nada
       A respeito da natao, mas apenas
       A adiar, um por um,
       Sonhos e piedade, amor e graa -
       A sobreviver em qualquer lugar.
       
       
       Quando acreditamos que somos por natureza profundamente defeituosos  excessivamente tolerantes para com ns mesmos, egostas, crticos, pecadores , o esforo 
que fazemos para viver plenamente se transforma no esforo de controlar, punir, transformar, melhorar e mudar o que somos essencialmente. E, por acreditar que somos 
por natureza preguiosos e indignos, achamos que s podemos mudar e tornar as pessoas que queremos ser se formos pressionados ou forados a isso pelo sofrimento. 
Partindo dessa convico, usamos mtodos que, em vez de cultivar a misericrdia e a compaixo por ns mesmos, usam o rigor e a exigncia implacvel para reprimir 
ou superar o que eles so essencialmente. Diante desses mtodos, no aprendemos a nadar, danar, sonhar ou ser tudo que somos. No aprendemos realmente a amar plenamente 
ou nos permitir receber livremente o amor. Usamos todas as nossas energias apenas para sobreviver.
       No poema "It Felt Love" [Ela Sentiu o Amor], o poeta sufista Hafiz, do sculo XIV, fala a respeito de outra forma de aprendizado.  uma forma que se baseia 
na idia de que crescer significa revelar a beleza inata que encerramos dentro de ns, uma beleza mais facilmente trazida  tona por um terno estmulo.
       
       
       
       Ela sentiu o amor
       
       Como foi que
       A rosa
       Um dia abriu o corao
       
       E deu ao mundo Toda sua Beleza?
       Ela sentiu o estmulo da luz
       Contra o seu
       Ser,
       
       Caso contrrio, Todos permanecemos
       Por demais
       
       Assustados.
       
       
       Se acreditssemos que somos por natureza capazes de compaixo, de bondade e de estarmos plenamente presentes e inteiros, nossa tarefa seria apenas encontrar 
o calor do "estmulo de luz" interno e externo na vida e nos colocar dentro dele, para nos abrirmos cada vez mais para tudo o que somos. No estou sugerindo que 
isso seja fcil, especialmente para aqueles de ns que passaram a vida inteira tentando sobreviver na escola de aperfeioamento pessoal baseada no "nade ou afunde". 
O mais comum  nem sabermos onde essas luzes de estmulo e encorajamento se encontram na nossa vida.
       Durante muitos anos atuei como facilitadora de um grupo de redao e estilo que se encontrava na minha casa de quinze em quinze dias. J participei de grupos 
de redao que funcionam na base da crtica. A contribuio que se espera dos membros do grupo  que eles arrasem os esforos dos colegas. No conheo nenhum participante 
desses grupos que tenha escrito mais ou melhor do que faria se simplesmente ficasse em casa. Como muitos desistiram completamente de escrever depois de freqentarem 
esses grupos de crtica implacvel, o nosso tem uma regra extremamente clara:  voc quem pede a avaliao, quando quer e se quiser. Certa jovem, nova no grupo, 
captou imediatamente a essncia da regra. Pouco antes de ler o primeiro rascunho de uma dura histria pessoal sobre sua me, ela fez uma pausa e disse o seguinte: 
"No momento, s quero ouvir a parte boa das crticas. O que escrevi  muito sofrido para mim, de modo que s quero que vocs me digam o que gostam na histria". 
Falamos ento sobre as coisas positivas. Apontamos as partes de que mais gostamos, os trechos que nos fizeram chorar, rir ou que nos iluminaram. Vrias semanas depois, 
ela voltou a ler a redao, pedindo dessa vez uma avaliao sobre questes mais tcnicas de estrutura e coerncia.
       Se pensarmos que quase todos ns fomos formados na escola "nade ou afunde", acho impressionante a rapidez com que a maioria das pessoas que ingressam no grupo 
descobre que o que elas querem  o que precisam para se tornar melhores escritores   uma avaliao que lhes sirva de estmulo, mostrando quais foram as partes 
de sua redao que comoveram e sensibilizaram os ouvintes e por qu. E sabem o que acontece? A tcnica vai se aprimorando, os textos tornam-se mais ricos e capazes 
de transmitir o que o aluno deseja.
       Mas, apesar disso, de vez em quando as pessoas reagem a esse apoio com desconfiana, como se ele fosse uma espcie de artimanha destinada a fazer com que 
elas baixem a guarda e respirem profundamente, no momento exato em que levaro um balde de gua fria pelo qual, de certa forma, elas j estavam esperando. Essa atitude 
 compreensvel, e o fato de ela no acontecer com mais freqncia  provavelmente um bom indcio de que somos por natureza seres amveis e capazes de compaixo 
que avanam com naturalidade em direo  luz do estmulo. O que acontece  que, quando no estamos acostumados com o estmulo, ele pode nos assustar. No fundo, 
as pessoas se sentem mais  vontade com as severas crticas a que se acostumaram na escola do "nade ou afunde". Elas sabem que podem suport-las porque j conseguiram 
sobreviver a elas muitas vezes.
       No ano anterior uma excelente escritora, Jan, ingressou no grupo e foi embora depois de trs sesses. Ela me explicou ao telefone: "Bem, as pessoas do grupo 
so muito simpticas, mas no acho que elas tenham competncia para fazer a rgida avaliao de que eu preciso". Sugeri ento que ela experimentasse pedir s pessoas 
a avaliao severa que desejava, porque verifiquei que Jan simplesmente no acreditava que o estmulo iria funcionar. Ela realmente acreditava que a nica coisa 
capaz de melhorar sua expresso escrita seria uma crtica severa do que estava errado na sua redao.
       s vezes  to mais fcil acreditar nas coisas ruins, que nem queremos ouvir as boas. Achamos que a nica forma capaz de nos sustentar  a armadura que vestimos 
para sobreviver ao que  difcil. Pensamos que, se despirmos a armadura e nos abrirmos a essa luz de encorajamento, se realmente recebermos o calor dela, simplesmente 
nos desintegraremos ou, na melhor das hipteses, nos empobreceremos. Jan no podia correr esse risco naquele momento e eu no insisti, porque no teria sido til 
pression-la.
       J fui defensora da escola de aprendizado "nade ou afunde". O professor que escolhi, o curandeiro com quem fiz meu treinamento, era uma autntica encarnao 
do "nade ou afunde". No  para menos: ele tinha sido um fuzileiro naval da Marinha americana! Foi ele quem me deu o nome de Mountain Dreamer, dizendo que significa 
"aquela que sempre procura atingir e ultrapassar o limite". Meu professor entendia "limite" de uma forma, mas, com o tempo, passei a entender de outra maneira. Fui 
descobrindo que, para mim, tentar ultrapassar o limite no envolvia fazer mais, se esforar mais e nem ir mais longe ou mais rpido, e sim fazer menos, se esforar 
menos. Aceitei ento o nome com alegria.
       Nos primeiros anos em que dirigi buscas visionrias  um perodo de tempo em que as pessoas jejuam e rezam sozinhas em regies agrestes  eu dizia aos participantes 
que se afastassem o mais possvel do acampamento. Eu queria que eles extrassem o mximo da experincia. Muitos tinham sido criados em grandes cidades e para eles 
a regio agreste  noite era um lugar verdadeiramente assustador. Ainda assim, eles se aventuravam valentemente, passando grande parte do tempo em que estavam sozinhos, 
apavorados com os esquilos  animais que no escuro parecem ursos saqueadores , com medo de se perderem, serem comidos ou levados sabe-se l por qual fera terrvel. 
A nica coisa positiva  que o medo que aquelas pessoas sentiam as mantinha acordadas  o medo e tambm os enxames de pernilongos.
       Mas, num determinado ano, tudo mudou. Eu mudei. Disse ao grupo, que ia se afastando: "Faam como preferirem: podem ir longe ou perto e, se quiserem ficar 
num lugar onde possam ver a minha barraca a noite inteira, a deciso  de vocs. Explorem as imediaes. Saiam e depois voltem. Experimentem lugares diferentes e 
verifiquem o que  melhor para cada um de vocs. Procurem um local onde se sintam mais confortveis para dizer sua prece. O Esprito as ouvir onde quer que estejam. 
"
       Duas coisas aconteceram. Primeiro, a maioria das pessoas do grupo se embrenhou pela regio agreste bem mais do que nos anos anteriores, quando eu insistia 
para que se afastassem o mais possvel, mesmo quando isso as deixava pouco  vontade. A liberdade de escolher, o estmulo para que confiassem em si mesmas, lhes 
deu coragem.
       A segunda coisa que aconteceu foi que algumas pessoas que no estavam acostumadas a ficar longe da luz e do rudo da cidade escolheram lugares onde, de fato, 
conseguiam enxergar minha barraca. Livres do medo que sentiriam em outro lugar, foram capazes de concentrar-se inteiramente em suas preces, de uma maneira que no 
teria sido possvel se tivessem se aventurado mais longe, motivadas pelo meu bem-intencionado mantra "v em frente".
       Com o tempo, todas essas experincias suavizaram meu corao e me fizeram acreditar naquilo que a Av est me dizendo agora no sonho  temos apenas que nos 
tomar o que realmente somos.
       Ultimamente, quando fao minha prtica diria, percebo estar pedindo para viver com graa. Tenho uma sensao muito especial no corpo quando me lembro ou 
imagino um dia vivido com graa.  um dia sem pressa, em que no estou sofrendo porque as coisas no so diferentes do que so, um dia em que respiro profundamente 
e aceito as coisas que no posso mudar, como as longas filas no banco, os engarrafamentos ou o mau tempo.  um dia em que descanso com facilidade, sabendo de forma 
misteriosa que existe o suficiente  tempo, dinheiro, energia e corao suficientes no mundo e na minha vida , um dia em que eu sei que o que sou  suficiente. 
Um dia em que estou simplesmente inteira e presente comigo mesma e com tudo que me cerca. Um dia em que estou verdadeiramente feliz, sentindo-me cheia de graa  
 vontade na minha pele e na minha vida.
       Danar  se mover com graa. Viver o desejo da nossa alma  estarmos dispostos a viver momentos repletos de graa. A graa  a oportunidade de ser felizes 
que nos vem gratuitamente  de graa. Mas se pertencemos  escola do "nade ou afunde", se acreditamos que nossa natureza fundamental no  suficiente e est precisando 
ser renovada, os presentes da graa  que achamos que no merecemos  nos deixam nervosos. Eles ativam sentimentos de culpa e o medo da inveja dos outros; eles acentuam 
nossa sensao de no sermos merecedores e nos enredam na idia de que temos a obrigao de nos esforar mais para ser as pessoas que achamos que deveramos ser. 
Se no nos vemos como uma manifestao do Mistrio que nos concede a graa, esta pode parecer um fardo.
       Para danar, para avanar com graa, para receber diariamente os momentos cheios de graa, temos que saber que somos dignos, no por causa do nosso esforo 
rduo, do nosso sofrimento ou da nossa nsia de ser diferente do que somos: somos dignos pela nossa prpria natureza  a mesma natureza que cria e sustenta tudo 
que existe. Quando sabemos disso, somos capazes de responder  pergunta "Voc deseja ser feliz?" com um "Sim" tranqilo e confiante.
       
MEDITANDO SOBRE A DIGNIDADE
       
       Quando digo "Eu mereo..." e "Eu sou digna de...", estou afirmando duas coisas diferentes. "Eu mereo" indica algo que eu sinto que me  devido porque o conquistei 
atravs do trabalho rduo ou do sofrimento. Quando declaro "Eu mereo um descanso", significa que eu me esforcei para concluir alguma coisa e, desta forma, conquistei 
um descanso. Ao dizer "Eu mereo", estou pedindo uma coisa que, se no ganhar, vai me dar uma sensao de injustia.
       Ao afirmar "Eu sou digna de...", em vez de estar me justificando, me queixando ou fazendo uma exigncia, estou simplesmente reconhecendo algo que decorre 
da minha prpria natureza. Quando digo "Eu sou digna de um descanso", me sinto como uma pessoa que, em funo da sua prpria existncia e natureza,  digna de descanso.
       Sente-se com papel e lpis numa posio confortvel. Agora, escreva no papel a frase "Eu mereo..." e complete-a. Escreva-a de novo e complete-a vrias vezes, 
durante cinco minutos. Escreva o que lhe vier espontaneamente  cabea, sem censurar ou julgar o que voc est escrevendo. Se nada lhe vier  cabea, simplesmente 
espere, repetindo a frase at conseguir complet-la de novo. Passados cinco minutos, descanse o lpis.
       Agora, se sentir vontade, feche os olhos. Respire profundamente trs vezes, inspirando pelo nariz e soltando o ar pela boca, deixando cair os ombros ao expirar. 
Leve o ar para os lugares do corpo que estiverem tensos, soltando todo o estresse e cansao ao expirar. Concentre-se durante alguns momentos na respirao, acompanhando 
a inspirao e a expirao, o subir e descer do corpo. Se surgirem pensamentos, tome conhecimento deles e deixe que vo embora, voltando de novo a ateno para a 
respirao.
       Agora, uma vez mais, pegue papel e lpis e deixe a frase "Sou uma pessoa digna de..." vir  sua mente. Escreva-a e complete-a, repetidas vezes, durante cinco 
minutos. Se nada lhe vier  cabea, simplesmente espere, repetindo lentamente a frase at conseguir complet-la de novo. Aps cinco minutos, volte a concentrar-se 
na respirao e limpe a mente.
       Olhe agora para as duas listas. Qual  a mais longa? Uma das frases foi mais difcil de completar do que a outra? Leia-as em voz alta. Seu tom de voz  diferente 
quando voc l uma ou outra lista? O que acontece se voc pegar as frases da primeira lista e preced-las com "Eu sou uma pessoa digna de..." em vez de "Eu mereo...?" 
Apenas observe seus sentimentos sem julg-los e fique com eles. No existe uma maneira certa ou errada de fazer isso. Estamos procurando o autoconhecimento e no 
julgar a ns mesmos.
SEIS
Indo de Encontro ao Muro
       
J ouvi histrias demais sobre a audcia herica.
Conte-me como voc desmorona quando esbarra no muro,
o lugar que voc no pode transpor pela fora da sua vontade.
0 que conduz voc para o outro lado desse muro,
para a frgil beleza da sua condio humana?



       Existe uma diferena entre determinar a nossa vida e control-la. Freqentemente confundimos as duas coisas. O desejo de controlar  uma reao humana normal 
diante do medo. A capacidade de determinar  lembrar-nos de quem e do que somos  que somos por natureza capazes de compaixo porque somos a personificao do Grande 
Mistrio  e agirmos a partir dessa percepo.
       Existem muitas coisas que no controlamos  entre outras, o tempo, as outras pessoas e, freqentemente, nossos pensamentos e sentimentos. Esta  a realidade 
da vida dos seres humanos. Tudo muda. Tudo que vive morre. Estas so verdades, quer as reconheamos ou no. E parte de mim fica feliz  feliz por haver coisas que 
so verdadeiras, mesmo que eu no tenha coragem de acreditar nelas ou record-las. Quando ouo uma conselheira espiritual anunciar que nunca ter artrite, acidente 
vascular ou aneurisma cerebral, simplesmente porque nunca permitir que a forma-pensamento entre na sua conscincia, eu fico um pouco perplexa. Porque, mais cedo 
ou mais tarde, alguma coisa vai falhar e uma parte do corpo comear a fraquejar com a aproximao da morte. Nossa mortalidade  uma realidade da qual no podemos 
escapar, e a maneira como lidamos com ela  se a negamos ou se convivemos com ela e com os sentimentos que ela provoca em ns  nos revela o modo como lidamos com 
a infinidade de coisas que no podemos controlar. Quando contemplamos nossa mortalidade bem de frente, sem negao, lidamos com os limites do nosso poder. E esses 
limites existem.
       Sei que esse meu ponto de vista no  muito popular no momento. Seminrios intitulados "Entre em Contato com seu Poder Infinito" e "Desenvolva o Poder Pessoal 
de Criar Tudo que Voc Quer" atraem enormes multides, o que  bastante compreensvel. O mundo  um lugar selvagem e cruel, e teramos que ser muito alienados se, 
de vez em quando, no temssemos por ns, pelos nossos filhos ou pelo planeta. A reao humana diante do medo  querer controlar as coisas, e tudo o que prometa 
esse controle torna-se muito fascinante.
       Mas o que dizer dos lugares onde esbarramos no muro, os lugares que no podemos transpor com a fora da nossa vontade, por mais seminrios que freqentemos, 
por mais sria que seja a nossa inteno? Existem diferentes tipos de muro: o vcio, a compulso, a obsesso, a depresso que insensibiliza a mente e a dor que parte 
o corao. O muro  o lugar onde voc se v numa poa de lgrimas, e as nicas palavras que lhe vm  mente so "Eu no consigo".
       Quando leio os inmeros dirios que mantive durante todos esses anos, me desespero diante do nmero de vezes em que resolvi ir mais devagar, fazer menos coisas, 
viver num ritmo mais moderado. O que estou querendo dizer  que, quando leio meus dirios, eu me vejo diante de pginas e mais pginas de resolues e relatos de 
planos cancelados, recuos, reduo de expectativas, reformulao de prioridades e reorganizao. Fico cansada s de ler! Essas coisas claramente no funcionaram, 
j que est tudo de volta, o mesmo cansao, a mesma atividade excessiva e a resoluo de mudar, freqentemente inspirada por perodos de doena que aconteceram por 
eu fazer coisas demais. Leio os registros nos dirios e finalmente, exasperada, fecho os cadernos com fora e digo em voz alta: "Pelo amor de Deus, Oriah, desista! 
E evidente que voc no vai conseguir!"
       E pela primeira vez eu entendo. Eu  particularmente o eu que se sente incitado a fazer mais e mais  realmente no posso ir mais devagar. Se pudesse, eu 
teria feito isso.
       Algumas das pessoas com quem mais aprendi na vida so viciadas em recuperao. Trata-se em geral de pessoas extremamente decididas que esbarraram no muro 
das prprias limitaes. O caminho da recuperao  uma vida em que o comportamento no qual so viciadas no determine mais suas aes  sempre envolve o difcil 
e contnuo reconhecimento de que no basta a vontade para mudar o comportamento que est destruindo a vida delas. Quando reconhecem isso, entregam o vcio e a vida 
para algo maior do que elas  algo que chamam de Deus, de amor, de energia universal, do nome que queiram dar.
       Sigo ento o exemplo dessas pessoas. Entrego esse aspecto do meu eu, que  compulsivamente levado a fazer cada vez mais coisas, para a presena que sempre 
esteve comigo. Fao minha prece reconhecendo que estou entregando o aspecto compulsivo do eu  o aspecto que esquece que eu sou suficiente  ao Mistrio que  maior 
do que eu e est personificado dentro de mim. Peo  parte de mim que as minhas Avs instrutoras chamam de minha Hokkshideh  essa parte minha que, embora pequena, 
se lembra de quem e do que eu sou  para orientar e cuidar da minha Shideh  a outra parte que, porque tem medo e porque se esquece, acha que precisa fazer cada 
vez mais.
       Em alguns dias eu rezo suavemente; em outros, eu oro com desespero e freqentemente repito minha prece vrias vezes durante o dia. Depois, tento agir de acordo 
com minha prece. Se eu peo ao Mistrio que afaste de mim essa tendncia de fazer coisas demais e, logo depois, marco dez compromissos para o mesmo dia, preciso 
questionar a seriedade da minha inteno.
       Durante algum tempo, quando eu dizia essa prece, uma imagem me vinha  mente: um casal de hamsters sobre uma das rodas de exerccio que colocam nas gaiolas 
dos hamsters. Eles estavam dentro de mim, em algum lugar ao redor do umbigo, e no conseguiam descer da roda. Continuavam a girar, sem chegar a lugar nenhum, claramente 
exaustos e incapazes de parar. Ento eu imaginava como se uma mo penetrasse em mim e delicadamente ia tirando os hamsters da roda e colocando-os em outro lugar. 
Tenho uma imaginao capaz de criar as imagens mais divertidas. Havia dias em que os hamsters simplesmente ficavam onde eram colocados, arquejantes, a lngua pequena 
e cor-de-rosa pendurada para fora, os olhos fechados. Mas, em outros dias, eles se recuperavam rpido e se sentavam ou comeavam a andar, explorando tranqilamente 
o ambiente. Havia ocasies em que at danavam.
       Essa visualizao funcionou como um bom comeo, at mesmo por ser cmica. Se meu esforo para mudar a compulso de fazer coisas demais fosse srio, provavelmente 
no funcionaria. A visualizao tambm fez com que eu tratasse dessa minha tendncia com carinho e cuidado, em vez de atac-la com uma crtica impiedosa: a mo no 
estava punindo os hamsters e sim proporcionando a eles um merecido descanso.
       No entanto, num determinado momento, compreendi que criar uma imagem cmica era, em parte, uma defesa contra a idia de enfrentar a gravidade da minha compulso 
de fazer coisas demais. Um pouco como o alcolatra que brinca a respeito do pileque da noite anterior. Em vez de procurar realmente entender o que acontecia, eu 
estava fugindo. Porque o meu excesso de atividade podia ser muito compensador  e mesmo elogiado  numa cultura que valoriza a produtividade acima de tudo. Alm 
do mais, justificava os momentos que eu periodicamente passava sozinha por estar exausta ou com dor de cabea, e, acima de tudo, a sensao de ser capaz de permanecer 
uma passo  frente de um cachorrinho preto que tenta morder meu calcanhar, enquanto os demnios sussurram "No  suficiente, no  suficiente".
       Mais cedo ou mais tarde, quando renunciamos ao que no podemos controlar, temos que ficar parados e deixar que os demnios dos quais temos fugido nos alcancem. 
No existe terror maior. Mas no pode haver maior libertao do que enfrentar os demnios que esto nos braos da nossa natureza capaz de compaixo e do que  maior 
do que ns. No posso dizer a vocs que est tudo terminado. Diariamente ainda entrego meu aspecto compulsivo ao que  maior do que eu, s vezes com uma prece bem 
simples que diz "Me ajude", quando me surpreendo avanando a pleno vapor para ler meus e-mails antes do caf da manh ou em marcha acelerada em direo a uma jornada 
de trabalho de dezesseis horas. Sento-me ento imvel, enfrento os demnios, respiro e deixo a compaixo de minha essncia suavemente redirecionar o aspecto do eu 
que est perdido, que se esqueceu, uma vez mais, de que eu no tenho que conquistar meu lugar fazendo as coisas com perfeio ou trabalhando mais.
       Uma das cerimnias tradicionais dos ndios americanos da qual participei e j conduzi se chama Dana da guia. A Dana da guia  uma prece para o eu e para 
o mundo expressada atravs do movimento do corpo. O rigor implacvel da dana significa que, num certo ponto, ela se torna para os danarinos um microcosmo dos lugares 
na nossa vida em que esbarramos no muro, o lugar que no conseguimos transpor pela fora da nossa vontade. A cerimnia  difcil,  medida que os danarinos insistem 
em tentar transpor o muro unicamente pela fora da sua vontade.
       Comeamos ao amanhecer e terminamos ao anoitecer. As pessoas passaram trs dias meditando, dizendo preces e participando de cerimnias de purificao para 
reunir concentrao para a dana. Elas so proibidas de ingerir comida e gua no dia da dana e s podem fazer uma ou duas pausas de cinco minutos para descanso 
com a autorizao do lder. Os danarinos sopram apitos de guia, que emitem um grito estridente enquanto correm na direo da rvore central, que representa o centro 
sagrado da vida que nos sustenta, e voltam para seu lugar no crculo danando de costas, sem nunca voltar as costas para a rvore. Eles se movem acompanhando o ritmo 
dos tambores e das preces cantadas que os estimulam.
       Quando estou atuando como lder, meu trabalho consiste em manter as pessoas danando, porque sei que, se elas conseguirem continuar a danar, sero ajudadas 
a vencer a dor, o medo ou a desesperana que no conseguem superar sozinhas. Em algum momento da dana, quase todos os danarinos me odeiam, sentem que eu, de certo 
modo, os estou obrigando a danar, pressionando-os ou deliberadamente deixando de dar ateno ao seu pedido de fazer uma pausa. No me sinto atingida pessoalmente. 
Quando esbarramos no muro das nossas limitaes, uma das primeiras reaes  olhar em volta procurando algum em quem botar a culpa.
       Lynn  uma mulher bonita, inteligente e talentosa que, para grande surpresa dos que a cercam, freqentemente se autodesvaloriza. H vrios anos ela vem trabalhando 
num programa de doutorado e chegou a hora de escrever sua tese. Lynn est perdida, intimidada com o tamanho da tarefa e j no tem mais certeza de ter algo a dizer 
ou o direito de diz-lo.
       A medida que a dana ultrapassa o meio da tarde, vejo que Lynn est lutando para continuar, diminuindo o ritmo, ajeitando a saia, o cinto ou o apito, entre 
as corridas em direo  rvore, fazendo qualquer coisa para no prosseguir. Quando encontramos o que no podemos controlar, resistimos  idia de continuar. Procuramos 
distraes  e a vida est cheia delas , maneiras de nos afastarmos do muro do qual estamos nos aproximando, de adiar o inevitvel reconhecimento das nossas limitaes. 
Finalmente, Lynn se apia num dos joelhos e permanece assim. Vou at perto dela, no crculo, ajoelho-me ao seu lado e pergunto o que est acontecendo. "Quero beber 
gua", diz ela sem levantar a cabea. "Isso no  possvel". Mantenho meu tom de voz casual. "V se danar!" Ela mantm a cabea baixa, mas olha para mim de esguelha, 
avaliando o efeito das suas palavras, e continua: "Para mim chega. Quero pegar o meu carro e procurar uma pousada".
       Espero um minuto e volto a falar, tomando o cuidado de manter neutro meu tom de voz. Se eu me aproximar demais, ela vai desmoronar. Se for dura, ela vai fugir. 
Meu peito di por ela, por mim, pela nossa certeza de que  rduo demais, que sempre ser. Desejo intensamente que ela encontre aquilo que est dentro dela e  maior 
do que ela, aquilo que pode conduzi-la e ensin-la que as coisas no precisam ser to difceis. Mas  algo que no posso dar. S posso ajud-la a ficar num lugar 
onde ele possa encontr-la.
       "Lynn, a verdade  a seguinte: se voc for em direo ao seu carro, ningum vai tentar impedi-la. A deciso  totalmente sua. Mas voc e eu sabemos muito 
bem que voc j esteve neste lugar milhares de vezes na sua vida  bem aqui, onde voc j conseguiu percorrer trs quartos do caminho e no consegue ver como pode 
prosseguir, no consegue enxergar o outro lado e por isso quer desistir. E voc pode desistir. Ningum vai segur-la. Ou ento voc pode tentar algo diferente. Voc 
pode ir mais uma vez at a rvore. "
       "Voc no est falando srio. Ainda falta muito para o anoitecer. No se trata de correr mais uma vez at a rvore;  correr mil vezes. E simplesmente no 
consigo fazer isso!".
       "Estou falando srio sim. No existe outra maneira de fazer isso. Corra uma vez at a rvore. Isso  tudo que voc precisa fazer. Uma nica vez mais. Se voc 
tentar outra coisa  se voc tentar mil, cem ou dez vezes mais , no vai conseguir". Eu sei que se ela no conseguir permanecer no momento presente, no conseguir 
pedir ajuda para esta corrida at a rvore, apenas esta nica corrida  esta que o p dela est dando agora, no nico momento que realmente temos, o presente , 
ela ser incapaz de prosseguir.
       Algo nela acredita em mim. Ou talvez ela no consiga se lembrar de onde deixou a chave do carro. Ou talvez queira fazer algo diferente. Lynn se ergue lentamente, 
coloca o apito na boca e avana em direo  rvore no centro do crculo, dando um passo de cada vez. Nas horas seguintes, ela no vacila, embora eu veja s vezes 
a luta no seu rosto. Ela continua indo at a rvore. Dois anos depois, quando Lynn coloca nos meus braos sua tese de quinhentas pginas  escrita pgina por pgina 
, como uma criana preciosa que ela tenha dado  luz, rimos e recordamos juntas a Dana da guia.
       John tambm participa da dana. Ele  um homem delicado e sincero que se preocupa a maior parte do tempo, em quase todas as situaes, com o que poderia dar 
errado. Alm disso, John tem uma imaginao incrvel: ele consegue pensar em todas as possibilidades. Em decorrncia disso, vem sofrendo h muitos anos, quase que 
o tempo todo, uma srie de problemas causados pela ansiedade: dor de cabea, dor nas costas, males do estmago, a lista  interminvel. Quando ele se senta de repente, 
sem nenhuma cerimnia, vou at ele. John est prestes a se deitar e, se o fizer, ser difcil levantar-se e recomear a dana. Quando eu me agacho perto dele e pergunto 
o que est acontecendo, ele responde ofegante, demonstrando claramente que est com dificuldade para respirar. "Sinto uma dor terrvel", diz, reclinando-se e apoiando-se 
num dos cotovelos. "Minhas articulaes, meu peito, minha cabea  tudo di... no vejo jeito de continuar".
       Permaneo onde estou por um momento, em silncio. Conheo John o suficiente para saber que esta  uma situao freqente  ele fica dominado por uma dor fsica 
intensa, induzida pela sua ansiedade. Ponho delicadamente a mo sobre o peito dele. Sua pulsao est forte e constante. "John", digo suave mas enfaticamente, "voc 
no  a dor." Seus olhos se enchem de lgrimas e os soluos tomam conta do seu corpo. Quando batemos contra o muro das nossas limitaes, freqentemente somos to 
esmagados pela dor, pelo desapontamento ou pelo medo, que nos esquecemos de que eles no so o que ns somos. Eles apenas surgem to grandes dentro de ns, que nos 
impedem de tomar conscincia do resto.
       "John, no quero que voc pare de chorar. No quero que deixe de dar ateno  dor. Quero apenas que voc se levante e v at a rvore, do jeito que voc 
".
       As palavras surgem como um doce lamento atravs dos soluos que continuam a agitar seu corpo magro: "Eu... eu no... sei se sou capaz".
       "Voc  capaz, desde que no tente se afastar das lgrimas e da dor. Voc  capaz de se lembrar que voc no  a dor, no  a ansiedade. Voc  capaz, se 
rezar e deixar que algo maior do que voc o conduza, do jeito que voc , uma vez mais at a rvore. V lentamente, mas v".
       John se levanta, ainda chorando e tremendo. Eu me afasto e ele avana uma vez mais em direo  rvore. Meia hora depois, fico impressionada ao v-lo indo 
suavemente, mas animado, at a rvore  claramente renovado e sem sentir dor.
       Mais tarde, John e eu conversamos sobre sua ansiedade e todos os anos em que ele vem tentando se ver livre da dor que ela lhe causa. "John, o problema  o 
seguinte: voc fica pensando que em uma dessas cerimnias eu vou dizer alguma coisa mgica ou algo vai acontecer, fazendo com que voc passe a saber como se livrar 
para sempre da sua ansiedade. " John d um sorriso e concorda com a cabea. Fao uma pausa e falo mais devagar: "Isso nunca vai acontecer". Ele olha surpreso para 
mim. "Essa ansiedade que o atormenta no pode ser controlada por voc. Voc no pode modific-la com sua vontade. Voc no acha que se pudesse se libertar dessa 
ansiedade com a sua fora de vontade, voc j o teria feito h muitos anos?" As lgrimas comeam a fazer linhas finas no rosto de John. "Eu sei que isso  difcil. 
Mas olhe para os fatos como eles so. Eu no acho que voc seja masoquista; voc acha?" Ele balana a cabea negativamente. Eu prossigo: "Alm disso,  claro que 
existem momentos em que voc consegue atrair a ateno dos outros por causa das doenas provocadas pela ansiedade. Mas voc acha que esta  uma recompensa suficiente 
para voc querer, mesmo que inconscientemente, continuar a ser afligido por essa ansiedade?".
       Ele responde de novo: "No".
       "No estou dizendo que voc no consiga controlar uma grande parte disso. O problema  que, quando alguma coisa j est conosco h muito tempo  como a ansiedade 
est com voc , ela se torna to familiar que passa a ser habitual. Mas eu sei que voc deseja se livrar dela, ou pelo menos no quer que ela dirija sua vida e 
o deixe doente durante tanto tempo. Se voc pudesse modificar a situao com sua vontade, voc j o teria feito".
       "Ento o que  que eu fao?", ele pergunta, confuso.
       "Entregue-a a algo maior do que voc", respondo. "Todos os dias, a cada momento se isso for necessrio, repita uma prece dizendo o seguinte: Aqui estou eu. 
No consigo fazer isso sozinho. Eu no tenho ansiedade. E ela que me possui, e eu a estou entregando quilo que  maior do que eu  ao Grande Mistrio, ao poder 
do Amor, que  a fora vital da criao. 'Use as palavras que quiser, mas diga 'Ajude-me'."
       "Mas por que me sinto to ansioso? Isso no faz sentido". Percebo sua mente lutando para encontrar uma maneira de lidar com a ansiedade, de entend-la e faz-la 
desaparecer. "No  uma questo de por que, John. Talvez voc nunca venha a sab-lo, porque a ansiedade  provavelmente uma combinao de mil coisas  gentica, 
condicionamento, hbito e traumas passados... quem sabe? Voc ainda acredita que se conseguir compreender a razo da sua ansiedade poder control-la. Mas eu no 
tenho a menor certeza de que voc possa algum dia saber completamente por qu. Voc procura essa razo h muito tempo, j conseguiu entender alguma coisa, mas a 
ansiedade desapareceu?" Triste, ele faz que no com a cabea.
       Dou um suspiro e rio um pouco. "John, posso ver pela maneira como voc est me olhando que no acredita em mim, e eu compreendo isso. Mas, sinceramente, estou 
convicta de que voc s se livrar dessa ansiedade quando enfrentar o fato de que ela no pode ser controlada pela sua vontade". Fao uma pausa e sinto um aperto 
na garganta, to grande  o desejo de ajud-lo. "Alm disso, John, voc j est quase com cinqenta anos. Eu gostaria que voc pudesse viver mais feliz o resto da 
sua vida".
       A tecnologia desenvolvida pelos seres humanos estendeu o poder da nossa vontade sobre o ambiente externo de uma maneira que ultrapassa os mais fantsticos 
sonhos dos nossos antepassados. Talvez seja por isso que fica difcil para ns acreditar que algumas coisas, inclusive certos estados interiores que determinam a 
qualidade da nossa vida, esto alm do controle da nossa vontade. Repetidamente observo como  difcil pedir a ajuda de que precisamos quilo que  ao mesmo tempo 
maior do que ns e parte da nossa natureza essencial. Presos no nosso vcio ou compulso, cobertos de ansiedade ou impelidos a trabalhar mais intensamente, perdemos 
a capacidade de enxergar a beleza de quem somos. Abrir-nos para a beleza que est  nossa volta e dentro de ns, mesmo quando estamos sofrendo, prestarmos ateno 
e entregarmos o que no podemos controlar a quem essa beleza, esse Mistrio, est sempre dizendo que somos  este sim  um ato de poder.
       
MEDITAO DA ENTREGA

       Nesta meditao concentrei-me simplesmente em desapegar-nos das tentativas e do apego de que s vezes no estamos conscientes. Inclu duas preces depois da 
meditao. A primeira  uma prece genrica, na qual entregamos o aspecto do eu que esquece sua verdadeira natureza e fica assustado  presena que  maior do que 
ns e, ao mesmo tempo,  nossa verdadeira natureza. A outra  uma prece que entrega um aspecto especfico do eu  usei minha compulso como exemplo  que no conseguimos 
controlar apenas com a nossa vontade.
       Sente-se ou deite-se numa posio confortvel e feche os olhos, se voc se sentir confortvel fazendo isso. Respire profundamente trs vezes, inspirando pelo 
nariz e soltando o ar pela boca, deixando os ombros carem ao expirar. Leve o ar para os lugares do seu corpo que precisarem de mais ateno, deixando que qualquer 
cansao ou tenso v embora quando voc soltar o ar.
       Concentre-se na respirao e passe alguns minutos observando apenas o ar que entra e sai do seu corpo. Tome conscincia dos sons ou aromas ao seu redor e 
volte a concentrar-se na inspirao e na expirao cada vez que respirar. Observe o subir e descer do seu corpo. Se surgirem pensamentos, registre-os e deixe que 
sejam levados pelo ar que voc expira como nuvens que passam pelo cu.
       Concentre-se por um momento no seu corpo, notando particularmente os lugares onde possa haver tenso. Relaxe. Envie o ar para esses lugares e, ao expirar, 
deixe seu corpo ir ficando mais relaxado. Faa isso vrias vezes, sentindo, sempre que soltar o ar, o apoio cada vez mais intenso da superfcie que sustenta voc 
e da terra debaixo dessa superfcie.
       Quando sentir um razovel relaxamento, comece a repetir suavemente as seguintes declaraes: "Eu entrego...", "Eu renuncio a...", "Eu paro de tentar...", 
completando as frases espontaneamente, sem crtica ou censura. Observe, sem julgar, como voc se sente ao completar as afirmaes. De que maneira seu corpo responde? 
Fique apenas com quaisquer sentimentos ou sensaes que possam surgir enquanto voc repete as frases, observando o que acontece dentro de voc. Se surgir alguma 
tenso, leve o ar para os lugares tensos do seu corpo durante alguns momentos e libere a tenso ao soltar o ar. Permanea um tempo suficiente com cada afirmao, 
esperando que o restante da frase surja de um lugar mais profundo do seu ser.
       
       
       Grande Mistrio, oua minha prece. Eu submeto minha vontade  minhas aes e meus pensamentos neste dia   minha natureza cheia de compaixo, ao aspecto 
do eu que no se esquece que  voc que eu personifico na minha essncia. Oriente-me para que eu possa sentir sua presena e me lembrar de quem eu sou, para que 
eu possa servir quilo a que perteno, o Sagrado Mistrio que  a vida.
       
       
       Sagrado Mistrio, olhe para Oriah Mountain Dreamer (substitua por seu nome). Entrego a voc o aspecto do eu que  compulsivo, que me fora a fazer mais do 
que meu corpo pode agentar (substitua pelo aspecto que queira entregar). Acolha este meu aspecto, envolva o meu medo com compaixo para que eu possa recordar tudo 
que eu sou e saber que  suficiente.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       

SETE
Danando Juntos

E depois de mostrarmos um ao outro como definimos e 
mantivemos os limites claros e saudveis que nos
ajudam a viver lado a lado um com o outro,
vamos correr o risco de lembrar que nunca deixamos
de amar em silncio aqueles que um
dia amamos em voz alta.



       Ns achamos que escolhemos aqueles que amamos. Mas eu acho que simplesmente fazemos o melhor possvel para estar um com o outro onde o amor  o Mistrio que 
nos sustenta  nos convoca.
       A vida em que existe o amor  freqentemente confusa. A vida sem amor  mais arrumada, mas quem quer saber dessa arrumao? Danar sozinho  quase sempre 
mais fcil e certamente menos complicado do que danar com outra pessoa. Mas nada  to gratificante quanto criar nem que seja um nico momento de verdadeira beleza, 
ao nos movermos graciosamente em harmonia com algum. Talvez para encontrar mais freqentemente essa beleza, esses momentos em que nos harmonizamos num movimento 
primoroso com o outro e com a msica que nos leva, precisemos renunciar s nossas idias a respeito de como a dana deveria ser e simplesmente nos deixar guiar pela 
confuso do amor.
       Meu ex-marido, Des, pai dos meus dois filhos, Brendan e Nathan, se casa hoje. Estamos separados h treze anos. Moro na casa nmero 16 e Des mora na casa nmero 
2 da mesma vila. Embora a proximidade no seja ideal para nenhum dos dois, esse acordo fez com que nossos filhos pudessem se deslocar facilmente de uma casa para 
outra.
       Esta  a dana de pais separados, de duas pessoas que esto s vezes dolorosamente conscientes da ligao contnua que sempre tero atravs das crianas que 
os dois amam, embora tenham deixado de ser amigos, namorados, companheiros ou cnjuges. Des e eu somos cautelosamente educados um com o outro e, por mais incrvel 
que possa parecer, temos tido muito poucos conflitos ao elaborar nossa programao.  verdade que ns dois, ao contrrio de tudo que pretendemos e acreditamos ser 
correto, de vez em quando nos queixemos aos nossos filhos e a amigos a respeito de desfeitas, provavelmente imaginrias, feitas pelo outro. Amigos que antes eram 
comuns agora s se do com um dos dois, uma escolha feita na ocasio da separao. Nossos filhos, por no terem essa opo, nos dizem, com toda a razo, que no 
querem ouvir as nossas queixas.
       Brendan e Nathan, hoje com dezenove e dezesseis anos, esto claramente perturbados por causa do casamento do pai. Eles vm at minha casa para mostrar o terno 
novo. Jovens inconseqentes se transformam em rapazes responsveis por causa da l azul-marinho, do colarinho branco engomado e da gravata gren.
       Nathan me pede que o ajude a exercitar sua funo de conduzir as pessoas aos seus lugares na cerimnia. Eu lhe digo que d um passo  frente, se apresente 
com um simples "Oi, eu sou Nathan, filho de Des", estenda o brao e pergunte: "Posso conduzi-la ao seu lugar?".
       No seu nervosismo, ele no consegue fazer a coisa certa. "Oi, eu sou filho de Nathan", ele fala tropeando, projetando o brao na minha frente como se estivesse 
dirigindo o trnsito ou contendo uma multido irada numa demonstrao. A exploso de riso do irmo mais velho no ajuda muito. Ele arregala os olhos, apavorado: 
"O que vou fazer?", ele se lamenta. "Me ajuda, mame".
       "Relaxe", eu digo, procurando parecer calma e solidria, enquanto mordo o lbio inferior para no rir. "Voc  o anfitrio. Basta se concentrar nas pessoas 
que esto entrando e faz-las se sentirem  vontade".
        difcil para Nathan relaxar. Ele imagina as piores hipteses, e eu tenho que me conter para no rir, enquanto vou tentando acalm-lo. Conheo em parte a 
origem do seu medo. Ele me ouviu contar a histria de um casamento no qual um rapaz igualmente tenso e nervoso oferecia o brao s mulheres que entravam na igreja. 
Uma conhecida estava na minha frente, e o rapaz, determinado a realizar a tarefa que lhe tinha sido designada, aproximou-se dela e, estendendo levemente o cotovelo, 
perguntou: "Posso conduzi-la ao seu lugar?" A mulher virou-se e fuzilou-o com o olhar. "Acho que consigo caminhar sem a sua ajuda!", proclamou num tom de voz retumbante. 
"As mulheres no so invlidas!".
       Pessoas que j estavam sentadas nos bancos se voltaram para ver o que estava acontecendo. O rapaz ficou ainda mais vermelho e parecia desesperado, obviamente 
sem entender o que tinha feito para ofender a mulher. Encaminhei-me rpido para onde ele estava e fiz minha mo escorregar pela dobra do seu cotovelo. Pude sentir 
seu brao fino tremer levemente debaixo do terno adulto. "Eu gostaria muito que voc me conduzisse ao meu lugar", eu disse, tranqilizando-o com um sorriso. Confuso, 
porm claramente aliviado por ter alguma coisa para fazer, ele me escoltou pela nave da igreja.
       Mais tarde, conversei em particular com a mulher: "No entendi o que voc fez", disse a ela. "Voc realmente acha que estava defendendo as mulheres humilhando 
aquele rapaz em pblico por fazer o que tinham dito a ele que fizesse, tentando ser gentil com voc? Voc de fato achou que ele estava insinuando que voc parecia 
frgil demais para conseguir ir sozinha at seu lugar? E como voc acha que ele vai se lembrar disso tudo mais tarde? Ser que ele vai respeitar as mulheres, ou 
vai desconfiar delas em geral, porque elas podem querer arrasar com ele, sem avisar ou sem um motivo imediato?"
       Ela no respondeu. Eu podia ter dito a ela que tambm j tive medo de ficar confinada e presa a velhos papis e que por causa da minha raiva j ataquei a 
pessoa errada. Mas isso aconteceu anos antes de eu descobrir a amplitude e a profundidade da compaixo. Naquela poca, eu achava que tinha que tomar partido. Mais 
tarde aprendi que a compaixo poderia suavemente acolher tanto a raiva da minha conhecida quanto o medo e o constrangimento do rapaz.
       Eu sei que Nathan est se lembrando dessa histria enquanto se prepara para conduzir as mulheres no casamento do pai. Ele tem conhecimento dos cinco mil anos 
de patriarcado e no quer atrapalhar a luta de libertao das mulheres. No entanto, acima de tudo, como todos os garotos de dezesseis anos  como todos ns , ele 
quer apenas se sair bem e evitar ser humilhado em pblico. Assim sendo, ensaiamos repetidas vezes seu papel.
       Mais tarde, quando ele e Brendan voltarem tropeando para casa  meia-noite, cheios de histrias e intoxicados por terem estado to perto do centro das atenes 
e pelo seu primeiro contato com o lcool, Nathan me dir que tudo correu bem e que ele ajudou uma insegura garota de quatorze anos a encontrar seu lugar.
       Ele estar reluzindo com um orgulho tranqilo, confiante na sua habilidade  que cresceu naquela noite  de fazer o que quase todos os homens querem fazer: 
oferecer algo que tenha valor e significado s mulheres que os cercam. Compreendi como isso  importante para os homens tarde demais para que essa descoberta pudesse 
ser til no meu casamento com o pai dele. No  que eu no apreciasse o carinho do meu marido enquanto esse sentimento esteve presente, mas minha independncia obstinada, 
talvez at doutrinria, deixava pouco espao para que ele sentisse que tinha qualquer coisa realmente de valor para me oferecer e que seria totalmente recebida.
       Brendan est se preparando para o casamento de uma maneira diferente. Por ser o "padrinho" oficial do noivo, fato que ele no consegue deixar de mencionar 
repetidamente  com nfase  para o irmo mais novo, ele decidiu, duas horas antes da cerimnia, que quer fazer um brinde na recepo. "Me ajuda", ele pede enquanto 
Nathan me conduz de um lado para o outro na sala. "Preciso de um poema, de alguma coisa legal".
       "Voc quer ler um dos meus poemas no casamento do seu pai?", pergunto com uma inocncia fingida. No consigo evitar curtir um momento de prazer por causa 
dessa idia. Afinal de contas, eu conheo o noivo intimamente  e a noiva, Bonnie, foi uma grande amiga minha quando Des e eu estvamos casados.
       "No", diz ele, irritado. "Um dos seus, no. Isso seria deselegante. Um poema de outra pessoa. Voc conhece milhares de poemas. Voc tem que ter um. Eu no 
tenho tempo de procurar. Quero recitar, e no ler, um poema. Preciso arranjar um rpido, para poder decor-lo, e s tenho duas horas".
       Demonstrando um extraordinrio controle, mordo a lngua para no dizer que ele teve dias, talvez semanas, para se preparar, que eu queria passar sozinha este 
sbado, que eu tenho que cuidar do meu trabalho e, mais ainda, da minha vida, e que  no mnimo um pouco estranho procurar um poema que ser usado para brindar o 
casamento do ex-marido. No quero realmente me envolver com essa situao. Ela no tem nada a ver comigo. Mas est acontecendo na vida de meus filhos, de modo que 
tambm est acontecendo na minha.  o amor que nos liga a qualquer evento do mundo, por mais remoto que ele possa parecer. Essa crena pode tornar difcil ter bem 
conscincia de onde eu termino e os outros comeam. O limite entre a interligao estimulante e o enredamento debilitante  bastante delicado.
       "Tudo bem", eu respondo. "Vou pensar".
       Mas no preciso pensar, nem tenho tempo para isso. Conheo o poema perfeito para um casamento, aquele que eu teria lido no meu, se o evento fosse hoje. S 
mais tarde me dei conta de que, se voltasse a casar-me, ficaria esquisito utiliz-lo. Mas agora estou concentrada na necessidade de Brendan. Pego o livro de poesias 
de David Whyte, The Home of Belonging [A Casa do Pertencer], e o abro na pgina do poema "The True Love" [O Verdadeiro Amor].
       Brendan o l. " perfeito! Ser que voc pode digit-lo no computador, imprimir vrias pginas e col-las em cartes como voc faz para os seus seminrios?" 
Eu hesito, sentindo que estou me envolvendo com a situao mais do que quero. "Ora, Brendan. Vou levar a vida inteira para fazer isso".
       Mas digito, imprimo, recorto e colo. Brendan volta com uma pilha de papis na mo. Uma das suas funes  fazer algumas preces de abertura na cerimnia. "Ser 
que voc pode repassar comigo o meu discurso e o resto das coisas que eu tenho que dizer na cerimnia?" Quase contra minha vontade, levada por uma curiosidade que 
eu desconfio ser um tanto mrbida e masoquista, bem como pelo desejo genuno de fazer com que Brendan se sinta confiante, comeo a ler os papis. Eles contm o texto 
da cerimnia inteira: as preces de Brendan, a recepo dos convidados, os votos de Des e Bonnie. Eu estremeo. Sei que no deveria ler isso, mas agora  tarde demais. 
No consigo parar.
       Eles escreveram os prprios votos: promessas simples e sinceras de amar e apoiar um ao outro nos bons e nos maus momentos, mesmo se houver algum desapontamento. 
Esta  a parte de que me lembrarei com mais clareza: a aceitao de que o desapontamento mtuo  inevitvel e o compromisso de amar mesmo quando o inevitvel acontecer.
       Ao ler as palavras, sinto a estranha sensao de que estou afundando, como se o cho estivesse fugindo dos meus ps. A lembrana de outro casamento, h vinte 
anos, passa rapidamente pela minha cabea: nenhum vestido de noiva, nenhum anel, nada de votos individualizados ou grupo de amigos. Des tinha ido trabalhar naquela 
manh, pois no queria perder o pagamento de um dia de trabalho, e eu dera aula. Dois amigos foram nossas testemunhas no cartrio municipal. ramos jovens. J vivamos 
juntos h cinco anos. Na nossa cabea, o casamento era uma instituio arcaica. Estvamos fazendo tudo aquilo para pagar menos imposto. Para ns, o aspecto legal 
ou a cerimnia no tinham a menor importncia. O que contava era nosso relacionamento, nosso compromisso mtuo.
       Estvamos certos. E estvamos errados.
       Distrada, volto a examinar as pginas. Pela primeira vez me passa pela cabea que Bonnie e Des realmente esto apaixonados um pelo outro e querem construir 
uma vida juntos, da mesma maneira como Des e eu desejamos h muitos anos. Eu devia saber disso. Eles j esto juntos, sem morar na mesma casa, h dez anos.
       Uma exploso de riso causada pela magnitude da minha cegueira escapa da minha boca, e Brendan olha para mim, desconfiado, talvez sentindo que a situao  
estranha e temendo que eu caia fora e deixe de ser til no processo. Mas no tenho tempo de contemplar a profundidade e a amplitude da minha contradio. Ajudo Brendan 
a reescrever as preces que ele tem que dizer e digito a nova verso. A seguir, ouo seu discurso. Ele d as boas-vindas a Bonnie por estar entrando na famlia e 
diz o quanto se sente feliz por ela estar se casando com seu pai, no apenas por gostar dela, mas tambm porque a sua presena vai ajud-lo a conhecer melhor o pai. 
O discurso prossegue com uma brincadeira, na qual ele menciona que trs homens numa casa trocam muito poucas informaes pessoais no fim do dia quando no h uma 
mulher por perto para estimular a expanso do seguinte dilogo: "Como foi o seu dia?", "Correu tudo bem. E o seu?", "Foi timo.", "Que bom".
       Mais tarde, naquela mesma noite, ele se sentar na minha cama e me contar que todo mundo chorou enquanto ele fazia o discurso e recitava o poema. Ele dir 
ainda que todos o procuraram depois para dizer que gostaram muito de tudo. "At mesmo pessoas que no estavam l na hora me disseram que, quando chegaram, ouviram 
dizer que eu tinha feito um discurso maravilhoso", ele me contar, com os olhos brilhando. "Pessoas me pediram cpias do discurso e disseram que ele foi o ponto 
alto da noite". Eu ficarei orgulhosa e feliz por ele, satisfeita ao ver como meu filho est bem. Ele tem se sentido meio perdido ultimamente, como tantos de ns 
nos sentimos aos dezenove anos. Com problemas na escola, receoso de iniciar sua nova vida, Brendan no tem tido muito sucesso ultimamente.
       Enquanto o escuto ensaiar o discurso, percebo que ele est se tornando um homem. Dou as dicas que ele me pediu sobre a nfase e as palavras do texto. Ele 
e Nathan vo ajudar o pai a colocar coisas no carro, mas voltam pouco depois, implorando, ansiosos, que eu os ensine a danar. Faltam doze minutos para eles sarem, 
e querem que eu os ensine a danar!
       Eu sei que isso  impossvel, mas ponho um CD para tocar. Eles imediatamente reclamam, achando a msica antiquada, mas depois a aceitam, quando eu mostro 
que Des e Bonnie tm a minha idade  so velhos , de modo que provavelmente iro tocar msicas antigas no casamento. 6
       Brendan  um caso desesperado. Tento ensinar um passo bsico. Acabamos rindo tanto que mal conseguimos ficar em p, de modo que desisto e digo a ele que feche 
os olhos e tente encontrar o ritmo  qualquer ritmo  e, se conseguir, que apenas pule de leve no mesmo lugar.
       Nathan tem uma intimidade com o prprio corpo muito maior do que a do irmo. Mas  tambm muito mais introvertido, por isso acho pouco provvel que queira 
danar. Tudo isso no importa. De qualquer maneira, no h tempo. Tiro s pressas os fiapos do palet dos dois, eles se olham uma ltima vez no espelho e desaparecem.
       E eu fico sozinha. No tenho conscincia de estar aborrecida ou triste. No creio que esteja. Mas me sinto esquisita e incapaz de decidir o que fazer. Fico 
sentada por um minuto  mesa da cozinha. Vinte minutos depois, ainda estou l. Tasha, minha gata, mia pedindo comida e se esfrega na minha perna, tirando-me do devaneio 
com um estremecimento involuntrio.
       J estamos separados h mais de uma dcada, sem nenhuma esperana ou desejo de reconciliao. O que existe ainda entre mim e Des, entre mim e qualquer pessoa 
que eu tenha amado e com quem tenha vivido? Seja l o que for, certamente no  esttico. E algo em transformao, e sinto profundamente no meu ser o tremor por 
causa desse novo casamento. Fui ingnua por no ter esperado essa reao, e fico estranhamente satisfeita por ser capaz, depois de todos esses anos, de sentir essa 
inocncia, feliz por aprender que no estou continuamente esperando ver o passado no meu presente. No entanto, minha falta de preparo me faz sentir que fui violentada, 
uma dor antiga decorrente de um golpe no esperado.
       Bonnie se muda para a casa de Des. Sinto-me confusa por ter que viver to perto dos recm-casados, mesmo quando minha mente me diz que isso me deveria ser 
indiferente. Cartas para Bonnie so acidentalmente entregues na minha casa. Ouo dizer que as mulheres da vila vo dar uma festa de boas-vindas para Bonnie, e  
compreensvel que eu no seja convidada. Quando telefono para meus filhos, ouo a voz dela na secretria eletrnica dizendo que aquela  a casa de Des, Bonnie, Brendan 
e Nathan. Ningum parece achar que eu deveria estar incomodada com isso, de modo que no dou ateno aos meus sentimentos. Alm disso, a verdade  que no sei o 
que estou sentindo. No sinto nenhuma animosidade contra Bonnie, mas alguma coisa que escondi de mim mesma foi despertada do seu sono e est se aproximando silenciosamente 
de mim. A nica coisa que posso fazer  esperar que ela d um salto e se revele.
       E isso acontece. Certa manh, acordo ouvindo o eco da minha voz vindo do sonho. "Estou ferida". Fico deitada, sentindo-me atordoada e idiota, como algum 
que precisa que lhe expliquem uma piada muito bvia. Por que eu estaria magoada?
       Mas estou. Fico envergonhada e horrorizada ao descobrir que nunca perdoei Des por ter abandonado emocionalmente o casamento anos antes de eu sair porta afora. 
E descubro que eu, que sempre achei que era incapaz de um ato de vingana, queria que ele pagasse pelo que fez comigo ficando sozinho para sempre, se possvel cheio 
de arrependimento e sentindo minha falta todos os dias, pelo resto da vida. Como ousou casar de novo? Como pode ter coragem de ser feliz?
       Sinto muita vergonha de tudo isso. Sou uma mulher bem informada. Fiz terapia. Tenho uma vida espiritual. Acreditei e disse aos outros com uma certeza hipcrita 
que o perdo  um estado natural que simplesmente surge com o tempo. Des e eu j estamos separados h treze anos! No houve ofensas nem espancamentos durante o casamento, 
apenas duas pessoas que passavam pelo estresse normal de uma jovem famlia que deixou de cuidar do relacionamento como o centro principal. Eu sei disso, mas aqui 
estou, destituda do perdo que eu de forma leviana imaginei ter generosamente concedido h muitos anos.
       Sinto-me perdida. Saber o que preciso fazer, estar consciente do que no foi feito, pode ser um passo essencial no processo, mas no sei como agir. Como cuidar 
da mgoa que, por mais irracional que seja,  uma dor que est no centro da minha vida? Como abandonar a raiva que eu sei que no est sendo positiva para mim, e 
realmente me perdoar, e perdoar meu ex-marido pela dor que causamos um ao outro no passado?
       Sem saber o que fazer, medito e rezo. Surge em minha mente a pergunta: o que acontece quando h um ferimento fsico? Ele precisa ser protegido e tratado. 
A dor nos diz que algo precisa da nossa ateno. Concentro-me ento na dor durante a meditao, sensibilizando-me diante dela, tentando me encerrar no mais ntimo 
de mim mesma, sem me julgar por ainda sentir mgoa, por no ter perdoado totalmente. No tento me livrar da dor. Procuro apenas estar com ela, me aproximar dela. 
E a dor comea a diminuir um pouco.
       Depois, certa noite, mais ou menos seis meses depois do casamento, Brendan me telefona para dizer que Bonnie foi hospitalizada. Descobriram vrios buracos 
numa das artrias das costas dela. O sangue est exercendo presso sobre sua medula espinhal.  um problema raro, que precisa ser tratado. A interveno cirrgica 
corrigir o vazamento, mas h um risco elevado de que ela fique paralisada da cintura para baixo, confinada a uma cadeira de rodas.
       Na manh seguinte, vou  casa de Des para buscar Nathan. Des aparece na porta e d a impresso de no ter dormido a noite inteira. No consigo deixar de pensar 
que, quando temos quarenta e cinco anos e deixamos de dormir  noite, nossa aparncia  muito pior do que quando tnhamos vinte e cinco. "Como  que voc est?", 
pergunto. "Bem, j estive melhor". Ele tenta aparentar indiferena, mas seus olhos se arregalam um pouco. Ah, como conhecemos bem aqueles que amamos. Mesmo depois 
de todo esse tempo, reconheo o gesto que ele usa para segurar as lgrimas. "Des, sinto muito. Se houver alguma coisa que eu possa fazer por voc ou para Bonnie 
com os meninos... fazer compras... lev-los a algum lugar... qualquer coisa..." Ele fica em silncio e o vejo comear lentamente a se desintegrar. Nathan observa 
da escada. Fico surpresa com as minhas palavras: "Eu amo voc... amo a Bonnie tambm... Eu faria qualquer coisa para ajudar".
       Sei que minhas palavras so verdadeiras e consigo perceber nos olhos de Des que ele tambm sabe. Ele comea a chorar e se inclina na minha direo, cedendo 
ao medo por um momento. Ns nos abraamos rapidamente. H treze anos no nos tocvamos. Nossos corpos, que j foram to ntimos, so agora estranhos um para o outro, 
mas no totalmente. Como poderiam ser, depois de tantos anos de contato mtuo  quando eu dei  luz nossos filhos, quando o pai de Des morreu, quando fazamos amor, 
dormamos, danvamos, ramos e chorvamos juntos?
       Tudo isso passa por mim num instante, como se o contato entre ns completasse um circuito que faz passar um vdeo de memrias fsicas, e me pergunto se algum 
se separa verdadeiramente daqueles que amou, aqueles com quem nos preocupamos e sofremos. Dura apenas um momento. No quero causar uma rachadura na sua vontade de 
ser forte, porque sei que no sou a pessoa certa para ajud-lo a atravessar esse novo horror, embora eu possa entender as razes do que est acontecendo melhor do 
que quase todo mundo. Nosso casamento no sobreviveu  incrvel presso dos anos da minha doena e da incapacidade decorrente da sndrome de deficincia imunolgica 
da fadiga crnica. E agora, decorridos apenas seis meses do seu segundo casamento, Des enfrenta a possibilidade de a esposa ficar permanentemente incapacitada. Ele 
deve estar aterrorizado, aturdido e revoltado com os deuses.
       E eu? A medida que o dia passa, permito-me lembrar da jovem que foi minha amiga h tanto tempo. Trabalhamos juntas durante vrios anos num pequeno escritrio 
para duas pessoas, coordenando grupos de justia social para uma organizao internacional de estudantes. Ficamos grvidas ao mesmo tempo. Acompanhei-a no parto 
da sua filha, Molly. Consolei-a enquanto ela chorava ao se separar do pai de Molly. Nossa amizade tinha esfriado alguns meses antes de eu e Des nos separarmos. A 
loucura dela na ocasio  uma poca difcil  tinha me desgastado, e minhas crticas a essa loucura a afastaram de mim.
       No posso deixar de me perguntar o que ela deve estar sentindo, sabendo que esta poder ser a ltima semana da sua vida em que poder caminhar por uma sala, 
danar ao som de uma msica ou simplesmente sentir a gua morna do banho nas pernas. Ser que ela est saboreando cada momento, plenamente consciente dos simples 
movimentos que consideramos bvios e naturais depois que deixamos de ser bebs e nossos primeiros passos incertos se tornam firmes? Penso nela enquanto me levanto 
da cadeira da cozinha e me movo sem esforo at o fogo para encher de novo minha xcara de ch. Eu me pergunto se a minha cozinha, que  idntica  da casa em que 
ela agora mora com Des,  suficientemente grande para uma cadeira de rodas. Eu me pergunto se uma pessoa sentada tem fcil acesso  bancada da cozinha e s panelas 
sobre o fogo. Sem dvida, as torneiras ficaro muito distantes. Puxo uma cadeira para perto da pia, sento-me e tento alcanar as torneiras.  incmodo, mas consigo 
abri-las e fech-las de onde estou.
       No se trata da minha histria, e no entanto estou profundamente afetada pela maneira como ela modifica a vida dos meus filhos, de um homem e de uma mulher 
que, num certo nvel, nunca deixei de amar. E, enquanto me dou conta disso, a dor que eu tinha enterrado durante anos e recentemente aprendera a tratar com ternura 
comea a se dissolver.  um alvio reconhecer que nossas vidas esto entrelaadas, que cada um  na verdade um outro eu mesma. Desisto de tentar compreender a razo 
desse entrelaamento, de tentar desatar os ns que nos ligam. Veja bem, tenho perfeita conscincia dos limites que governam nosso contato regular, mas deixo de fingir 
que no fazemos parte da mesma histria, uma histria que no podemos ver ou compreender inteiramente. Mergulho nas lembranas de como ramos h vinte anos  amigos 
e namorados  e fico contente ao rezar por Des, por Bonnie e por mim, todos ns apenas seres humanos fazendo o melhor que podemos, ligados uns aos outros da mesma 
forma que cada um de ns est conectado  respirao e ao sangue.
       Bonnie se submete a trs cirurgias. A ltima resulta na paralisia prevista. Agora, meses depois, com uma rigorosa fisioterapia diria, a sensibilidade comea 
a voltar s pernas dela e Bonnie est aprendendo a andar de novo, passando da cadeira de rodas para o andador e deste para a bengala. Ela no sabe se um dia vai 
voltar a andar sozinha, mas estamos esperanosos.
        a vida que nos fornece ensinamentos sobre a nossa incrvel capacidade de ter compaixo, de estar ligados ao que existe, de amar a ns mesmos, uns aos outros 
e o mundo. E para quase todos ns, na maioria das vezes, isso no acontece nos grandes momentos e nas mudanas revolucionrias. Acontece nas pequenas coisas, nos 
conflitos humanos de nossos relacionamentos. Quando aprendemos a confiar na nossa natureza essencialmente capaz de compaixo e na nossa capacidade de amar, no precisamos 
nos defender desse amor. Sabemos que podemos manter os limites que nos ajudam a viver lado a lado, e sabemos que nunca paramos realmente de amar, mesmo que seja 
em silncio, aqueles que um dia amamos em voz alta. E somos renovados pelo milagre desse amor que nos leva alm de onde achvamos que poderamos ir.
       
MEDITAO PARA AQUELES QUE UM DIA AMAMOS EM VOZ ALTA
       
       Sente-se ou deite-se numa posio confortvel. Respire profundamente trs vezes, inspirando pelo nariz e soltando o ar pela boca, deixando o corpo pesar mais 
cada vez que voc expirar. Concentre-se na respirao, levando o ar para os lugares do seu corpo que possam estar cansados ou tensos, e relaxando ao expirar. Acompanhe 
o subir e descer do seu corpo relaxando mais profundamente a cada respirao. Se surgirem pensamentos, simplesmente deixe-os ir e volte a ateno para a respirao, 
seguindo o movimento do ar que entra e sai do seu corpo.
       Leve o ar para o corao. Imagine que ele est se expandindo lentamente, relaxando e se tornando mais suave nos lugares onde possa haver resistncia. Sinta 
a capacidade infinita que seu corao tem de se expandir.
       Pense agora numa pessoa que voc j amou. Ela deve ser algum que voc no v e com quem no fala h muito tempo. Pode ser uma pessoa viva ou algum que j 
tenha morrido. Deixe seu corao se lembrar de como voc amou essa pessoa. Voc consegue se lembrar dos bons momentos que passaram juntos? Dos tempos difceis?  
Como foi que vocs se conheceram? Como se separaram? Observe as lembranas que surgirem espontaneamente quando voc se concentrar no amor que sentiu por essa pessoa.
       Conscientize-se de quaisquer outros sentimentos que possam acompanhar essas lembranas  tristeza, mgoa, raiva, arrependimento, desgosto, felicidade... Sejam 
quais forem os sentimentos, simplesmente observe-os. Voc sente medo ao se lembrar de que um dia amou essa pessoa? Sente algum arrependimento? Sempre que surgir 
qualquer sentimento, inspire-o, aproximando-se cada vez mais dele. No julgue nada, fique simplesmente com o amor e com qualquer outro sentimento que a lembrana 
dessa pessoa possa evocar.
       Pense em outra pessoa que voc j tenha amado. Uma vez mais, deve ser uma pessoa que voc no v e com quem no fala h algum tempo. Inspire os sentimentos 
que possam ser despertados pelas lembranas que voc tem dessa pessoa e fique com eles. Quando sentir que j recebeu tudo o que pode neste momento, convide a imagem 
de uma outra pessoa que voc j amou para entrar na memria do seu corao.
       Conscientize-se de todas as lembranas suscitadas pelo amor. Perceba como, apesar de outros sentimentos  dor, arrependimento, medo ou tristeza  poderem 
nos impedir de tomar contato com o amor que sentimos pelas pessoas em que pensamos, a ligao entre ns e aqueles que um dia amamos nunca se dissolve totalmente. 
Respire trazendo para dentro de si a conscincia de que essas ligaes no representam qualquer risco para voc, de que  sempre possvel  e muitas vezes desejvel 
 nos afastarmos da convivncia com as pessoas que amamos sem expuls-las do corao. Sinta como nos sentimos livres quando constatamos que podemos manter o amor 
por outra pessoa sem ter medo de nos perdermos ou de corrermos o risco de ser feridos. Tome conscincia de como essa grande capacidade do corao pertence a voc. 
Leve o ar at o corao e sinta-o se expandindo.
       
       
       
       
       
OITO
Danando na Terra
       
Leve-me para os lugares do planeta que
ensinam voc a danar,
os lugares onde voc pode correr o risco de deixar
o mundo partir seu corao,
e eu conduzirei voc aos lugares onde a terra
debaixo dos meus ps e as estrelas no cu fazem meu
corao ficar inteiro de novo, e de novo.
       

       
       Escrever sobre os lugares na terra que revigoram meu corao e alimentam minha alma  como falar com voc a respeito das preces que eu digo quando ningum 
est ouvindo,  como compartilhar o sussurro das conversas que eu e a pessoa que amo temos  noite, depois de o ato do amor ter purificado nossos coraes. Temo 
que voc v me desprezar por me julgar uma mulher romntica, que gosta de abraar rvores. Confesso que j abracei algumas rvores, que comprimi o corpo ao longo 
da fora delas e senti o tremor que as percorre quando os galhos bem altos so agitados pelo vento, enquanto as razes permanecem leais ao solo que lhes d vida. 
O corpo aprende o que o olho no consegue ver  mesmo quando parecem estar imveis, as rvores danam interiormente.
       Tenho evitado escrever este captulo, preferindo reescrever os anteriores e saltar para os seguintes. Levanto, fao ch, vou dar uma volta ou tiro um cochilo 
 qualquer coisa que me impea de escrever. Tentei at mudar o trecho do verso que inicia o captulo. Mas ele se recusou a partir.
       Preciso examinar essa minha resistncia. Existe uma verdade aqui, logo abaixo da superfcie, que exigir alguma coisa de mim se eu cont-la para vocs. Esta 
 a importncia da verdade: ela nos modifica, exige que vivamos de um modo diferente.
       Uma amiga me deu de presente de aniversrio, h um ano, uma sesso com um astrlogo. Ele me disse: "Este ano voc precisa ir a lugares onde seu corpo e seu 
corao se sintam exuberantes."  um bom conselho, mesmo que desconfiemos da astrologia. Venho pensando na idia desde ento, conversando com as pessoas e ouvindo 
o que elas tm a dizer a respeito das suas ilhas paradisacas prediletas e resorts  beira-mar. Mas o tempo todo eu repito para mim e para os outros que no sei 
onde esto os meus lugares desse tipo.
       E isso  uma mentira. Uma inverdade que conto para mim mesma para no sentir a dor do meu anseio por esses lugares.
       Tudo que preciso fazer  pensar aonde eu quero ir  para onde eu me sinto arrastada como se fosse por uma fora da gravidade horizontal  quando estou ferida. 
Quando meu sofrimento parece com o de um animal  sem pensar, sem entender, arrebatada pela dor , s sinto um impulso: me afastar de Toronto, a cidade onde moro, 
viajar pelas colinas onduladas e as fazendas do sul da provncia de Ontrio e voltar  regio agreste no norte, onde cresci. E  somente quando avisto os macios 
afloramentos rochosos do Escudo Canadense, com o antigo granito glacial rosa e cinza erguendo-se da terra macia, que sinto que estou em casa.
       Eu tinha dezenove anos quando me mudei para a cidade e fui para a faculdade. Durante muito tempo no consegui suportar ir a um parque no centro ou a uma rea 
de preservao ambiental na periferia da cidade. Os gramados maquiados e a multido barulhenta s faziam aumentar a vontade que eu sentia de voltar  imensido onde 
cresci. Eles eram uma imitao plida e ridcula do que meu corao e meu corpo precisavam. Achei que era mais fcil no me abrir a esse ardente desejo. Procurei 
ento consolo nas coisas que a cidade tem a oferecer  o teatro, o cinema, as aulas e as pessoas que eu amo  e enterrei meu inacessvel anseio pela regio agreste.
       Mas, de vez em quando, alguma coisa desenterra esse anseio  uma imagem, uma histria, uma poesia  e me atinge inesperadamente, deixando-me sem ar por causa 
da profundidade da dor. Mesmo agora, sabendo o que vou dizer, no consigo recitar o poema livre de Susan Griffin, "This Earth, What She is to Me" [Esta Terra, o 
que Ela  para Mim], de Woman and Nature: The Roaring Inside Her [A Mulher e a Natureza: o Clamor dentro Dela], sem que ele parta um pouco meu corao. O poema termina 
assim:
       
       Esta terra  minha irm. Amo sua graa diria, seu ousar silencioso e o amor que ela sente por mim. Como admiramos essa fora uma na outra, tudo o que perdemos, 
tudo o que sofremos, tudo o que sabemos. Ficamos aturdidas com essa Beleza, e no esqueo o que ela  para mim, o que eu sou para ela.
       
       s vezes decidimos enterrar um anseio que parece inatingvel simplesmente porque no conseguimos suportar a dor. O perigo de fazer isso  que nos esquecemos 
do nome do anseio. E se no conseguimos encontr-lo de novo, perdemos um pedao de ns mesmos.
       
       Certa vez, h alguns anos, aconselhei uma mulher infeliz. Durante vrias sesses, Sarah me falou do quanto estava insatisfeita com sua vida  com sua solido, 
com sua luta para no comer demais, com seu desejo de ter um companheiro, um filho, um trabalho que a deixasse satisfeita. Seus gestos eram pesados; seu rosto, cansado 
e triste.
       Um dia, ento, ela me falou a respeito de uma viagem que tinha feito dois anos antes a Israel, lugar de origem dos seus pais. Enquanto falava, ela parecia 
iluminada por uma luz interior. Descreveu a cidade de Jerusalm, onde tinha morado por trs meses, como tinha gostado do barulho e da confuso, as pessoas que gritavam 
impacientes nas filas do banco, a estranha e mgica combinao das antigas tradies com a vida moderna. Ela me falou do deserto  do cu flamejante do pr-do-sol, 
da areia que parecia ouro derretido, da beleza intensa que fazia com que ela tivesse vontade de se levantar ao romper do dia e contemplar, paralisada, a paisagem. 
Ela sofreu uma grande transformao, simplesmente por relatar sua experincia.
       "Sarah", eu disse, "nunca vi voc desse jeito. Esse pas  claramente o seu lar, o lugar onde sua alma anseia por estar. Por que voc vive aqui? Por que no 
est morando em Israel?" Seu rosto se anuviou e ela respondeu com firmeza, como se estivesse fechando uma porta que algum tivesse sem querer deixado aberta: "Isso 
 impossvel. Existem muitos problemas envolvidos". Fiquei estupefata. "Que tipo de problemas? Sarah, estou certa de que haver dificuldades, mas eu nunca ouvi voc 
falar de alguma coisa que a deixasse to feliz. Seu rosto resplandece de felicidade quando voc se refere a esse lugar e a como se sente quando est l. No h nada 
que a prenda aqui. Sejam quais forem os problemas, certamente vale a pena tentar super-los para que voc possa ter esse tipo de alegria na sua vida: estar onde 
voc sabe que  seu verdadeiro lugar."
       "No posso", ela respondeu, sufocando as lgrimas. "Voc no entende. No existem homens disponveis em Israel. Existem quatro mulheres solteiras para cada 
homem. Se eu for morar l, nunca me casarei e terei uma famlia". Ela enxugou os olhos com fora e engoliu em seco. " por isso". Nada que eu pudesse dizer conseguiu 
convencer Sarah de que certamente havia uma maneira de ela viver no pas que amava, que suas chances de construir uma vida feliz  sozinha ou com um companheiro 
 eram maiores no lugar onde a pessoa que ela era pudesse brilhar, independentemente das estatsticas.
       Isso aconteceu h dez anos. Recentemente encontrei Sarah andando sozinha por uma rua. J passou da idade de ter filhos e continua solteira. Com uma aparncia 
abatida e infeliz, ela me disse que ainda estava morando em Toronto. No tive coragem de perguntar se ela visitara de novo Israel, se algum dia voltara ao seu lar.
       Na condio de facilitadora de seminrios e retiros, j ouvi literalmente milhares de preces em crculos, sesses de cura e cerimnias. Ouvi preces de gratido 
e preces que imploravam o alvio da dor fsica e da dor emocional. Preces que pediam um companheiro, dinheiro, conhecimento e orientao. J ouvi preces de homens 
e preces de mulheres, preces de budistas, cristos, judeus, hindus, muulmanos, xams e pagos, bem como daqueles que no se identificam com nenhum grupo ou tradio. 
E debaixo de todas as diferenas na linguagem, de todas as variaes nas necessidades pessoais especficas do momento, sempre ouo a mesma prece, a mesma dor da 
alma humana. No final de um desses crculos, depois de escutar as preces dos coraes humanos ao meu redor, fazendo eco  minha, eu disse bem docemente: "Tudo o 
que queremos  ir para casa". E ouvi ento o choro dos homens e das mulheres que me cercavam.
       Assisti a uma conferncia de Edgar Mitchell, o astronauta da Apollo que foi  Lua e depois fundou o Instirute for Noetic Sciences. Ele discorria sobre novas 
descobertas da fsica quntica. As informaes estavam bem documentadas e claramente articuladas, mas praticamente no me recordo de nada. No entanto, eu me lembro 
muito bem de algo que ele disse quando estava contando como comeou a se interessar pelo estudo e o significado da metafsica. Ao descrever a misso Apollo, Mitchell 
contou que, durante um momento de folga durante a viagem de volta da Lua, os astronautas tinham podido passar algum tempo apenas pensando e olhando pelo portal do 
veculo espacial. As exatas palavras dele foram as seguintes: "Quando comeamos a voltar para casa, tive algum tempo para mim mesmo".
       O que mexeu comigo e me fez sentir um pouco de dor no peito foi a expresso "voltar para casa". Dizemos que estamos indo para casa quando passamos o dia fora 
e estamos voltando para o prdio onde moramos. Dizemos que estamos indo para casa quando viajamos e voltamos para o pas em que vivemos e talvez onde nascemos. Mas 
quando Edgar Mitchell disse que eles estavam "voltando para casa" no se referia  sua casa ou  cidade em que morava nos Estados Unidos. Ele falava do planeta Terra, 
e eu entendi o que a viagem espacial dera a ele e poderia dar a todos ns, mesmo que nunca deixssemos a superfcie terrestre: a clara sensao de que este pequeno 
planeta verde e azul que rodopia no universo infinito  verdadeiramente a nossa casa.
       Todos ficamos perdidos quando no temos essa sensao do lar. E quando moramos em cidades cujo solo est coberto de concreto e as rvores so plantadas em 
caixas  fcil esquecer que a terra debaixo de nossos ps  a mesma das regies agrestes.  claro que nosso lar no  simplesmente um lugar fsico. E a sensao 
de pertencermos a alguma coisa, de lembrarmos e sermos lembrados, de sermos integrados de novo quando nossa jornada no mundo fraturou e fragmentou nosso senso do 
eu. Mas somos seres fsicos. Nossos corpos so feitos da mesma matria que o restante do universo e gravitam em direo a locais especficos da Terra onde esse pertencer 
 sentido em cada partcula do nosso ser.
       No sei por que cada lugar da Terra tem um significado diferente para cada pessoa. Aprendi a apreciar com o tempo a beleza de vrios lugares: as cores sutis 
do deserto, as ondas encapeladas do oceano, a fertilidade exuberante das fazendas e dos pomares e at mesmo a agitao palpitante e a criatividade de Nova York. 
Mas nenhum desses lugares  o lar para meu corpo e minha alma como a regio agreste no norte de Ontrio. Existe algo a respeito da aridez do local que me conforta. 
A desolao  o ngulo implacvel das rochas, o frio cortante  desafia meu desejo de suavizar as arestas da vida. Existe um estranho consolo no fato de sua imensido 
fazer com que eu me sinta muito pequena, um poder que inspira reverncia e cultiva a necessria humildade, quando eu ou o meu povo nos esquecemos de que h foras 
que no podemos domar ou controlar. E na imensido agreste que me deparo com a vida como ela , assim como outros a encontram no mar, nas montanhas ou nas plancies. 
As rochas eternas se modificam e se transformam, sua dureza cedendo  suavidade da gua e do vento ao longo das eras, quer eu perceba ou no, quer eu escreva a respeito 
ou no.
       No sei por que, mas realmente acredito que cada um de ns tem pelo menos um lugar na Terra onde o corao e o corpo se recuperam e se renovam. Precisamos 
encontrar esse lugar e ir at ele para aprender a danar. Por morar na cidade, tentei eliminar essa necessidade para no sentir a dor de v-la insatisfeita e fiquei 
doente, muito doente.
       No foi apenas o fato de eu estar na cidade que me fez ficar doente, mas, quando fui diagnosticada com a sndrome de deficincia imunolgica da fadiga crnica, 
eu soube que teria que descobrir uma maneira de voltar  imensido agreste onde nasci. Eu tinha sido arrastada pelo ritmo da cidade, e esse ritmo estava queimando 
meu corao e meu corpo de dentro para fora. Sem dinheiro que me permitisse comprar terras no norte, e uma doena que fazia com que acampar com duas crianas pequenas 
fosse ficando cada vez mais difcil, eu no via nenhuma maneira de passar algum tempo longe da civilizao.
       Mas minha amiga Linda me convidou para passar um fim de semana num trailer que ela acabara de comprar num local de acampamento que ficava cerca de duas horas 
ao norte da cidade.
       Apesar de ela ter me garantido que o lugar era isolado, eu estava desconfiada. A idia de acampar num trailer trazia  minha mente a imagem de estradas congestionadas, 
de campings superlotados, o som dos rdios retumbando por cima do rudo do liqidificador dos vizinhos que preparam seus drinques.
       Mas esse lugar era diferente. Ficava em volta de um grande lago alimentado por uma fonte, no meio de duzentos quilmetros quadrados de uma regio isolada 
e no cultivada. Cheguei antes de Linda e fui para o lago com a canoa dela. E ali, no centro do lago, eu me deitei no cho da canoa, rezei, chorei e me deixei levar. 
Eu sabia que precisava de um lugar exatamente como aquele, precisava naquele momento, e no tinha tempo, energia e dinheiro para procurar um lugar assim. Eu tinha 
esperado tempo demais, tinha mantido  distncia por um nmero excessivo de anos o anseio, o conhecimento de onde meu corpo e meu corao poderiam ser reparados. 
O problema parecia sem soluo, mas, de qualquer modo, rezei pedindo o impossvel.
       Trs semanas depois, o lugar que fora de Linda passou a ser meu. Minha amiga, em seu amor e generosidade infinitos, comprou o ponto vizinho, que no cabia 
no meu oramento, para que eu pudesse adquirir o dela. Provavelmente salvou minha vida. Passei os fins de semana e as dez semanas do vero dos sete anos seguintes 
naquela imensido agreste, sozinha ou com meus filhos, fortalecendo meu corpo e curando meu corao.
       Como podemos reconhecer os lugares que nos ensinam a danar? Pelo modo como eles nos deixam ficar sentados em silncio. Quando estou na vastido do norte, 
sou capaz de fazer, sem esforo, algo que no consigo fazer em nenhum outro lugar: absolutamente nada. No acampamento, sozinha ou com meus filhos, eu me levantava 
cada manh, preparava uma xcara de ch e ia para o minsculo cais de madeira. Ali eu ficava sentada contemplando a gua, esperando que o sol espalhasse seu calor 
sobre a terra, bebendo meu ch e no fazendo absolutamente nada durante um longo tempo. Sem planejar, sem pensar, sem falar... apenas olhando, respirando e tomando 
ch.
       E s vezes, depois de horas, dias ou semanas sem fazer nada, depois de meu corpo ter recebido uma fora invisvel das pedras, da gua e do vento, eu comeava 
a perceber as coisas. Ouvia o barulho suave do corpo da lontra mergulhando no lago e via sua cabea preta reluzente, a pele esticada para trs e os olhos brilhantes, 
acima da gua, no intervalo dos seus longos e calmos mergulhos. Escutava a fmea do merganso com sua estranha crista vermelha pontiaguda chamando os filhotes para 
que a seguissem, sempre atenta  raposa e outros predadores. E quando essas criaturas e as outras com quem eu dividia esse lugar na terra  ursos, lobos e corujas 
 comeavam a nadar, andar ou voar a poucos metros de mim, eu sabia que estava, uma vez mais, me tornando parte da paisagem da qual eu me separara e que tudo o que 
no era eu estava sendo eliminado de mim.
       Para viver mais profundamente, precisamos ir aos lugares que nos ajudam a encontrar um ritmo mais lento. No entanto, apenas ir para esses locais no basta. 
Temos que deixar que eles nos toquem, nos transformem, falem conosco.
       H alguns anos, um amigo meu organizou uma viagem  frica para um grupo de conhecidos autores e palestrantes motivacionais. Esses homens e mulheres eram 
lderes no campo do crescimento pessoal e espiritual. Muitos tinham desenvolvido modelos que procuravam desafiar os pontos de vista tradicionais das companhias e 
levar a linguagem de uma vida mais espiritualizada ao setor empresarial. A viagem oferecia a oportunidade de conhecerem e conversarem com os ancios das tribos a 
respeito das necessidades das pessoas do planeta naquele momento.
       As coisas no correram bem. Na primeira noite no acampamento, eles acenderam uma fogueira e esperaram. Quando os ancios e o tradutor chegaram, todos se sentaram 
ao redor do fogo. Os norte-americanos comearam a fazer perguntas a respeito da terra e das pessoas, e os ancios responderam de forma sucinta e relutante. Depois 
foram embora.
       Na segunda noite, quando os ancios chegaram e se sentaram ao redor da fogueira, os visitantes do Canad e dos Estados Unidos novamente fizeram perguntas, 
e uma vez mais os ancios deram respostas curtas, de uma ou duas palavras. Depois de algum tempo, os norte-americanos desistiram. Enquanto os ancios ficavam sentados, 
os visitantes conversavam sobre coisas sem importncia, iam at suas barracas, preparavam ch ou cortavam madeira para a fogueira. E ento os ancios voltaram para 
casa.
       Na terceira noite, sentindo-se frustrado e impaciente, um dos americanos, muito conhecido e respeitado por ter desenvolvido um processo de cinco passos para 
facilitar o dilogo expressivo, decidiu tomar a iniciativa. Ele explicou seu processo aos ancios, atravs do intrprete, e props que eles comeassem o trabalho 
que levara o grupo a viajar para to longe. Os ancios confabularam entre si por um momento, claramente perturbados com a sugesto.
       Finalmente, o tradutor falou: "Os ancios no compreendem. Eles pensavam que vocs tinham vindo para manter um dilogo com eles a respeito das necessidades 
das pessoas, mas vocs s fazem perguntas e ficam andando de um lado para o outro, ocupados com vrias coisas. Eles no entendem como vocs podem esperar conseguir 
falar uns com os outros se no so capazes de ficar quietos juntos e ouvir a Terra. Se as pessoas no conseguem escutar a Terra, como podem esperar ouvir uns aos 
outros?".
       Sentar juntos em silncio, ir diminuindo em conjunto o ritmo de atividade, para tentar ouvir e efetivamente escutar a Terra no fazia parte nem do modelo 
nem da experincia dos visitantes norte-americanos.
       No basta ir a um lugar da Terra que nos diga alguma coisa. Precisamos ser capazes de escutar com todas as clulas do nosso ser para verdadeiramente receber 
o que o planeta tem a nos oferecer. Mas, se voc conseguir escutar, o que vai ouvir  a verdade que talvez tenha esquecido, a verdade que deixa voc se sentar em 
silncio, a verdade que diz que voc  suficiente. E claro que voc continua sendo voc. No espere que uma pessoa melhor, mais equilibrada, mais perspicaz ou milagrosa 
e infinitamente mais sbia de repente ocupe seu corpo. Onde quer que v, voc leva com voc quem voc , suas fraquezas e peculiaridades humanas.
       Certa vez, quando eu estava sozinha no meu trailer, passei a tarde deitada sobre um cobertor debaixo dos cedros e das cicutas, alternando entre fechar os 
olhos, cochilar e olhar para cima, atravs dos galhos, para um cu que, de to azul, feria meus olhos. De repente, ouvi um barulho, como se o ar tivesse comeado 
a palpitar. Era como o pulsar suave de uma mquina poderosa que ia ficando cada vez mais forte, se aproximando a cada pulsao. Meu peito se contraiu de medo enquanto 
eu abria os olhos e olhava para cima, sem conseguir imaginar o que poderia ser aquilo que estava em cima de mim, chegando cada vez mais perto. Uma conversa que eu 
tivera na vspera a respeito de objetos no-identificados passou pela minha mente. Eu expressara veementemente meu ceticismo, zombando da possibilidade de tal fato. 
Agora, com medo e incapaz de identificar o estranho som acima de mim, minha mente foi ocupada por um temor irracional: talvez os seres extraterrestres tivessem me 
ouvido e estavam vindo me buscar. Cheguei a pensar em gritar: "Desculpem, eu estava brincando!".
       Voc percebe o que acontece? No importa aonde voc for neste planeta, por mais calmo, harmonizador ou renovador que o lugar seja, voc leva voc junto.  
importante se lembrar disso. L estava eu, calma, tranqila e renovada na terra que para mim  o meu lar, e apesar disso minha mente ainda estava rebelde, confusa 
e cheia de caraminholas esquisitas.
       Com a mente tomada pela viso dos extraterrestres, ergui a cabea do cho bem a tempo de avistar duas grandes garas voando a menos de dois metros acima de 
onde eu estava deitada, as asas batendo no ar num ritmo lento, enquanto elas desciam para aterrissar na gua do outro lado da pequena baa  minha frente. Fiquei 
completamente deslumbrada: o poder do corpo das garas, a graa e a desenvoltura do vo, a majestade do movimento que fazia com que me sentisse pequena e feliz.
       Mudanas na minha vida fizeram com que eu desistisse do trailer h vrios anos. Vivo na cidade h vinte e seis anos e h quatro j no tenho um lugar meu 
num local isolado e agreste. A verdade que eu sabia que teria que enfrentar ao escrever este captulo  a verdade que eu queria evitar porque ela envolve necessariamente 
mudana e risco   que meu tempo praticamente se esgotou. Parte de mim mal consegue resistir, esperando que meus filhos passem a ter a prpria vida, para poder 
voltar  terra que me sustenta. No me arrependo de viver na cidade. Eu no me afastaria dos meus filhos nem os tiraria do pai. So as escolhas que fazemos. Mas, 
por dentro, estou ajustando meu ritmo para conseguir atravessar os dois ltimos anos do ensino mdio do meu filho mais novo e depois voltarei para a terra que me 
conhece.
       Este  o significado da palavra lar: no apenas o lugar de que voc se lembra, mas o lugar que se lembra de voc, mesmo que voc nunca tenha estado ali antes, 
o local que guarda uma parte essencial sua, esperando que voc volte depois de ir a outros lugares do mundo.
       
MEDITAO PARA OS LUGARES ONDE SOMOS LEMBRADOS
       
       Esta meditao requer que voc escreva. Voc pode faz-la sem escrever, mas, para mim,  mais fcil concentrar a ateno no detalhe quando escrevo.
       Sente-se numa posio confortvel, tendo papel e lpis  mo, e feche os olhos. Respire profundamente trs vezes, inspirando pelo nariz e soltando o ar pela 
boca, deixando cair os ombros ao expirar e colocando o peso do corpo no quadril e nas pernas. Tome conscincia da superfcie sobre a qual voc se senta, do cho 
debaixo dessa superfcie e da terra ainda mais embaixo, sustentando tudo. Concentre a ateno na respirao, acompanhando durante alguns momentos o ar que entra 
e sai do seu corpo. Se surgirem pensamentos, tome conhecimento deles, deixe que saiam suavemente quando voc expirar e concentre-se novamente na respirao.
       Deixe agora que a frase "Estou indo para casa" entre na sua mente e veja-se viajando  de carro, a p, de avio  para um lugar, um cenrio natural em algum 
lugar da Terra. Pode ser um local que voc conhea bem, ou um lugar onde voc nunca tenha estado. Evite qualquer raciocnio sobre a possibilidade ou a maneira de 
chegar a esse local. Se nenhum lugar vier imediatamente  sua cabea, permita-se vagar e viajar na sua imaginao, repetindo a frase "Estou indo para casa". Fique 
com os sentimentos que possam surgir, mas resista  tentao de escolher racionalmente um lugar para aliviar a tenso de talvez no saber onde  seu lar. Leve o 
tempo que for necessrio.
       Se um lugar lhe vier  mente, veja-se nele na sua imaginao. Se um local no se firmar na sua imaginao como aquele que voc est procurando, mesmo depois 
de permanecer algum tempo com ele, escolha um local que voc considere agradvel e pense quais so as qualidades de lar que ele tem para voc.
       Leve o tempo que quiser para imaginar os detalhes desse lugar. E este o momento em que voc deve comear a escrever, se quiser. Qual  a hora do dia? E a 
estao do ano? Observe a temperatura, as cores  sua volta, o aroma no ar. Quando concluir a cena, pegue papel e lpis e comece a descrever o local. Acrescente 
o maior nmero possvel de detalhes: qual o tipo de vegetao do lugar? Que sons voc ouve? Existem outros seres humanos alm de voc no local? E animais? Deixe 
que sua mo se desloque pela pgina sem criticar ou julgar. Alm da descrio fsica do lugar, veja o que voc experimenta. O que faz voc se sentir em casa nesse 
lugar? Qual a sensao de que voc pertence a algo? Como seu corpo, seu corao, sua mente e seu esprito se sentem?
       Quando achar que sua descrio est completa, leia-a inteiramente, sente-se de novo de olhos fechados e imagine estar no lugar que voc descreveu. Tome conscincia 
dos pensamentos ou sentimentos que surgirem. Deixe os pensamentos irem embora e permanea apenas com os sentimentos.
NOVE
A Coreografia

Mostre-me como voc cuida dos negcios sem deixar que eles determinem quem voc . Quando as crianas esto alimentadas mas as
vozes internas e as externas
gritam que os desejos da alma tm um preo alto demais,
vamos lembrar um ao outro que o que
importa no  o dinheiro.
       

       
       Fazemos escolhas quando se trata de cuidar dos negcios, de como garantir que as nossas necessidades e as necessidades dos nossos filhos sejam satisfeitas. 
A questo  se podemos ou no deixar que a msica da nossa alma  a nossa natureza essencial  guie essas escolhas quando o medo est cantando no outro ouvido. A 
questo  saber qual a melodia que danamos e com que conseqncias teremos que arcar.
       H muitos anos, atuei como facilitadora de grupos de mulheres que viviam relacionamentos abusivos. Algumas eram casadas, outras no. No caso de algumas, ir 
embora significava sair pela porta com a roupa do corpo, sem nenhum dinheiro e com filhos para criar. J outras, se partissem, levariam consigo cinqenta por cento 
de bens avaliados em vrias centenas de milhares de dlares. E todas, sem exceo e independentemente das circunstncias em que se encontravam, mencionavam preocupaes 
financeiras como a principal razo pela qual hesitavam em ir embora. O que se tornou visvel nos mais de vinte grupos que orientei num perodo de cinco anos foi 
que, embora a questo financeira pudesse influenciar o momento exato da partida de uma mulher e a maneira como ela partia, o dinheiro, ou a falta dele, nunca foi 
motivo para que ela ficasse. Quando as mulheres estavam prontas para ir embora, quando sentiam que realmente mereciam algo melhor, quando seu desejo de uma vida 
livre de violncia era maior do que o imenso pavor que sentiam de ficar sozinhas pelo resto da vida, elas saam porta afora com o que tinham  com a roupa do corpo 
ou com bens acumulados e uma penso alimentcia regular, ou um pagamento mensal inadequado da Previdncia Social, um emprego de salrio mnimo ou uma carreira em 
ascenso. O que importava realmente nunca era o dinheiro.
       O que no quer dizer que o dinheiro  recurso que usamos para trocar a nossa energia pelo que  preciso para nos sustentar e aos nossos filhos  no precisa 
ser levado em conta. Com certeza precisa.
       Quando adolescente e meditava sobre minhas escolhas a respeito do trabalho e de relacionamentos futuros, eu proclamava apaixonadamente: "Dinheiro no tem 
importncia!" Ao me ouvir, meu pai, um esforado operrio especializado que sustentava a famlia com seu trabalho, retrucava: "O dinheiro no tem importncia desde 
que tenhamos o suficiente". Para meu pai, suficiente no significava uma riqueza extravagante  embora nossa modesta casa de trs quartos, o carro de segunda mo, 
as trs refeies substanciais por dia e as roupas quentes para o inverno pudessem dar a impresso de riqueza para grande parte da populao do mundo. Suficiente 
para o meu pai queria dizer a quantidade necessria para que as necessidades imediatas da famlia fossem atendidas. Como adultos, precisamos ter certeza de que somos 
capazes de cuidar desse assunto.
       H quinze anos, divorciada, com dois filhos pequenos, decidi fazer o que eu amo e valorizo  lecionar, escrever e oferecer aconselhamento com foco na espiritualidade 
, organizando minhas atividades para poder estar em casa quando meus filhos voltassem do colgio no fim do dia, porque isso era importante para mim. Eu certamente 
no esperava que essa escolha fosse recompensada com ilimitada prosperidade. Sentei e tentei imaginar como poderia fazer as pessoas me pagarem pelo trabalho que 
eu queria desenvolver. Defini meus honorrios depois de calcular quanto eu teria que trabalhar num ano e de quanto meus filhos e eu precisvamos para viver, consciente 
do valor que pessoas como eu podiam pagar e de quanto os profissionais da mesma rea estavam cobrando. Sempre me recusei a contrair dvidas, mesmo em tempos difceis. 
Quando queramos coisas alm das necessidades bsicas, como um carro ou frias, eu pensava numa maneira de ganhar ou poupar dinheiro, ou ento reduzamos nossas 
expectativas. Eu dava um pouco de dinheiro para aqueles que claramente precisavam mais do que eu, e optei por pagar minhas contas, o que significava no pedir nem 
aceitar penso, nem para mim nem para meus filhos, mesmo quando meu ex-marido estava ganhando muito mais do que eu. Meus filhos passavam metade do tempo com o pai, 
e eu achava que, por ser uma mulher capaz, deveria arcar com todo o meu sustento e com metade das despesas com as crianas.
       No estou apresentando essas minhas escolhas como um tipo de frmula mgica para aumentar a prosperidade. Nem estou querendo dizer que elas so moralmente 
superiores a quaisquer outras escolhas que eu poderia ter feito. So simplesmente as decises que eu tomei. Todos fazemos escolhas, embora nem sempre as mesmas. 
Depende das circunstncias. Se eu fosse uma mulher ou um homem negro, se tivesse um grau de escolaridade mais elevado, se fosse mais rica, ou portadora de alguma 
deficincia fsica ou mental, meus recursos e, por conseguinte, minhas possveis escolhas teriam sido diferentes. O nvel da minha renda era uma conseqncia tanto 
das minhas escolhas, baseadas no que eu valorizava, quanto nos valores sociais da poca. Vivo numa cultura na qual o lucro financeiro  altamente valorizado, o que 
significa que aqueles cujo talento gera grandes lucros  jogadores de beisebol e artistas de cinema  recebem s vezes milhares de vezes mais dinheiro do que aqueles 
cujo talento no produz diretamente grandes lucros monetrios, como professores, escritores e conselheiros.
       Nossa responsabilidade consiste em trabalhar com os recursos que temos e fazer o melhor possvel, cuidando do nosso negcio. Precisamos cuidar de muitas coisas. 
Ns, e aqueles que dependem de ns, precisamos de casa, roupa e comida. Temos que dar ateno s necessidades do nosso corpo e alimentar nossa mente e nossa alma. 
O fato de eu, na maioria das vezes, decidir comprar um livro ou algumas flores com os dez dlares que sobraram do oramento da semana no torna essa escolha melhor 
do que gastar o dinheiro no cinema, num par de meias ou convidando uma amiga para tomar ch. Quando nosso esprito est cansado e desanimado, o que nos anima e estimula, 
o que traz um sorriso ao nosso rosto ou faz com que nossos ombros relaxem um pouco no fim do dia, pode parecer muito estranho para outra pessoa. Os seres humanos 
tm diferentes necessidades. Fazemos escolhas no apenas na maneira de ganhar o dinheiro de que precisamos, como tambm na forma como decidimos gast-lo.
       Quanto mais eu assumia a responsabilidade pelas minhas escolhas, tanto na forma de ganhar dinheiro quanto na de gast-lo, menos pobre eu me sentia, mesmo 
que minha renda permanecesse a mesma. Houve uma poca, logo que me divorciei e comecei a morar sozinha, em que eu avaliava o meu bem-estar baseada apenas na minha 
conta bancria e no oramento familiar. Eu tinha medo de no ser capaz de sustentar a mim e a meus filhos e questionava a deciso de no procurar um emprego "de 
verdade". Definia a minha situao em funo apenas do dinheiro que tinha. Como no tinha muito, achava que no estava indo nada bem. Anos depois, ainda exatamente 
com a mesma renda, percebi que no me considerava pobre. Eu me sentia abenoada por estar fazendo o que amava, por viver numa poca e num lugar em que meus filhos 
e eu tnhamos uma casa decente e inmeras oportunidades de aprender, criar e participar do mundo. Nada se modificara externamente. O que mudara tinha sido a forma 
como eu me percebia e, por conseguinte, meu relacionamento com o dinheiro  exatamente a mesma quantia. Antes, eu tinha me sentido uma vtima, mas agora eu me tornara 
uma pessoa capaz de determinar o que queria por uma s razo: eu podia fazer escolhas. Parei de dizer, quando pensava em comprar alguma coisa: "No tenho dinheiro 
suficiente". Passei a declarar: "No  assim que eu quero gastar esse dinheiro".
       Quanto menos pobre eu me sentia, menos gostava quando me pegava querendo dar impresso de pobreza para apaziguar os outros. Quando as pessoas se queixavam 
de que no podiam pagar a quantia que eu estava cobrando por um determinado retiro, parei de justificar o meu preo explicando que meus filhos e eu vivamos numa 
condio bem modesta, e simplesmente passei a expressar minha genuna esperana de que as circunstncias da vida delas mudassem para que elas pudessem participar 
de outro retiro numa data futura.
       De vez em quando, algum comeava a argumentar, sugerindo que aceitar qualquer pagamento para ser facilitadora de retiros espirituais ou compartilhar ensinamentos 
espirituais era uma atitude repreensvel. Levei alguns anos para compreender a objeo dessas pessoas. Na ocasio, eu simplesmente dizia que enquanto a administradora 
do meu condomnio e o supermercado no aceitassem preces em vez de dinheiro para o pagamento do aluguel e da comida, eu teria que continuar a cobrar pelos meus servios. 
No se trata de vender espiritualidade. Isso  simplesmente impossvel. Voc no pode comprar sua espiritualidade de mim nem de outra pessoa. No posso vender o 
conhecimento do mais profundo anseio da sua alma, porque eu no tenho o seu conhecimento nem a sua experincia para vender. Tudo que posso fazer quando sou facilitadora 
de retiros  oferecer um refgio sagrado  um lugar e algumas prticas que daro s pessoas a oportunidade de se abrir para seu prprio conhecimento  e algumas 
histrias que, espero, nos inspirem a todos quando estivermos perdidos ou cansados. Eu cobro dinheiro pelo tempo e a energia necessrios  realizao de tudo isso, 
para que eu possa sustentar, com o meu trabalho, a mim e a minha famlia.
       Isso que eu digo pode parecer evidente, mas se voc ler alguns dos anncios de seminrios espirituais vai ter uma impresso diferente. Usando um modelo comercial 
comum, alguns patrocinadores reduzem o conhecimento e as experincias espirituais a bens de consumo, relacionando o que os participantes iro obter em troca do seu 
dinheiro: liberdade com relao ao medo, uma experincia do sagrado, respostas para os problemas da vida, equilbrio emocional, uma profunda percepo intuitiva, 
autoconhecimento, sabedoria  enfim, tudo aquilo que simplesmente no pode ser vendido nem comprado.
       Se voc estiver lendo este captulo com o objetivo de descobrir a frmula que lhe ensinar a multiplicar dez vezes sua renda, posso poupar-lhe algum tempo. 
Eu no sei. E voc provavelmente deve imaginar que eu no sou uma grande f dos chamados seminrios da conscincia da prosperidade. Com algumas excees, apesar 
de toda a retrica, descobri que os dois sentimentos mais comuns que esses seminrios cultivam e dos quais se alimentam so o medo e a ganncia. Por ser to suscetvel 
a esses sentimentos quanto qualquer pessoa, procuro no ir a lugares que estimulam a parte do meu ser que se sente tentada a definir a qualidade da minha vida atravs 
do nvel da minha conta bancria  a parte de mim que tem medo. Quero tomar conta das coisas de uma maneira que tenha coerncia com quem eu sou, como um recurso 
que me levar a viver plenamente.
       s vezes eu me preocupo com dinheiro. A verdade  que, quando eu tenho o medo inconsciente de no ser suficiente  quando no estou conectada  minha natureza 
intrinsecamente bondosa e capaz de compaixo , eu de vez em quando percebo que estou dominada pela ansiedade de que no haver o suficiente. So nesses momentos 
que eu me comporto de uma forma mesquinha, apegada e menos do que perfeita com relao ao dinheiro.
       Corre o ano de 1997 e estou organizando um retiro. Este retiro envolve um rgido jejum de um dia, que no permite nem a ingesto de lquidos, e uma dana 
cerimonial que dura do amanhecer ao pr-do-sol. J consegui convencer vrios possveis participantes a no se inscreverem, por causa da dificuldade em cumprir essas 
exigncias. Estou apenas interessada na participao de pessoas que estejam familiarizadas com essas prticas e dispostas a enfrent-las. S h mais trs vagas para 
o retiro do fim de semana.
       Sempre me orgulhei de conseguir que minhas preocupaes financeiras no afetassem minhas escolhas com relao ao trabalho pessoal e espiritual que fao com 
os outros. Pelo menos  isso que eu acho. Mas naquele momento, por algum motivo, sinto uma pontada de medo de que o retiro no fique lotado. Talvez eu esteja ansiosa 
porque as dificuldades da cerimnia, aliadas s minhas limitaes fsicas, significam que no serei capaz de lecionar depois do retiro durante muitos meses. Ou talvez 
esteja apenas tendo um mau dia e possa sentir a preocupao mordiscando a borda do meu oramento apertado, enquanto eu penso no inesperado conserto do carro, no 
preo de um passeio da escola dos meus filhos ou no aumento no previsto na conta do telefone. Seja qual for o motivo, sinto um certo abalo na minha deciso de no 
influenciar a escolha das pessoas que procuram esses retiros, e telefono para Fran, uma mulher que demonstrou interesse mas ainda no se registrou. s vezes  um 
gesto impulsivo como esse que nos cria problemas  um momento em que perdemos a conscincia de nossa verdadeira motivao.
       A secretria eletrnica de Fran atende e eu deixo o seguinte recado: "Fran, aqui  Oriah. Estou ligando para saber se voc vai se inscrever no retiro. Ainda 
tenho trs lugares e adoraria ver voc l. Recusei vrias inscries porque estou realmente querendo realizar a cerimnia com pessoas que sabem com o que esto se 
envolvendo e fazem esse trabalho com seriedade, pessoas que de fato conseguem danar de uma maneira tradicional. Acho que voc seria uma delas. Aguardo sua resposta". 
Desliguei. Nada do que disse  mentira, mas estou me sentindo muito mal. Eu sei que deixei minha preocupao com a lotao do retiro  minha preocupao de no ganhar 
o dinheiro suficiente  me levar a adular essa mulher, tentando influenciar a sua deciso. Balano pesarosa a cabea e dou um suspiro.
       "Voc devia ter ido trabalhar em publicidade, Oriah. Que bela enrolao!", resmungo em voz alta, descontente comigo mesma. E, quando acabo de dizer essas 
palavras, ouo o barulho alto da secretria eletrnica de Fran sendo desligada. Fao uma pausa e fico congelada na minha escrivaninha, como um cervo hipnotizado 
pelo farol de um carro que se aproxima. Minhas ltimas palavras provavelmente foram gravadas na secretria de Fran!
       Entro em pnico. O que posso fazer? Serei exposta como uma professora espiritual do mais baixo nvel, motivada pelo medo de no ganhar dinheiro e disposta 
a tentar agradar uma aluna para conseguir que ela se inscreva num retiro. Pior ainda  o fato de eu poder ter influenciado negativamente a deciso da mulher e arruinado 
a chance que ela tinha de participar numa cerimnia capaz de transformar sua vida. E ela vai contar o ocorrido para outras pessoas! Ela  aluna de uma professora 
que eu admiro muito. O que esta vai pensar ao saber da minha tentativa de tentar manipular Fran para que ela se inscrevesse no meu retiro?
       Meu filho mais velho, Brendan, d uma espiada no meu escritrio e, ao ver meu olhar aflito, pergunta o que est acontecendo. Eu confesso tudo. Ele se esfora 
para no rir e tenta me acalmar.
       Estou inconsolvel e comeo a andar de um lado para o outro no pequeno aposento. "No consigo entender o que aconteceu. Simplesmente fiquei perdida por um 
minuto. Nunca fao esse tipo de coisa. E a eu fao uma nica vez  uma nica vez!  e me dou mal. O que vou fazer?".
       "Nada!", diz Brendan enfaticamente. "No faa nada. Voc s iria piorar as coisas". Ele desce as escadas. Consigo ouvi-lo contando para o irmo o que eu fiz 
e os dois rindo juntos na sala de estar.
       Eu sei que deveria simplesmente deixar a coisa de lado, mas no consigo. O que comeou como uma fraqueza momentnea agora me deixou completamente descontrolada. 
Deve haver uma maneira de consertar isso. Se Deus, o universo ou qualquer ser puder me ajudar a corrigir o que eu fiz, prometo que nunca mais farei isso de novo. 
Aprendi minha lio. Tudo o que aprendi evaporou-se e estou de volta  teologia do "toma-l-d-c" da minha infncia.
       Meia hora depois, meus filhos entram no meu escritrio para ver como eu estou. Eles me encontram sentada na escrivaninha olhando preocupada para a parede. 
"No acredito. Voc no consegue esquecer, consegue?", diz Brendan, sem demonstrar surpresa. "O que voc fez?" Confesso que deixei um segundo recado na secretria 
de Fran, com uma mentira ridcula que inventei, explicando que meu ltimo comentrio tinha sido com um dos meus filhos que tinha entrado no escritrio. "Ela no 
vai acreditar nisso nem por um minuto. Estou perdida".
       Nem Brendan nem Nathan conseguem parar de rir. Poucas coisas so mais gratificantes para os adolescentes do que escutar um dos pais admitir que cometeu uma 
besteira do tipo de que eles so regularmente acusados. "Voc no aprendeu nada depois de todos esses anos?" Brendan tenta me imitar. "Uma mentira depois da outra 
s leva a mais complicaes!".
       De repente estamos todos rindo. Ele est certo. Eu agi errado  duas vezes! Instigada primeiro por uma preocupao com dinheiro, e depois, pelo medo de aparecer 
como sendo bem menos iluminada do que espero ser, agi como uma completa idiota. Rio tanto que chego a ficar com lgrimas nos olhos. Chega de ser a Sra. Impecvel 
nas minhas transaes financeiras. Chega de ser a verdade personificada.
       Fran liga depois para se inscrever e diz que no entendeu o que eu quis dizer na segunda mensagem. Aparentemente no entendeu o comentrio que fiz comigo 
mesma num tom de voz mais baixo. No vejo motivo para perturb-la, de modo que digo que no era importante. Insisto para que ela pense bem para ter certeza de que 
quer realmente participar do seminrio.
       O fato de mantermos o senso de humor ajuda quando realmente queremos ver o que estamos fazendo e por qu. Esse erro me ensinou uma lio: j no tenho mais 
certeza de que eu sempre sou capaz de separar impecavelmente as finanas de outras preocupaes. Nunca mais, depois daquele dia, eu disse s pessoas que achava que 
elas eram adequadas para um determinado seminrio e tenho o maior cuidado com os recados que deixo na secretria eletrnica!
       Parte do processo de cuidar de mim, daqueles que dependem de mim e do mundo, envolve decidir conscientemente quais so as coisas de que meus filhos realmente 
precisam. Cada um de ns realmente precisa ter o prprio quarto, banheiro, telefone, computador e carro? Talvez sim, talvez no. Alm da satisfao das necessidades 
bsicas de sobrevivncia, existem milhares de escolhas a serem feitas. E isso  tudo o que elas so: escolhas. O meu desejo de poder controlar pessoalmente o meu 
horrio de trabalho era maior do que o de ter a segurana de um salrio mensal e um plano previdncia privada, de modo que optei por dirigir meu prprio negcio, 
em vez de trabalhar para terceiros. Eu desejava mais guardar minha independncia e levar uma vida dedicada ao estudo da espiritualidade do que as coisas que uma 
renda mais elevada poderia ter me proporcionado se eu tivesse aceito a penso para as crianas ou ido trabalhar em outra rea. Escolhas. Apenas escolhas.
       No decorrer dos anos, centenas de homens e mulheres me contaram seus sonhos  como eles anseiam por mudar de emprego ou se dedicar a uma atividade artstica, 
viver em outro pas, acabar com o casamento , mas no podem fazer isso por no terem o dinheiro necessrio. Eu trabalhava com essas pessoas examinando como elas 
podiam conciliar aquilo de que gostavam com um meio de ganhar a vida. Sou uma mulher prtica. E com o passar dos anos compreendi que a soluo do problema no era 
encontrar uma maneira concreta de fazer os sonhos se tornarem realidade, e sim descobrir que, com muito poucas excees, a questo no tinha tanto a ver com dinheiro. 
O que importa mesmo so as escolhas: as escolhas influenciadas pelas preferncias pessoais e as escolhas determinadas pelo medo.
       O dinheiro  sempre um substituto para outra coisa, freqentemente um substituto conveniente. Se eu tivesse dinheiro, no teria que ficar levando os livros 
que escrevo de um lado para o outro, tentando troc-los por comida, gasolina ou ingressos para o cinema. Talvez pelo fato de o dinheiro ter sido sempre um substituto, 
 fcil deixar que ele substitua aquilo que receamos que v nos faltar, que no merecemos ou que nunca poderemos ter. Basta visitar uma vara de famlia para ver 
maridos e mulheres ofendidos darem aos advogados mais do que sua renda conjunta, no esforo de conseguir um pagamento para todo o amor, o respeito e a dedicao 
refreados ou recusados. Mas a verdade  que o dinheiro  um fraco substituto para o amor ou a intimidade que desejamos, para a espiritualidade que queremos viver 
mais plenamente. E ns sabemos disso. Mas como desconfiamos do nosso prprio merecimento, e temos medo de no sermos suficientes, tentamos conseguir dinheiro fazendo 
sacrifcios e at lutando por ele e por tudo que achamos que ele ir comprar  segurana, respeito, poder, liberdade , esperando que ele ir compensar o que tememos 
no ser.
       O que voc faria se soubesse que  suficiente tal como  hoje, se soubesse, realmente soubesse, que voc , na sua natureza essencial, uma pessoa capaz de 
compaixo, bondosa, gentil, de posse do seu ser, em harmonia com o mundo? Voc passaria a confiar mais em voc? E como essa confiana afetaria suas escolhas com 
relao  forma de cuidar dos negcios, de conseguir e gastar seu dinheiro?
       
MEDITAO SOBRE AS ESCOLHAS
       
       Sente-se numa posio confortvel, com uma caneta e pelo menos trs folhas de papel  mo. Feche os olhos e concentre-se na respirao. Respire profundamente 
trs vezes, inspirando pelo nariz e soltando o ar pela boca, deixando que todo cansao e tenso do seu corpo desapaream suavemente quando voc expirar. Deixe os 
ombros carem e concentre-se na respirao. Passe vrios minutos apenas observando o ar entrar e sair do corpo. Se surgirem pensamentos, tome conhecimento deles 
e deixe que vo embora, voltando a concentrar-se na respirao.
       Pegue agora caneta e papel e comece a completar a declarao "Eu amo..." vrias vezes. Faa uma lista das coisas que voc ama, espontaneamente. Sua relao 
poder incluir pessoas, lugares, coisas, sentimentos, atividades  qualquer coisa que lhe venha  mente. Quando o processo estiver concludo, feche os olhos e concentre-se 
uma vez mais na respirao, prestando ateno ao ar que entra e sai, ao subir e descer do corpo.
       Pegue agora a caneta e outra folha de papel e elabore uma nova lista, completando a declarao "Eu valorizo...". Escreva todas as coisas que voc valoriza 
 as coisas que voc considera importantes  na sua vida e no mundo. Essa lista tambm deve ser bastante especfica. Escreva o que lhe vier  cabea, sem julgar. 
Leve o tempo que precisar. Quando o processo parecer concludo, feche os olhos e concentre-se na respirao. Inspire profundamente trs vezes pelo nariz e expire 
profundamente pela boca, relaxando e fazendo os ombros carem. Concentre-se alguns momentos na respirao e deixe que todos os pensamentos se dissolvam.
       Uma vez mais, pegue a caneta e uma terceira folha de papel.
       Desta vez complete as declaraes "Gasto dinheiro com...", "Gasto tempo com..." e "Gasto energia com...", uma aps a outra, e depois v repetindo as trs. 
Deixe que sua mo se mova pela folha sem analisar ou julgar nada. O que estamos procurando  o autoconhecimento. Escreva com sinceridade a respeito de onde voc 
gasta diariamente seu tempo, sua energia e seu dinheiro. Ningum vai ver suas listas, a no ser que voc as divulgue. Quando sentir que terminou, concentre-se, pela 
ltima vez, na respirao e relaxe o corpo. Solte-se cada vez que expirar e permanea na posio sentada durante alguns minutos, acompanhando o ar que entra e sai 
do seu corpo.
       Espalhe as trs folhas de papel diante de voc e releia o que escreveu. Faa isso sem julgar, apenas olhe. Observe a relao entre as declaraes que voc 
escreveu. Que parte do seu tempo, energia e dinheiro  gasta com coisas de que voc gosta? Que parte  gasta com coisas que voc valoriza? Que parte  gasta com 
coisas de que voc no gosta nem valoriza? Por que voc escolheria gastar uma parte da sua preciosa vida  j que o tempo, o dinheiro e a energia so manifestaes 
da vida que temos  com algo de que voc no gosta ou que no valoriza? Voc poderia fazer outra escolha? Voc quer fazer outra escolha? Talvez voc d valor a coisas 
que voc no sabia que valorizava. Ou ser que essas escolhas so baseadas nos valores de outra pessoa? Da cultura em que voc vive? Por acaso algumas dessas escolhas 
se baseiam no medo? Observe com compaixo as escolhas que voc est fazendo e as conseqncias dessas escolhas. Preste ateno a quaisquer sentimentos que essa informao 
possa despertar e simplesmente permanea com eles, sem fazer julgamentos.
       
  

DEZ
A Cano
       
Mostre-me como voc oferece ao seu povo e ao mundo 
as histrias e as canes que voc quer que os
filhos de nossos filhos recordem,
e eu revelarei a voc como eu me empenho,
no para mudar o mundo, mas para am-lo.


       
       Escrevi a seguinte frase quando tinha quinze anos: "Quero viver a vida de modo que ela reflita o Deus que eu conheo". A maneira como vivemos nossa vida  
a histria que escolhemos contar, para que ela seja lembrada pelos filhos dos nossos filhos. Essa histria reflete o que sabemos a respeito do Bem-Amado, do Mistrio, 
daquilo que  sagrado. A forma como voc faz as coisas conta histrias de esperana ou desespero, de compaixo ou julgamento, de presena ou ausncia.
       Michael e eu estamos almoando juntos durante uma conferncia em que ambos demos uma palestra. Ele fala com uma preciso deliberada, suas palavras so cuidadosamente 
escolhidas. Claramente, ele j as pronunciou antes: "Minha perspectiva, meu trabalho, consiste em mudar o mundo". No duvido da sinceridade dele. Michael dedicou 
a vida  tarefa de produzir transformaes no nvel pessoal e planetrio por meio do trabalho com grupos espirituais, causas ambientais, grandes companhias e comunidades 
locais. Eu provavelmente concordaria com a maioria e talvez com todas as mudanas que ele deseja criar.
       Por que ento, quando ele fala com tanta veemncia a respeito de mudar o mundo, eu de repente me sinto esmagada por uma enorme tristeza? No falo nada, mas 
tenho vontade de dizer: "Eu no quero mais mudar o mundo. Eu quero apenas aprender a amar o mundo".
       O mundo vai mudar, est mudando o tempo todo e quero participar conscientemente dessa mudana. Mas eu sinto, por trs da certeza de Michael e das palavras 
que eu mesma poderia um dia ter pronunciado, uma compulso que me d a impresso de estar disfarando o terror existente em ns de que nunca possamos fazer o suficiente 
ou ser suficientes. Minha garganta se fecha com pesar e sinto uma dor no centro do peito.
       Passei longas horas pensando sobre o meu trabalho no mundo, tentando decidir o que fazer com a minha vida, para que minha contribuio possa ser a melhor 
possvel. E cada vez que procuro as Avs, as ancis que foram minhas mentoras durante tantos anos, perguntando se eu deveria ensinar, escrever, dar palestras ou 
fazer algo completamente diferente, sempre recebo a mesma resposta suave, porm inabalvel: "No faz diferena, Oriah. O que voc faz no importa. O que importa 
 como voc faz aquilo que decide fazer".
       Imagino que, se eu fosse um ser completamente iluminado, poderia no fazer absolutamente nada e ser feliz oferecendo ao mundo quem eu sou. Eu seria sempre 
bondosa e totalmente presente quer estivesse cozinhando, escrevendo, lavando o carro, dando uma palestra, lavando a roupa ou estudando. Se eu fosse um ser completamente 
iluminado, suponho que me sentiria plenamente satisfeita e de corao aberto plantando rvores, entregando cartas ou indo a reunies polticas. Eu serviria clientes 
na lanchonete da esquina com a mesma compaixo com que dirigiria um processo de autodescoberta para os participantes de um retiro. Mas eu no sou um ser completamente 
iluminado. Sou um ser humano com gostos e averses, dons, talentos e desafios que mudam com o tempo. Minhas preferncias no fazem com que escrever seja mais importante 
do que plantar rvores, entregar cartas ou freqentar reunies polticas, nem indicam que ser facilitadora de seminrios contribui mais para o mundo do que servir 
clientes na lanchonete da esquina. Se eu fosse capaz de ser mais presente e ter mais compaixo com os clientes das lanchonetes do que com os participantes dos retiros, 
minha contribuio para o mundo seria maior se eu trabalhasse como garonete do que se dirigisse outro seminrio. O importante no  o que fazemos, e sim como fazemos 
seja l o que estivermos fazendo. Quando conhecemos a ns mesmos, somos capazes de escolher aquilo que, por causa da nossa personalidade e preferncias individuais, 
torna mais fcil sermos quem somos: cheios de compaixo, inteiros e de corao aberto. O importante, ento,  escolher fazer aquilo que sabemos que amamos, onde 
poderemos nos dar da melhor maneira possvel. Isso no significa que faremos sempre o que  mais fcil. Existe uma diferena entre a felicidade  oferecer quem somos 
para o mundo e saber que  suficiente , o prazer e o bem-estar. No momento, a maneira como me sinto mais capaz de oferecer quem eu sou ao mundo  escrevendo. Mas 
existem dias em que escrever no  fcil nem agradvel, dias em que as palavras no fluem, quando eu acho que preferiria estar limpando o forno ou dando banho no 
gato. Se eu achasse que escrever era desagradvel e difcil a maior parte do tempo, eu me perguntaria se essa seria a melhor maneira de passar esta preciosa vida. 
Ainda assim, o prazer e o bem-estar vm e vo, mas sinto sistematicamente que sou capaz de ser mais inteira e ter o esprito mais aberto com relao a mim mesma 
quando estou escrevendo. Por isso, eu escrevo.
       Cada um de ns escolhe as histrias que ir tecer na cultura da nossa famlia, da nossa comunidade e do nosso mundo, pela maneira como faz as coisas. Essa 
maneira reflete a cano que ouvimos interiormente  o que acreditamos ser verdade a respeito do nosso eu essencial  e essa  a cano que ensinamos aos nossos 
filhos, independentemente do que possamos dizer a eles.
       Eu conto histrias tanto ao escrever quanto nas minhas palestras. Escolho histrias que me fazem lembrar quem realmente somos, de como nossa natureza essencial 
nos torna capazes de sentir uma grande compaixo e de sermos corajosos e sbios. De vez em quando, no entanto  eu diria que at freqentemente , uma histria me 
escolhe. s vezes  uma histria que eu descartei por consider-la banal demais ou insignificante para ser compartilhada, uma histria que eu achei que poderia ser 
tachada de superficial ou de no ser importante espiritualmente. Mas, de repente, essa 7histria que eu quero descartar simplesmente se recusa a dar espao para 
as histrias de grandes mestres e lderes. E finalmente eu me rendo  histria que quer ser contada e, ao narr-la, escuto a cano que ela canta, a dana que ela 
me ensina. Nos ensinamentos medicinais dos ancios com quem eu treinei, o amor  a energia catalisadora  a que nos transforma. Do mesmo modo,  claro, so as histrias 
de amor.
       Aos quarenta e cinco anos, eu tinha atingido um ponto na vida em que o desejo de ter um parceiro se tornara um anseio confortvel, com o qual eu podia conviver 
tranqilamente. Eu j no sabia exatamente o que estivera buscando nos relacionamentos no decorrer dos anos, mas de repente tive a certeza de que eu reconheceria 
meu parceiro se e quando o encontrasse. H cinco anos eu escolhera ficar sozinha, apesar de nem sempre isso ter me deixado satisfeita.
       Ento, certo dia, recebi uma carta. A letra no envelope parecia familiar. Dentro estava escrito o seguinte: "Eu estava no trabalho, olhando pela janela, imaginando 
como voc estaria. Digitei o seu nome e fiz a busca na Internet e encontrei este endereo. J se passaram realmente trinta anos?" No final da carta estava um nome 
no qual eu no pensava havia anos.
       Em 1970, quando eu tinha quinze anos, fui a uma excurso de canoa organizada pela igreja. Durante duas semanas, passei a maior parte do tempo remando e conversando 
sem parar com Jeff, um rapaz desajeitado de dezessete anos, que construa telescpios, compunha lindas msicas para piano e escrevia poesia. Pela primeira vez na 
vida, eu me apaixonei. Como a maioria das meninas de quinze anos, eu tinha a impresso de que estivera esperando eternamente pelo amor. Eu esperava que as coisas 
acontecessem como no cinema, ou seja, que eu fosse arrebatada para as nuvens por algum mais parecido com um deus do que qualquer garoto de dezessete anos jamais 
poderia esperar ser. Em vez disso, me vi caminhando ao lado do meu melhor amigo. De repente, era como se eu estivesse ligada a algum pelo pulmo, mal conseguindo 
respirar sem esse contato.
       A famlia de Jeff morava em Niagara Falls, seiscentos e cinqenta quilmetros ao sul da minha casa no norte de Ontrio. Depois da excurso, escrevemos dezenas 
de longas cartas um para o outro e nos vimos trs ou quatro vezes por ano nos dois anos seguintes, quando minha famlia ia para o sul visitar meus avs ou quando 
eu conseguia convencer meus pais de que participar de um retiro para jovens no sul de Ontrio, organizado pela igreja, era fundamental para meu desenvolvimento espiritual.
       No entanto, durante todo esse tempo, ele nunca me beijou. Eu sei que pode parecer ridculo dizer isso hoje, mas esse fato partiu meu corao. E na primeira 
vez que temos o corao partido, exatamente como em todas as vezes seguintes, sentimos muita dor.
       Lembro-me especialmente de uma certa noite. Eu estava participando de uma conferncia em Niagara Falls e ns dois fomos dar uma volta. A noite estava fria, 
as estrelas cintilavam no cu escuro e uma fina camada de neve cobria cada galho de rvore que brilhava com as luzes do parque. Caminhamos pela neve e, quando ele 
pegou minha mo, eu pensei: " agora. Estamos sozinhos, a noite est linda. Se ele no me beijar hoje  porque simplesmente no me acha atraente".
       Voc se lembra de quando a expectativa de um beijo fazia seu estmago dar um n e suas entranhas tremerem como se voc estivesse com hipotermia? Eu no conseguia 
parar de tremer. Eu sentia que a probabilidade de desmaiar era grande. Apenas por causa de um beijo! Eu tinha medo de que o beijo fosse acontecer e, ao mesmo tempo, 
de que ele no fosse, preocupada com a possibilidade de ter mau hlito ou ento beijar muito mal.
       Nunca me passou pela cabea que Jeff pudesse estar to nervoso quanto eu. No sei se as coisas mudaram, mas, naqueles dias, as meninas de quinze anos sabiam 
muito pouco, ou literalmente nada, a respeito do que os rapazes de dezessete anos sentiam. Eram eles que deviam estar no comando e tomar a iniciativa. Hoje, por 
conhecer uma pequena parcela da angstia e da insegurana sentida por meus filhos adolescentes, entendo melhor as coisas. Mas h trinta anos eu estava certa de que, 
se Jeff sentisse algo semelhante ao que eu sentia, se as interminveis conversas e longas cartas tivessem significado para ele uma pequena frao do que tinham significado 
para mim, ele simplesmente me beijaria.
       Assim, quando Jeff se afastou sem me tocar, eu apenas fiquei ali, no meio do parque, sentindo meu corao cair dentro do corpo e se partir como um pequeno 
ovo cru debaixo das minhas botas. Comecei a chorar e voltei sozinha para a sala da conferncia.
       Depois disso, nossas cartas foram se tornando cada vez menos freqentes. Pode parecer sem importncia: o desapontamento por no ter sido beijada, por acreditar 
que eu me enganara sobre o sentimento que havia entre ns. Todo mundo tem seu primeiro amor e sua primeira decepo. Faz parte da vida. Mas eu me pergunto se no 
descartamos com excessiva facilidade o efeito que essas antigas feridas exercem sobre o nosso corao. Com diz a escritora Anne Lamott: "S existe uma maneira de 
superar o sofrimento. E sofrendo". Mas aos quinze anos eu no tinha a menor idia de como fazer isso. Eu simplesmente queria diminuir a dor o mais rpido possvel 
e me proteger de um sofrimento igual no futuro. Desse modo, durante meses depois de eu ter me separado de Jeff naquele parque, eu passei um sermo em mim mesma todas 
as noites antes de pegar no sono, afirmando impiedosamente que eu simplesmente tinha que enfrentar os fatos: as pessoas no iam se sentir atradas por mim e ponto 
final; eu no era atraente e teria que descobrir outras maneiras de conquistar aqueles de quem eu queria me aproximar; eu teria que me esforar.
       Comearam ento os anos em que eu iria acreditar que tinha que merecer o amor, em que eu iria me proteger daquilo que me era espontaneamente oferecido. Era 
muito fcil acreditar que havia algo bsica e inerentemente errado comigo.
       Quando, trinta anos depois, eu li a inesperada carta de Jeff, nada disso me veio  cabea. Eu estava apenas encantada por ter notcias de um velho amigo, 
com vontade de ligar para ele e pr em dia a histria da nossa vida. Trocamos estatsticas vitais: ele tinha se casado e se divorciado; ele ainda tinha cabelo e 
no era mais muito magro; ele ainda compunha msicas, tirava fotografias, tocava piano, escrevia poesia e construa telescpios. Na qualidade de projetista de placas 
de circuito impresso, ele realizara um dos sonhos da sua adolescncia: projetar alguma coisa que fosse para o espao. Prometi enviar a ele um exemplar do livro que 
eu tinha escrito e combinamos marcar um jantar para breve.
       No dia seguinte, enviei uma cpia do livro para Jeff pelo servio de entrega rpida e fiquei esperando. Algum tempo antes, um ex-namorado insatisfeito me 
enviara uma carta, depois de ler O Convite, menosprezando o meu trabalho com visvel despeito, referindo-se ao livro de uma forma jocosamente depreciativa.
       Um dia depois, recebi um e-mail de Jeff. Ele tinha lido o livro de uma tacada e escreveu o seguinte:
       "Abri o livro, li a dedicatria e meus olhos ficaram embaciados. Tinham se passado quase trinta anos e eu estava diante da mesma caligrafia, do mesmo tom 
de voz e dos mesmos pensamentos claros que fizeram meu corao flutuar mesmo antes de saber o que fazer com tudo o que eu sentia... Apesar da longa estrada que voc 
teve que percorrer para chegar  sua atual capacidade de desnudar sua alma... a paixo com que voc compartilha seus sentimentos e procura descobrir a essncia das 
outras pessoas  virtualmente a mesma que voc possua quando estivemos juntos nas margens do Opeongo... SlNTO TANTO ORGULHO DE VOC... e embora eu muitas vezes 
tenha achado, no correr dos anos que, de alguma maneira, eu tinha falhado comigo mesmo por ter deixado o amor da minha vida escapar das minhas mos, a leitura do 
livro confirmou meu sentimento por voc e meu amor por mim mesmo. Eu no estava errado a respeito de voc ou de mim, e no tinha nada a ser agarrado, apenas algo 
a ser guardado como um tesouro bem no fundo da alma."
       Fiquei perplexa. Continuei a ler a frase SlNTO TANTO ORGULHO DE VOC. Ele era a nica pessoa que realmente poderia saber que a mulher que escrevera O Convite 
era a mesma menina apaixonada e franca que rira, remara e falara sem parar no Parque Algonquin, trinta anos antes. Ele me vira, e o fato de ele ter me visto, me 
amado, lhe deu o direito de sentir orgulho, de ficar satisfeito com o meu sucesso e feliz por eu ter permanecido, de uma maneira essencial, fiel a quem eu era. Ser 
vista desse modo abriu meu corao para mim mesma e para a possibilidade de amar uma vez mais.
       Combinamos um jantar na minha casa para duas semanas depois e continuamos a trocar e-mails, s vezes vrias vezes por dia. Anos antes, nosso relacionamento 
tinha se desenvolvido por meio de cartas, de maneira que parecia natural restabelecer nossa comunicao atravs da palavra escrita. Conversamos sobre tudo: nossas 
histrias sexuais e emocionais, a forma como encarvamos o dinheiro, o casamento, a espiritualidade, o trabalho e os filhos; nossas lembranas do que tinha e do 
que no tinha acontecido entre ns trinta anos antes e por qu. Ele achava que tinha estragado tudo. Loucamente apaixonado, incapaz de acreditar que eu poderia retribuir 
seu afeto, e acreditando, como a maioria dos rapazes daquela poca, que as meninas "direitas" no estavam interessadas em carcias (que dir em sexo!), ele ficara 
paralisado, incapaz de correr o risco de me ofender ou me perder, caso tomasse uma iniciativa.
       Ao sentir meu corao bater mais forte do que minha cabea considerava sensato, escrevi nos e-mails todos os tipos de avisos: eu no pretendia ter mais filhos; 
eu no tinha certeza de que poderia voltar a viver com algum; freqentemente minha sade no era boa e eu tinha que regular meu ritmo de atividade; eu no queria 
ser o ponto central ou nico na vida de um homem, nem minha vida iria girar em torno da de ningum.
        de causar espanto que esse homem tenha aparecido para jantar no dia combinado. Mas apareceu. E no foi sem tempo. Eu estivera uma pilha de nervos a semana 
inteira. Tudo que eu escrevia era incoerente, de modo que acabei desistindo de escrever qualquer frase satisfatria nas pginas que tinha diante de mim. Praticamente 
no comi nada durante vrios dias. E se a conexo criada atravs dos e-mails simplesmente se evaporasse quando nos vssemos diante um do outro? Pior, e se evaporasse 
para um e no para o outro? E, ao contrrio, se no se evaporasse mas ficasse ainda mais forte?
       Quando o dia do jantar finalmente chegou, eu no estava menos nervosa do que ficara trinta anos antes, enquanto esperava que ele me beijasse no parque. Tentei 
me acalmar, lembrando a mim mesma que eu tinha quarenta e cinco anos e no quinze, e que, se eu no parasse de me angustiar, ia passar mal. No adiantou. Quando 
ouvi a campainha tocar, sinceramente achei que ia desmaiar por falta de oxignio. Meu corpo parecia incapaz de entender o comando do meu crebro para que eu respirasse.
       E ali estava ele na porta, sorrindo. Todo meu nervosismo desapareceu. Ele entrou, ps as flores que trouxera em cima de um mvel, me abraou e me beijou. 
A ele se afastou, olhou para mim e disse rindo: "Nossa. Este foi provavelmente o beijo mais importante de toda a minha vida, e eu levei trinta anos para torn-lo 
realidade!".
       Naquela primeira noite em que Jeff veio jantar, ele no estava com medo. Ele me disse: "Sempre foi voc, Oriah. Se um gnio tivesse sado de uma garrafa e 
dito 'Voc pode escolher qualquer mulher do planeta para passar junto o resto da sua vida', eu sempre teria escolhido voc".
       E claro que essa declarao me deixou apavorada. Nos meses seguintes, passamos juntos momentos maravilhosos, entremeados do meu pnico, do medo de que, depois 
de tudo que eu tinha dito que queria, eu no fosse capaz de faz-lo: ter um relacionamento ntimo e me dedicar ao meu trabalho, cuidar da minha sade e dos meus 
filhos, e ainda achar tempo para mim mesma. Apesar dos excelentes momentos que passamos juntos, eu conseguia ficar extremamente agitada no intervalo dos encontros, 
pensando em como nossas vidas eram diferentes, em como tnhamos pouco em comum. Reagi inicialmente  idia de ir conhecer a famlia dele, mas, quando finalmente 
concordei, nos divertimos muito. Planejamos alugar um chal durante trs semanas no vero, e depois eu disse a ele que, se o nosso relacionamento no durasse at 
l, eu poderia comprar a parte dele ou poderamos repartir o tempo da nossa permanncia. Eu dizia que o amava, mas, por via das dvidas, mantinha uma das mos na 
maaneta da porta.
       E no decorrer de todo esse tempo ele simplesmente se recusou a parar de me amar. Certa vez, durante uma das minhas crises de pnico do tipo "onde eu estava 
com a cabea, no posso fazer isso", ele me disse: "Oriah, se voc um dia realmente sentir que no  bom para voc estar comigo, eu irei embora. Eu acho que o fato 
de estarmos juntos pode tornar sua vida e seu trabalho mais fceis, mas talvez eu esteja errado. De uma coisa eu tenho certeza: voc nunca ir encontrar um homem 
que a ame mais do que eu".
       E eu acredito nele. Mas estive sozinha durante muito tempo. Um dos paradoxos da meia-idade  que a experincia que acumulamos faz o risco emocional ser ao 
mesmo tempo mais fcil e mais difcil. Mais fcil, porque j sabemos que conseguiremos sobreviver s decepes; mais difcil pelo mesmo motivo. Sabemos que sobreviveremos, 
mesmo que a dor seja tanta, que nos d a impresso de que vamos morrer. Sobreviveremos com mais uma cicatriz, mais uma mancha escura de mgoa no corao, e no temos 
certeza se queremos nos arriscar a viver tendo mais um lugar no corpo e na alma que vai doer quando chover, fazendo-nos lembrar do que uma vez esperamos ou nos foi 
prometido.
       Existem momentos em que eu olho para Jeff e penso na nossa histria  a profunda ligao na adolescncia, os trinta anos de separao, a reunio inesperada. 
Ponho as mos para os cus e me pergunto por que passo um minuto planejando, preocupando-me e tentando me proteger dos riscos envolvidos em amar e ser amada. Sem 
dvida algo maior do que eu est em ao. E eu sei que isso no significa, nem por um minuto, que eu no seja responsvel pelas escolhas que fao.
       Desde a noite daquele primeiro jantar, temos passado juntos todos os fins de semana livres. Jeff mora numa pequena cidade, a uma hora e meia da minha casa. 
Revivemos o passado e continuamos ainda aprendendo quem  o outro  e sempre foi. Ele me conta a histria de como, aos dezoito anos, determinado a me reconquistar, 
ele construiu um espectrmetro de massa, um aparelho que separa os tomos pesados dos tomos leves.
       Olho para ele, desconcertada: "Voc construiu um espectrmetro de massa para me reconquistar?" "Bem... constru", admite ele, parecendo mais um rapaz de dezessete 
anos do que um homem de quarenta e sete. "Achei que se conquistasse o prmio da feira de cincias e minha fotografia sasse no jornal voc ficaria impressionada 
e acharia que valia a pena esperar por mim". Fico estupefata. "Voc ia conseguir reconquistar a moa construindo um espectrmetro de massa?" Rindo, passo os braos 
em volta do pescoo dele. "Esta  a coisa mais doce e mais idiota que j ouvi em a toda minha vida". Ns dois estamos rindo. "Flores no teriam sido uma maneira 
mais fcil de conseguir o que voc queria? No fiquei surpresa por voc ter conquistado o prmio. Eu j sabia que voc era inteligente, seu bobo! Eu s queria que 
voc me beijasse!".
       E foi o que ele fez.
       No sei o que vai acontecer conosco. Tenho que permanecer no presente. Mas descobri que estou comeando a confiar cada dia um pouco mais nesse amor que nos 
reuniu. J no entro em pnico quando sinto que no estamos em sintonia  quando estou meditando e escrevendo num silencioso retiro budista e ele est no bar assistindo 
ao campeonato de hquei e bebendo cerveja com os amigos. Eu espero at que o fluxo natural das coisas nos aproxime novamente, ou tomo a iniciativa e o toco com a 
verdade do que eu estiver sentindo. Esta  a coisa mais importante que estou aprendendo  que a maneira mais rpida de restabelecer uma ligao com algum  dizendo 
a verdade, por mais estranha, por mais terrvel que ela seja. Quando digo a Jeff que estou com medo, ele fica solidrio com este sentimento e o medo diminui. Depois, 
juntos, tentamos descobrir o que cada um precisa e o que necessitamos em conjunto, e ento percebo que consigo escrever ou sou capaz de dizer que preciso ficar sozinha 
na sexta-feira  noite sem ter medo de que ele v embora ou insista em se aproximar mais do que eu posso suportar no momento.
       Certa vez, depois de falar mais uma vez sobre as minhas reservas e minhas grandes esperanas e sonhos num relacionamento, eu disse, como se estivesse confiando 
um segredo muito bem guardado: "Voc sabe, existem mulheres mais fceis de amar, mulheres que no so to empreendedoras, mulheres que no esto sempre tentando 
fazer tudo da maneira perfeita, tentando ser conscientes..." Ele apenas riu e disse: "Ora, Oriah, eu sei disso! Voc deve se lembrar que eu conheci sua me e sua 
av. Voc vem de uma longa linhagem de mulheres que no so 'fceis'. Eu no quero o que  mais fcil. Eu quero voc".
       Pensei por trs segundos em ficar ofendida em nome das mulheres da minha famlia, mas  difcil exibir qualquer tipo de indignao diante da verdade quando 
ela  apresentada com tanto amor. Alm disso,  um alvio saber que nos conhecem to bem, estar com algum que sabe que o azul-acinzentado dos meus olhos  o mesmo 
azul-acinzentado dos olhos da minha me e da me da minha me  reflete no apenas uma linhagem de mentes inteligentes e sofrimentos amenizados, mas tambm a frieza 
de uma vontade inexorvel.
       Naquele primeiro jantar do nosso reencontro, Jeff me trouxe as sessenta cartas que eu tinha escrito para ele tantos anos antes. Ele me disse: "Eu quero ficar 
com essas cartas, mas achei que talvez voc quisesse dar uma olhada nelas, para ver que o que eu disse  verdade, que tudo que voc est escrevendo agora j existia 
h trinta anos".
       E  a pura verdade. Em cada pgina do papel rosa-claro, que ainda guardava um leve resqucio do perfume de uma garota, li minhas constantes perguntas a respeito 
de Deus, da vida e de quem eu sou. Li a respeito do meu profundo desejo de produzir uma transformao no mundo e das minhas preocupaes em fazer o suficiente, ser 
o suficiente. Tudo isso est misturado nas cartas com relatos sobre o tempo e o coral da igreja, com queixas sobre meus pais e conselhos para que Jeff no desistisse 
das aulas de piano.
       As cartas fizeram com que eu me perguntasse se realmente mudamos um dia. E penso de novo nas palavras da Av no sonho e compreendo que a tarefa no  mudar, 
 simplesmente nos tornarmos totalmente quem somos. As cartas que escrevi aos quinze anos refletem quem eu sou e sempre fui, mas a menina que as escreveu ainda era 
uma incgnita para ela mesma. A alegria da alma repousa no nosso desabrochar, em nos tornarmos familiares ao nosso eu e em sermos capazes de viver a partir de uma 
ligao cada vez mais profunda com quem realmente somos. Embora esta seja uma tarefa que temos que realizar sozinhos, no h nenhuma dvida de que o fato de uma 
pessoa nos ver, conhecer e amar nos oferece a luz calorosa do estmulo que faz com que nosso corao se torne mais suave para ns mesmos quando ficamos desanimados 
por causa das nossas fraquezas humanas.
       Certa vez, pouco depois de reatarmos nosso relacionamento, Jeff me disse o seguinte: "Estive com mulheres que me deixavam contente, mas elas nunca me fizeram 
sonhar. Voc me faz sonhar".
       Sonhar  criar a histria de como vivemos nossa vida, e essas so as histrias que os filhos dos nossos filhos iro lembrar. Quando escrevo, sou o mais sincera 
e franca possvel, porque desejo oferecer histrias de estar inteira em tudo o que vivo. Recito poemas quando escrevo, porque quero oferecer beleza, e o poder da 
arte nos faz lembrar quem e o que somos. Conto histrias pessoais porque desejo criar em conjunto com as pessoas uma histria de intimidade, e cultivar nossa capacidade 
de sentir compaixo ao lidar com nossas fraquezas humanas. Conto histrias de amor porque desejo aprender a amar da melhor maneira possvel.
       
MEDITAO SOBRE AS HISTRIAS QUE A NOSSA VIDA CONTA
       
       s vezes concentro minha meditao em perguntas que me ajudam a ver as escolhas que estou fazendo e os sonhos do meu corao. Voc pode ter vontade de escrever 
depois de cada uma das perguntas sugeridas aqui ou pode preferir repetir vrias vezes cada pergunta, observando o que aparece.
       Sente-se numa posio confortvel. Se tiver a inteno de escrever, certifique-se de que tem papel e lpis  mo. Feche os olhos e respire profundamente trs 
vezes, inspirando pelo nariz e soltando o ar pela boca. Deixe os ombros carem ao expirar e faa com que seu peso desa para a base do seu corpo, sentindo que a 
superfcie debaixo de voc e a terra mais abaixo esto sustentando voc. Concentre-se na respirao, seguindo o ar que entra e sai, observando o subir e o descer 
do seu corpo, respirando normalmente. Se surgirem pensamentos, tome conhecimento deles, deixe que saiam facilmente quando voc expirar o ar, como nuvens que passam 
pelo azul do cu, e volte a concentrar-se na respirao. Durante alguns minutos, acompanhe apenas o ar que entra e sai do seu corpo.
       Permanea agora nesse estado tranqilo e relaxado e deixe que as perguntas venham: "E se realmente o que voc faz no for importante? E se tudo que realmente 
tem importncia  a maneira como voc faz seja l o que for? O que voc faria? De que modo voc o faria?" Permanea com essas perguntas e acompanhe a respirao. 
Fique com os pensamentos ou sentimentos que possam surgir. Talvez voc queira anotar alguns deles ou pode ser que prefira simplesmente permanecer com eles quando 
chegarem, concentrando-se repetidamente na respirao e fazendo as perguntas.
       Concentre-se mais uma vez na respirao. Deixe que todos os pensamentos partam junto com o ar que voc expira e preste ateno apenas no subir e descer do 
seu corpo. Permanea alguns momentos com a respirao. Depois, deixe que surja a pergunta: "O que eu faria se no fosse to arriscado?" Uma vez mais, talvez voc 
queira anotar as respostas, ou talvez prefira apenas permanecer com os pensamentos e sentimentos que surgem enquanto voc repete a pergunta.
       Quando sentir que terminou, volte a se concentrar na respirao, levando a ateno para a inspirao e a expirao, deixando todos os pensamentos irem embora. 
Concentre-se durante alguns momentos na respirao. Leve o ar para os lugares do seu corpo onde possa haver estresse ou tenso e deixe que se dissolvam com o ar 
que voc expira. A seguir, medite sobre as seguintes perguntas: "Como voc faz amor com o mundo? Se a maneira como voc se trata, como trata daqueles que ama e conhece, 
e com os estranhos conta uma histria, que tipo de histria sua vida est contando ao mundo?
       Deixe vir o que vier. Seja qual for a resposta  pensamentos, sentimentos, mais perguntas , permanea com ela. Respire com ela e repita as perguntas para 
si: "Como voc faz amor com o mundo? Qual  a histria que sua vida est contando?".
       
   
       
ONZE
A dana da Solido Compartilhada
       
       
Sente-se do meu lado e compartilhe comigo
longos momentos de solido, 
conhecendo tanto a nossa absoluta solitude
quanto o nosso inegvel pertencer. 
Dance comigo no silncio e no som das pequenas
palavras cotidianas,
sem que eu me responsabilize no fim do dia 
por nenhum de ns dois.


       
       Anseio pelo silncio compartilhado  no pelos intervalos desconfortveis nas conversas, quando procuramos alguma coisa, qualquer coisa que possa aliviar 
a tenso de um silncio vazio, e sim pelos momentos de plenitude que permitem que cada um de ns desabroche e saiba quem realmente . Anseio por momentos de silncio 
com outra pessoa, em que no h nada a perdoar, explicar ou justificar, quando concordamos em abandonar durante algum tempo as palavras faladas para no abandonarmos 
a ns mesmos ou um ao outro, os momentos de silncio em que ningum me pede que escolha entre pertencer a mim mesma e estar com o mundo. E quando esses silncios 
chegam, sinto que estou abrindo caminho em direo  minha casa atravs do que eles encerram  terror ou ternura, dor ou celebrao , aproximando-me cada vez mais 
de uma doura pela qual ansiei a vida inteira.
       Natalie, a bela filha de nove anos da minha amiga Valerie, est morta. Cncer. Trezentas pessoas acham-se sentadas na igreja e, da sua fotografia, Natalie 
nos contempla, confiante. Todos vestem ternos escuros ou vestidos sbrios e olham rigidamente para a frente, enquanto o ministro fala a respeito da continuao da 
vida. Adoro palavras, mas no as quero agora. Desejo o silncio, a lamentao e o som dos lenos encharcados. Rezo para que as palavras estejam oferecendo algum 
consolo para a dor incompreensvel presente no corao da me, do pai e das irms de Natalie, mas anseio para que fiquemos juntos em silncio. Olho para minhas mos 
entrelaadas no colo e me esforo para encontrar uma maneira de respirar e estar com essas pessoas  que so meu povo. No estamos suficientemente sozinhos com a 
dor que nos dilacera  a dor que sentimos por todas as crianas e pela inocncia que perdemos  nem uns com os outros nessa dor para correr o risco de um silncio 
compartilhado. Se fssemos capazes de nos aventurar nessa intimidade, o lamento coletivo que nos conduziria ao outro lado dessa dor certamente nos encontraria e 
nos preencheria.
       Mas no sabemos como fazer isso.
       Penso nos meus filhos quando pequenos: carregando Brendan no quadril, deixando uma das mos livres para apanhar roupas e brinquedos enquanto andava pela casa 
conversando com ele, e, de repente, ao me afastar da janela, ter visto a nossa sombra desenhada na parede do quarto  me e filho como um todo. Penso em Nathan engatinhando 
para o meu colo sempre que eu me sentava, aconchegando-se e reivindicando minha ateno e meu corao com seu pequeno corpo, por mais cansada ou distrada que eu 
estivesse. Lembro como, quando eles eram pequenos, tive medo de esquecer quem eu era e me voltei por um momento para falar com o mundo, para poder ouvir o som da 
minha voz e ter certeza de que eu no tinha desaparecido, e quando me voltei de novo para meus bebs, eles j eram rapazes que saam pela porta de casa e entravam 
no mundo, como todos os rapazes devem fazer.
       Essa reunio e separao  que nos torna conscientes de que todos ns, cada um de ns, estamos sozinhos. E de que, quando estou completamente comigo mesma, 
 quase suficiente. Quase. Mas quando voc segura minha solido e eu seguro a sua, quando eu sei que no vamos culpar um ao outro, uma  outra, pelos necessrios 
momentos de silncio, sinto-me invadida por uma maior intimidade, uma intimidade com o outro, o Mistrio que tudo permeia, que penetra e vibra na minha pele, no 
seu sangue, nos meus ossos.  isso que torna idntica a nossa respirao e nos impele em direo ao momento seguinte. E aqui, onde minha solido e a sua se sentam 
lado a lado, que eu fico sabendo que esse outro nunca  completamente outro, que o eu no sou simplesmente eu mesma e que estou verdadeiramente com o mundo.
       E assim que eu desejo que dancemos juntos vrias vezes, para que, mesmo separados, voc esteja ao mesmo tempo comigo e sem mim, como estvamos quando nos 
sentamos ao lado um do outro. Essa solido e essa fuso com o outro, que nos faz lembrar o Grande Silncio que nos sustenta,  o lar que minha alma procura.
       Preciso ir para l sozinha.
       No posso ir para l sem voc.
       Esta  a experincia da profunda contemplao. Mesmo quando  realizada no isolamento fsico  num monastrio ou na busca de vises nas regies agrestes , 
ela no nos afasta dos outros, mas nos abre a uma intimidade mais profunda com ns mesmos e com o mundo. Quando estamos profundamente com ns mesmos, ns nos encontramos 
com o mundo.
       Mas no vivemos numa cultura que ensina ou valoriza os aspectos contemplativos. Os acadmicos examinam o indivduo e o mundo com uma racionalidade supostamente 
imparcial, desqualificando as histrias do corao. Por sua vez, os terapeutas e os que se dedicam ao desenvolvimento pessoal se concentram em histrias individuais, 
evitando freqentemente analis-las no contexto mais amplo da histria da cultura, do planeta ou do cosmo. Os voltados para a espiritualidade, muitas vezes se concentram 
exclusivamente nos aspectos intuitivos e experimentais, recusando-se a usar o pensamento racional para examinar as explicaes msticas oferecidas para as experincias 
que parecem desafiar a justificativa cientfica.
       Para danar, para sermos completamente quem somos e o que somos, no podemos deixar nenhuma parte do eu para trs. No basta termos uma experincia da unidade 
ou da solido.  preciso tambm usarmos o nosso pensamento  intuitivo, criativo e racional  para explorar possveis explicaes para essas experincias. No basta 
analisar e fazer uma anlise minuciosa com a mente racional, deixando para trs o que o corao sabe. No basta considerar infalveis os impulsos do corpo ou das 
emoes, insistindo que algo  bom e verdadeiro "porque  assim que eu sinto".
       Para danar, para levar a vida cotidiana nos mantendo fiis  inteno da nossa alma de viver quem realmente somos, temos que estar dispostos a viver tanto 
a realidade da nossa individualidade separada quanto a realidade da nossa unidade em algo maior.
       Todos os dias, s sete da manh, os dezessete homens e mulheres que esto participando do retiro se renem numa sala cuja janela d para o rio. Recito poesias, 
digo uma prece e fao com eles uma meditao dirigida. Eles meditam sentados em pares, de frente um para o outro. Cada membro do par, alternadamente, usa a imaginao 
para visualizar para o outro uma bno que vem da terra e corre para suas mos. Lentamente, ele estende a mo e toca a cabea do homem ou da mulher que tem diante 
de si, imaginando que essa bno est fluindo para a pessoa. Ele ou ela toca com os dedos a forma e a suavidade do rosto que tem diante de si, enxergando a incrvel 
beleza do outro. Cada pessoa, ao receber o que lhe foi oferecido, se abre para comear o dia abenoada. Aps a meditao, caminhamos a esmo pelo terreno em volta. 
Observamos a grande gara branca voar sobre o rio, vislumbramos a cabea da lontra deslizando pela gua, sentimos o vento em nosso rosto e ouvimos o barulho do rio 
correndo at que o sino da sala de refeies nos chama para o caf da manh.
       Nosso acordo envolve ficarmos em silncio desde a hora em que acordamos at nossa primeira sesso s dez da manh. Cada pessoa pega um prato, se serve e se 
dirige s mesas da sala de refeies da cabana de madeira ou vai para a varanda. No primeiro dia  possvel sentir a tenso naqueles que no esto acostumados a 
esse procedimento, que se sentem inseguros sem saber o que ser esperado deles se no estiverem falando ou ouvindo outras pessoas. Mas no segundo dia essa ansiedade 
desaparece. Nada  esperado. S se pede que cada pessoa fique em silncio. O ritmo, no apenas da refeio como da prpria manh, se torna mais lento. No silncio 
 mais fcil permanecer consciente de cada bocado, de cada sabor, do movimento da mo em direo  boca, do som do talher de metal num prato de loua.
       Na quarta manh j existe um ritmo nas horas de silncio que passamos juntos, uma dana descontrada de pessoas se movendo pela sala, trocando cadeiras de 
lugar, no evitando mais se sentar perto ou longe demais, deixando que o impulso as leve para um lugar pelo qual se sentem atradas.
       Na ltima manh do retiro, estou sentada na varanda que d para a propriedade, comendo devagar minhas panquecas de gengibre, cercada por cinco mulheres em 
diferentes mesas: Vivian, vestindo seu pijama de flanela, afaga nas mos uma caneca de ch; Susy mastiga lentamente frutas e biscoito, olhando para longe como uma 
mulher que tenta vislumbrar o marido voltando do mar; Ellen, quieta com seus pensamentos, est voltada para dentro de si e respira, apenas respira; Myrna, a mais 
velha do grupo, agora com quase sessenta anos, estende graciosamente as longas pernas, deixando visveis as unhas pintadas que cintilam nos ps que relaxam em delicadas 
sandlias pretas; Cat, a mais jovem, est sentada atrs de Myrna, enroscada numa cadeira, escrevendo num dirio e chorando em silncio. De repente, ela deixa escapar 
um grande soluo que faz tremer seu corpo  e todas ns  por um instante. Ningum se mexe. Ningum fala.
       Estamos com ela como estamos umas com as outras, e, no entanto, cada uma de ns est ao mesmo tempo completamente sozinha com todos os prprios soluos no 
extravasados.
       O soluo de Cat, a suavidade da bno matutina e o silncio que sustentamos juntas me partem ao meio. Um fio de medo ondula atravs de mim como um pequeno 
choque eltrico, mas desaparece quase to rpido quanto surge. No h dor, apenas uma sensao quase insuportvel e requintada de estar plenamente viva. Por um momento 
estou suficientemente sozinha  sem ningum para tomar conta e ningum para quem eu tenha que dar explicaes sobre o meu tempo e os meus atos  e ao mesmo tempo 
suficientemente com o mundo, com essas cinco mulheres, este lugar e este momento. O vento agita as folhas do salgueiro  minha frente e eu as sinto vibrar no meu 
peito. Ouo  distncia, como se pela primeira vez, o lamento dos caminhes na estrada levando vidas para longe de mim, e sei que estou to conectada queles cujo 
nome nunca saberei quanto aos que se encontram comigo nesta varanda. O crescente calor da manh faz as cigarras cantarem e aquece o grande pinheiro no jardim, trazendo 
para mim seu doce aroma. E sinto que o calor do sol e o calor do meu corpo so o mesmo calor, mas tambm separados e distintos.
       O telogo alemo Meister Eckhart escreveu o seguinte: "Nada no universo  mais parecido com Deus do que o silncio". Recordando aquela manh no retiro, sorrio 
e penso: "Voc chegou perto. Mas eu diria mais. Eu diria que 'Nada no universo  mais parecido com Deus do que o silncio 'compartilhado'."
       E no momento em que me conscientizo tanto da minha solido quanto da minha profunda ligao com os outros que tem lugar a experincia do sagrado. O silncio 
me convida para a minha solido, me torna consciente da minha existncia distinta e separada. Para que eu possa estar consciente de quem e do que eu sou,  preciso 
que haja um eu que  ao mesmo tempo sujeito e objeto. Eu preciso estar consciente de que existe um lugar onde eu termino, na superfcie da minha pele, no alto da 
minha cabea, na ponta dos dedos dos meus ps e das minhas mos, e um eu onde o outro  o ar ao meu redor, a cadeira que me sustenta, a mo que toca a minha  comea. 
E essa conscincia da separao que me confere a ddiva da auto-reflexo. Eu no sou apenas o eu que percebe e experimenta sua prpria existncia separada. Eu sou 
o eu que est consciente do eu que percebe e experimenta essa separao do outro. Esta percepo me confere a ddiva de explorar e conhecer minha natureza essencial.
       Quando o silncio  sustentado e compartilhado com os outros, saboreio essa natureza essencial, minha capacidade inata de estar plenamente com a outra pessoa 
 a compaixo.  a nossa natureza capaz de compaixo que torna poroso o limite entre onde eu termino e o outro comea, que me confere a capacidade de experimentar 
o outro como outro eu, apesar de sermos indivduos separados e distintos. No silncio compartilhado, onde estou simultaneamente consciente tanto da minha solido 
quanto da minha profunda conexo com os outros, minha conscincia se abre tanto para minha natureza essencial quanto para o conhecimento de que essa natureza  a 
mesma presente em tudo o mais  aquela que  maior do que a soma das partes, o Mistrio. E eu me torno consciente da minha participao nessa totalidade.
       Ao experimentar ao mesmo tempo minha solido e minha unio com o todo, tomo conscincia de duas coisas que sempre foram verdadeiras: perteno de uma forma 
profunda e irrevogvel queles que me cercam, ao mundo e quilo que  maior do que eu. Mereo pertencer dessa maneira porque sou uma personificao da presena sagrada 
que cria tudo que existe. E esse conhecimento do meu inerente pertencer me oferece a nica liberdade que existe: ele me liberta do medo.
       H alguns anos, ao participar de uma reunio num pequeno chal irlands, ouvi uma palestra do talentoso filsofo e escritor John O'Donohue. De p, diante 
da lareira onde queimava um pequeno fogo de turfa, John contemplava a charneca encharcada pela neblina. A seguir, suavemente, a voz repleta da cadncia irlandesa 
que faz todas as palavras cantarem com sua poesia intrnseca, ele disse: "Esta  a verdade". Meu corao comeou a bater mais depressa, da maneira como bate quando 
sabemos que estamos prestes a ouvir uma coisa da qual depende nossa vida. John deu um leve sorriso e prosseguiu com uma convico que me fez ter certeza de que ele 
estava dizendo algo que eu sempre soubera: "A verdade  que voc pertence a este lugar e, verdadeiramente, nem um fio do seu cabelo pode ser atingido".
       As palavras dele expressaram o conhecimento que experimentei na profunda contemplao do silncio compartilhado: a certeza de que, embora meu corao possa 
padecer, meu corpo possa estar ferido e minha mente angustiada, nenhum mal pode realmente acontecer  minha natureza essencial, porque ela  feita da mesma substncia 
que compe todas as outras coisas. Assim, no existe nada a temer. E nos momentos em que nos lembramos do que somos e, portanto, no sentimos medo, somos capazes 
de fazer, sem esforo, as escolhas compatveis com o mais profundo anseio da nossa alma.
       Pode ser difcil compartilhar momentos de silncio e encontrar a meditao profunda no meio da nossa vida atarefada, catica e s vezes barulhenta. Com freqncia 
dou-me conta envolvida em pensamentos ou aes que esto longe da solidariedade e da compaixo. s vezes a separao entre mim e os outros  particularmente aqueles 
que eu amo  parece ser uma barreira impenetrvel. E em nenhum lugar isso  mais verdadeiro do que nos relacionamentos ntimos, nos quais a estonteante plenitude 
da paixo parece apenas realar as maneiras pelas quais somos separados e incompreensveis um para o outro.
       Jeff est sentado na outra extremidade da mesa da sala de jantar. Voltamos do cinema para jantar na minha casa com meus filhos e dois amigos. Jeff se trocou 
e vestiu roupas mais confortveis: cala jeans e camiseta debaixo de uma camisa de algodo de manga comprida. A camisa est aberta porque trs botes esto faltando. 
Uma mancha de caf de dois dias atrs escorre por um dos lados da camisa, ao lado de fiapos de linha pendurados no lugar onde antes estavam pregados os botes. E 
agora, enquanto olho para ele do outro lado da mesa, noto outra mancha de comida, maior e menos identificvel, perto da parte baixa da camiseta. E uma camiseta da 
faculdade. Ele terminou a faculdade h vinte e cinco anos. E h um rasgo do tamanho de um punho logo acima dessa mancha, deixando exposta a pele rosada da sua vasta 
barriga. Ele percebe que o estou analisando e me lana um olhar inquisitivo. Ele no se barbeou hoje e j devia ter cortado o cabelo um ms atrs.
       E eu no penso: "Aqui est o homem que eu amo, algum que , em sua natureza essencial, igual a mim, uma pessoa suave e bondosa, capaz de estar totalmente 
presente consigo mesmo e com o mundo", mesmo sabendo que isso  verdade. No. Eu penso: "Oriah, voc no pode terminar um relacionamento com uma pessoa por causa 
da maneira como ela se veste". E no tenho tanta certeza de que isso seja verdade.
       Falamos mais tarde sobre o assunto, no intervalo de palavras mordazes a respeito das vasilhas e panelas sujas, do comentrio sarcstico que fiz domingo passado, 
e de saber se a nossa aparncia fsica afeta, ou deveria afetar, o que sentimos um pelo outro. A maioria das nossas palavras triviais do dia-a-dia so mais neutras: 
"Eu posso ir buscar a roupa na lavanderia se voc comear a preparar o jantar. Voc viu os meus culos? A que horas  a reunio de pais e professores?" Esta  a 
natureza da vida cotidiana. Mas quer as palavras e os sentimentos que passam entre ns sejam doces ou acusadores, quer os momentos de silncio sejam uma distncia 
forada ou uma mera preocupao atarefada, a verdadeira intimidade depende da nossa capacidade de experimentar regularmente nossa natureza essencial  a natureza 
que nos permite vivenciar nossa ligao com o outro. A verdadeira intimidade depende da nossa capacidade de encontrar momentos de silncio que so uma abertura compartilhada.
       O estranho  que s vezes  mais fcil compartilhar esses momentos de silncio com colegas de retiro que mal conhecemos, com desconhecidos no nibus ou num 
cinema, do que com as pessoas que conhecemos bem. Mas mesmo assim, no  fcil. Falando a respeito do prazer dessas manhs de silncio compartilhado no retiro, uma 
das participantes, Christina, fez o seguinte comentrio no final da semana: "As pessoas no fazem o que estamos fazendo porque no querem entrar em contato umas 
com as outras atravs do silncio. Ficar juntos em silncio estabelece uma ligao muito mais forte entre ns do que o bate-papo de todas as manhs. As pessoas no 
fazem isso porque o processo  ntimo demais, e por isso fica muito assustador".
       Eu sei que ela est certa e me pergunto por qu. Por que receamos e evitamos aquilo que desejamos tanto? Temos medo de que o outro ou ns mesmos no estejamos 
 altura das expectativas? Acho que a principal razo  essa. J vi repetidamente nos olhos daqueles que esto prestes a ir para uma regio agreste para rezar e 
jejuar sozinhos pela primeira vez o medo de 8que, mesmo sem outra pessoa por perto, essa ntima solido far com que eles se revelem mais superficiais ou mal-humorados, 
menos srios, sinceros ou capazes  de uma forma essencial, menos dignos. Temos medo de que aquilo que trazemos para a verdadeira intimidade  ns mesmos  no seja 
suficiente.
       Ironicamente, com medo de que a intimidade profunda com ns mesmos ou com os outros revele uma falha no nosso carter fundamental, evitamos exatamente as 
prticas que nos possibilitariam vivenciar nosso ser essencialmente sagrado e capaz de compaixo. Temendo essa intimidade, nos agarramos s coisas que criam a distncia 
e nos impedem de estar juntos. Culpamos a ns mesmos e os outros pelos momentos constrangidos de silncio, pelo carter implacvel das pequenas palavras do dia-a-dia 
que lidam com as camisetas rasgadas e a loua suja, as palavras duras e os banheiros desarrumados. E o hiato entre quem ns somos e quem achamos que somos se alarga, 
o abismo entre ns e o homem ou a mulher sem cuja presena pensamos um dia no poder viver se aprofunda. E achamos que o problema somos ns, mas esperamos que seja 
a outra pessoa.
       Vou contar para vocs minha fantasia ntima favorita.  ficar deitada na cama do lado do homem que eu amo, cada um lendo um livro.  isso mesmo. E verdade 
que nossas pernas  a que est perto do outro  podem estar se tocando ou at entrelaadas, e podemos fazer uma pausa de vez em quando para ler para o outro uma 
passagem particularmente interessante, mas cada um est absorvido na leitura de um livro diferente. Voc poderia dizer que essa fantasia mostra apenas que estou 
ficando mais velha, e talvez voc tenha razo. Sei que estou envelhecendo porque, ultimamente, os detalhes dessa fantasia, que sempre incluam uma linda cama com 
um edredom bem acolchoado diante da lareira, hoje contm um par de luminrias de leitura bem eficientes e dois culos. Mas a essncia dessa imagem  estar com o 
outro, profunda e intimamente ligada, e ainda assim comigo mesma  permanece a mesma. O que eu desejo, como escreveu o poeta alemo Rainer Maria Rilke,  o casamento 
que acontece quando duas pessoas se tornam "guardis da solido uma da outra".
       E isso o que  para mim viver a beleza de uma vida humana: saber que sou um ser separado, conhecer o lugar onde eu termino e o resto do mundo comea, mas 
ter essa experincia ao lado de outra pessoa e ficar aberta ao fato de pertencer ao todo,  minha inegvel participao e personificao do Mistrio que  compaixo 
e que cria e sustenta a ns todos.
       
MEDITAO SOBRE A VERDADE DE QUEM VOC 
       
       No ltimo dia de um retiro, conduzi uma meditao pedindo a cada pessoa que se sentasse em silncio e depois escrevesse a declarao mais verdadeira possvel 
a respeito de si mesma. Fiquei sentada por um momento, esperando escrever e reescrever declaraes que fariam com que eu me aprofundasse cada vez mais na essncia 
da verdade a respeito de mim. No entanto, em vez disso, depois de apenas um ou dois minutos, peguei a caneta e escrevi: "Sou abenoada". Soube imediatamente que 
essa era a declarao mais verdadeira que eu poderia escrever a meu respeito. E claro que em outras ocasies, quando fao essa meditao, tenho intuies diferentes 
a meu respeito, mas o fato de ser abenoada permanece verdadeiro.
       Sente-se numa posio confortvel, tendo lpis e papel  mo. Feche os olhos e respire profundamente trs vezes, inspirando pelo nariz e soltando o ar pela 
boca. Deixe os msculos das suas costas relaxarem cada vez que voc expirar, sentindo os ombros carem e seu peso se acomodar na parte inferior do corpo. Cada vez 
que voc soltar o ar, livre-se de todo o cansao e tenso do corpo. Passe alguns minutos concentrando-se apenas na respirao, acompanhando o ar que entra e sai, 
o subir e o descer do seu corpo. Se pensamentos surgirem, tome simplesmente conhecimento deles e leve a ateno de volta  respirao.
       Pergunte-se agora: "Qual  a declarao mais verdadeira que eu poderia fazer neste momento a meu respeito?" Quando sentir que tem a resposta, sem fazer julgamentos, 
escreva a declarao que lhe veio  cabea. A seguir, permanea com ela. Que sentimentos ela desperta? Que pensamentos? Fique com quaisquer pensamentos ou sentimentos 
que possam surgir, sem se deixar prender por eles  apenas observe-os vir e ir embora. Pergunte-se se  possvel escrever uma declarao mais verdadeira do que a 
que voc acabou de registrar. Se for, qual  ela? Escreva-a. Se no for, simplesmente permanea com a declarao que voc escreveu. Repita esse processo com quaisquer 
novas declaraes que possam aparecer, permanecendo simplesmente com a verdade que voc conhece a respeito de si mesmo neste momento, sem fazer julgamentos. Leve 
a ateno de volta  respirao e fique com as declaraes que vierem surgindo e os sentimentos que elas possam despertar.
       
 
       
DOZE
O Vazio Sagrado
       
       
E quando o som de todas as declaraes
das nossas mais sinceras
intenes tiver desaparecido no vento,
dance comigo na pausa infinita antes da grande inalao
seguinte do alento que nos sopra a todos na existncia,
sem encher o vazio a partir de dentro ou de fora.
       

       
       s vezes eu penso que s precisamos seguir duas instrues para desenvolver e aprofundar nossa vida espiritual: moderar nossa atividade e relaxar.  preciso 
fazer essas duas coisas se quisermos viver com o vazio sagrado no centro do nosso ser, o vazio que  capaz de nos renovar e nos lembrar que devemos simplesmente 
ser tudo que somos.
       A voz de Shirley me parece muito jovem ao telefone. Ela tem vinte e seis anos. H trs anos, quando estava na faculdade, Shirley sofreu um acidente de carro 
que a deixou tetraplgica  capaz de respirar sozinha, com todas as faculdades mentais intactas, mas sem nenhuma sensao ou movimento do pescoo para baixo. Depois 
do ocorrido, Shirley voltou para casa e sua me passou a tomar conta dela, mas outro acidente de carro, um ano depois, deixou a me incapacitada. Shirley hoje vive 
num hospital de reabilitao e visita a famlia nos fins de semana. A pedido do seu pai, concordei em passar algum tempo com ela, se Shirley assim desejasse.
       Conversamos um pouco e depois pergunto a Shirley o que ela espera receber do tempo que passaremos juntas. No quero iludi-la com relao ao que posso oferecer. 
Ela j teve desapontamentos demais na sua jovem vida. "Sei que meu pai est preocupado comigo, mas acho que estou conseguindo me sair muito bem. S quero saber por 
que isso aconteceu conosco  o meu acidente e o da minha me. Algumas pessoas dizem que, quando coisas assim acontecem, existe algo que precisamos aprender. Minha 
esperana  que voc possa me dizer o que ".
       Eu digo a verdade: "No consigo nem mesmo imaginar o que voc e sua famlia tm passado. J vivi momentos difceis, de modo que entendo por que voc quer 
encontrar uma razo para tudo isso". Fao uma pausa e falo mais devagar: "Eu s no acho que podemos saber por que coisas desse tipo acontecem. Acho que nossa tarefa 
 e ela  s vezes muito difcil  consiste em conviver com todas as dificuldades da vida sem sermos capazes de saber por que elas acontecem e ainda assim descobrir 
uma maneira de escolher completamente a vida, todos os dias".
       Fao uma pausa. Como uma moa de vinte e seis anos, incapaz de se mover, pode encontrar uma maneira de viver plenamente? No sei quais foram todas as coisas 
de que ela gostava e perdeu. Ela era uma atleta? Tinha um namorado? Gostava de andar, fazer caminhadas, danar, cozinhar? Sentia prazer em tocar e ser tocada, de 
sentir o sol na pele ou o calor da gua durante o banho? Ela no pode simplesmente ignorar tudo isso e seguir adiante; ela  incapaz de se mover. Ela talvez nunca 
mais possa se mexer.
       "Voc no acredita que tudo acontece por uma razo?" Shirley demonstra estar claramente surpresa.
       "Bem, acredito que tudo tem uma causa, mas isso no  o mesmo que dizer que tudo acontece por uma razo. Deixe-me dar um exemplo". Respiro fundo. "Quando 
eu era um pouco mais nova do que voc  agora, fui estuprada. O estupro foi causado por uma combinao de escolhas que eu fiz e de escolhas que aquele homem fez. 
Por favor, no me entenda mal. No estou diminuindo a responsabilidade dele: foi ele que escolheu me estuprar. Mas eu desprezei repetidamente minha intuio, quando 
ela me disse que eu estava numa situao perigosa. E aprendi muito com essa terrvel experincia: aprendi a confiar na minha intuio e agir de acordo com ela, mesmo 
quando as outras pessoas acham que estou exagerando. Aprendi a perceber uma fora interior que eu no sabia que tinha. Aprendi como viver com uma dor interior que 
levou muito tempo para ir embora, e mesmo assim escolhi a vida. Mas ser que eu acho que essas lies foram o motivo pelo qual o estupro ocorreu - que alguma fora 
no universo concebeu o estupro para que eu pudesse aprender essas lies? No, eu no acho".
       "Voc acredita em Deus?" A voz de Shirley parece neutra, curiosa, sem dvida desconcertada pelo fato de algum cujo nome lembra tanto as filosofias atuais 
no nutrir uma das crenas fundamentais em muitas das filosofias da Nova Era.
       "Acredito". Vivencio algo maior do que eu  que voc chama de Deus e eu chamo de Mistrio  ao meu redor e dentro de mim, todos os dias. E sinto que essa 
presena  poderosa e amorosa. E para dizer a verdade, se eu achasse que uma presena poderosa e amorosa decidiu que a maneira de me ensinar a perceber minha fora 
era conceber um estupro na minha vida, eu ficaria danada. Sem dvida essa fora poderia encontrar um jeito que no fosse o estupro  ou a paralisia  para nos ensinar 
o que devemos aprender. No creio que a melhor maneira de ensinar at mesmo os alunos teimosos seja bater neles, e acho que ns, na qualidade de seres humanos, queremos 
por natureza aprender a viver e amar mais plenamente. Por isso estou bastante certa de que uma presena poderosa e amorosa encontraria uma maneira de nos ensinar 
 se estivesse preparando lies  com amor e estmulo, no com uma tragdia devastadora. Isso no significa que no possamos aprender com tudo que acontece. Significa 
apenas que essas lies no so necessariamente a causa por trs dos eventos.
       "Ento..." Consigo ouvir Shirley ruminando minhas palavras. "Por que voc acha que essas coisas acontecem?".
       "Bem, se voc est falando sobre o que faz qualquer coisa acontecer, geralmente conseguimos remontar a uma combinao de escolhas e condies fsicas. Os 
graves acidentes de carro acontecem porque escolhemos construir nossas comunidades e organizar nossa vida de um modo que quase nos obriga a nos deslocar rapidamente 
de um lugar para outro. Por outro lado, escolhemos fazer isso em veculos que sabemos ser incapazes de agentar as inevitveis colises que acontecem quando vrios 
fatores se juntam. O tempo est ruim, um animal pula na frente do carro, uma pea de metal ou de borracha se desgasta, e se essas coisas se combinam com a deciso 
de uma pessoa de dirigir quando est cansada, irritada, embriagada ou distrada, um acidente acontece. Somos seres humanos. Cometemos erros. No prevemos as conseqncias, 
ou fazemos isso achando que vale a pena correr o risco porque outras coisas, como o lucro ou o prazer do momento, parecem mais importantes."
       "Mas voc acha que em algum momento pode haver uma razo maior, um propsito mais elevado?".
       "No sei. No creio que possamos saber se existe uma razo maior  um objetivo intencional  que cause essas coisas. No estou dizendo que no devemos pensar 
sobre o significado desses acontecimentos, se pudermos fazer isso sem culpa ou vergonha. Mltiplos acidentes de carro numa nica famlia, por exemplo, so um motivo 
para se fazer uma pausa e pensar: o que est acontecendo conosco? Parece haver um padro que se repete". Paro por um momento, procurando uma maneira de ser mais 
clara. "Eu acho que o nosso inconsciente, o inconsciente coletivo, e aquilo que  maior do que ns podem nos falar atravs de smbolos. Se acontece nos sonhos, por 
que no nos eventos da vida? Foi difcil deixar de perceber isso quando Christopher Reeve sofreu o acidente quando cavalgava. O homem que todos conheciam como o 
Super-Homem  cone da fora e da bondade americanas, smbolo da ao herica  estava paraltico. E depois observamos o ser humano, Christopher, lidar com sua paralisia, 
e descobrimos um tipo diferente de heri, que no pode representar, que nos mostra a coragem no tanto pelo que faz mas pela maneira integral de fazer. Podemos aprender 
muito observando o significado que os eventos na nossa vida encerram para ns. Acho apenas que precisamos ter cuidado para no saltar do significado que extramos 
dos eventos para a afirmao de que foi por isso que eles aconteceram."
       "Por qu? Por que precisamos ter cuidado? Por que no podemos simplesmente dizer: bem, foi por isso que aconteceu. O acidente de Christopher Reeve aconteceu 
porque todos precisamos descobrir um novo tipo de heri? Seria mais fcil do que tentar viver sem saber".
       Ela est certa. Seria mais fcil, e esta no  uma questo terica para Shiley. Ela precisa descobrir uma maneira de viver com limitaes e dificuldades que 
eu no posso compreender totalmente.
       Respondo com cuidado: "Porque no podemos saber se  verdade. E eu acho que a verdadeira cura  a cura que permite que guardemos no corao tanto a ns mesmos 
quanto as partes feridas do mundo, a cura que nos ensina a viver plenamente  provm da intimidade, da capacidade de estar inteira com o que existe, por mais difcil 
que isso possa ser. Eu sei que ter uma explicao para o motivo pelo qual as coisas difceis acontecem as tornaria mais fceis, mas eu simplesmente no consigo ver 
como algum  capaz de afirmar que realmente sabe por que elas acontecem."
       Shirley est quieta, e de repente visualizo a imagem de ns duas de p, na beira de um penhasco, olhando para um precipcio  o abismo sem fundo do desconhecimento. 
Eu sei o que estou falando. Estou dizendo a ela que viver plenamente  escolher viver caindo atravs desse enorme vazio.
       Quando Shirley fala de novo, sua voz est mais baixa. Preciso me esforar para ouvi-la. "E como voc convive com isso?".
       "Um dia de cada vez", respondo suavemente. "Procurando sentir o abrao da presena daquilo que  maior do que eu, pedindo ajuda para encontrar uma maneira 
de estar com a vastido do que eu no conheo, e ainda assim escolhendo a vida". Fao uma pausa. "No  fcil". Ficamos quietas por um momento. "Uma amiga minha, 
Catherine, teve, h muitos anos, o rompimento de um aneurisma cerebral que a deixou com uma grave deficincia fsica e mental. Tirou dela a vida que ela tinha. Catherine 
e eu conversamos certa vez a respeito da razo do que aconteceu e ela me disse: 'No podemos saber por que isso aconteceu. Tudo que podemos  aproveitar do que aconteceu. 
Ela pediu: Faa com que eu aproveite, Oriah. Faa com que eu aproveite".
       "Acho que ela quis dizer que temos que aprender tudo que for possvel com todas as coisas que acontecem na nossa vida, agir de acordo com esse aprendizado 
e compartilhar o que aprendemos com os outros atravs da maneira como vivemos.  assim que aproveitamos e damos importncia a tudo que acontece conosco. E o fato 
de que grande parte do tempo  exatamente isso que as pessoas fazem  uma incrvel demonstrao para o esprito humano  para quem e o que realmente somos. As pessoas 
seguem em frente, aprendem com a tragdia e voltam a viver com o corao aberto para a vida".
       Shirley e eu conversamos um pouco mais. Digo que, se ela quiser, ficarei feliz em voltar a v-la, ouvi-la falar sobre sua experincia e fazer com ela algumas 
celebraes e meditaes. Digo para entrar em contato comigo se quiser marcar um encontro.
       Faz algumas semanas que estive com Shirley. No espero que ela telefone e no me preocupo com isso. O objetivo da nossa conversa foi fazer com que ela soubesse 
o que eu podia e no podia oferecer. Ela pode procurar muitos mestres e conselheiros espirituais que lhe diro que sua paralisia  apenas uma das inmeras coisas 
que tinham que acontecer na sua vida para ensinar-lhe o que ela precisava aprender para acelerar seu desenvolvimento espiritual. E talvez isso a ajude a ir em frente. 
s vezes precisamos acreditar em coisas que no temos como saber se so verdadeiras apenas para prosseguir. Existem dias em que o vazio de no saber  assustador 
demais.
       A reao humana automtica ao vazio parece ser tentar preench-lo ou pelo menos tentar encontrar alguma coisa  qual possamos nos agarrar enquanto mergulhamos 
no vcuo. Quando meu filho mais velho, Brendan, nasceu, ele foi colocado no meu colo e coberto com uma manta. Eu o mantive em contato com minha pele at o cordo 
umbilical parar de pulsar e ser cortado. Depois de algum tempo, a parteira o colocou ao meu lado na cama para que eu o examinasse, para que eu me certificasse do 
nmero correto de dedos das mos e dos ps. Fazia calor naquele dia do ms de julho, o quarto estava quente e ele foi colocado sobre um cobertor de flanela. Mas 
no segundo em que foi deixado sozinho, ele deu um grito e estendeu freneticamente os braos, procurando algo a que se agarrar. Fisicamente sozinho pela primeira 
vez, com apenas o ar quente do quarto tocando a maior parte do seu corpo, ele estava perdido num vasto e desconhecido vazio. Seu pequeno punho vermelho agarrou a 
coisa que estava mais prxima  o longo rabo-de-cavalo da parteira  e o puxou para si com uma fora impressionante, trazendo o rosto dela para perto do dele, como 
se dissesse: "No me deixe aqui sozinho neste vazio. Eu no gosto dele!".
       E assim que nos sentimos s vezes no vazio  apavorados. Agarramos o que est disponvel e puxamos na nossa direo. E de esperar que nos cerquemos de pessoas, 
lugares, idias e prticas que nos fazem lembrar que pertencemos a alguma coisa, que estamos ligados ao que sustenta a vida. Caso contrrio, s nos resta tentar 
agarrar coisas que possam diminuir nossa ansiedade, mesmo que nos afastem de ns mesmos e do mundo, anestesiando nossa capacidade de sentir prazer e dor. O lcool, 
as drogas, a comida, o drama emocional, o excesso de trabalho  as possibilidades so infinitas.
       No estou enfrentando nada que se parea com o desafio que existe na jovem vida de Shirley, mas mesmo assim me vejo s vezes incapaz ou sem vontade de ficar 
com o vazio. Para mim, a ocasio mais difcil, a hora em que eu procuro encher o vazio,  a noite. s vezes  nem sempre , quando j terminei o trabalho que precisa 
ser feito, quando o computador est desligado porque eu sei que tentar escrever mais ser contraproducente, quando j lavei e guardei a loua, e os preparativos 
para o dia seguinte esto concludos mas ainda faltam uma ou duas horas para eu ir me deitar, um minsculo fio de ansiedade emana de um pequeno ndulo frio na minha 
barriga, percorre minha perna e sobe pela garganta. No se trata de uma preocupao especfica e sim de uma tenso rarefeita e indescritvel que me deixa inquieta, 
incapaz ou sem vontade de ficar parada. Resolvo ento pr em dia meus arquivos financeiros ou assisto  televiso, trocando toda hora de canal, ocupando a mente 
com o trabalho ou com imagens de histrias que no me interessam, at ficar exausta e pegar no sono.
       O que eu temo nessas sombrias e silenciosas horas em que impera o vazio? O que todos tememos: que toda a dor e desespero que procuramos desconhecer possam 
tomar conta de ns. Todas as dvidas irrespondveis e as perguntas cujas respostas possam nos desafiar a mudar a maneira como vivemos nossa vida; a conscincia da 
nossa mortalidade, a brevidade da nossa preciosa vida e a vastido do que no conhecemos.
       Mas nos esquecemos de que, no centro de tudo isso, est  nossa espera o vazio sagrado, uma amplido, uma imobilidade que nos renova e nos faz lembrar quem 
e o que somos. Mas no  possvel isolar o sofrimento  a dor, o desespero, a dvida ou o difcil conhecimento  que se situa entre ns e esse centro sagrado. Temos 
que atravess-lo, estar com ele para poder encontrar a vastido do Mistrio. O fato de, com tanta freqncia, nos pegarmos ansiando por um tempo livre, pela sensao 
de amplitude na nossa vida,  uma demonstrao clara de que viver tendo conscincia desse vazio faz necessariamente parte de uma vida plena. Nos ensinamentos dos 
ndios americanos que recebi, comeamos nossas preces invocando e entrando em harmonia com Wwakwan, Bisav  o vcuo, o nada, o tero sagrado de onde nascem todas 
as coisas. Freqentemente invoco o esprito de Wwakwan, pedindo para vivenciar a amplitude no centro do meu ser, do meu dia. Sento-me em silncio e uso a imaginao 
para entrar em contato com o vasto espao situado no centro da matria da qual sou feita. Experimento o Mistrio sob a forma do vazio e isso me abre  possibilidade 
de encontrar a pausa no final da expirao, antes do impulso de inspirar, a amplitude quieta e vazia no centro de um dia agitado.
       Para danar  para ser quem realmente somos e viver com lealdade diante dos desejos da nossa alma , precisamos retornar repetidamente a esse vazio sagrado, 
porque, bem no fundo, sabemos, como escreveu T. S. Eliot, que:
       Se no fosse o ponto, o ponto imvel, No haveria a dana e s existe a dana.
       Precisamos encontrar uma maneira  uma prtica  que possa nos conduzir ao vazio e nos manter ali, quando gostaramos de fugir do que tememos que ele encerre. 
Sem isso, nossa vida se torna no o movimento gracioso que dana desperto quem ns somos, mas o sonambulismo cambaleante ou a corrida frentica daqueles que tm 
medo porque esqueceram quem e o que realmente so.
       A prtica  uma atividade que nos oferece uma maneira de entrar no vazio sagrado situado no centro do nosso ser e ficar nele. Por definio, ela  feita de 
forma regular, de preferncia diariamente. E a regularidade que faz dela uma prtica. Voc a realiza estando ou no com vontade, sabendo que, pelo menos na cultura 
ocidental, a resistncia  no estar com vontade   uma reao humana bastante universal a fazer qualquer coisa de modo regular. O que torna a regularidade possvel 
 o mtodo  uma forma que no depende de como estamos nos sentindo no momento. Embora eu tenha ouvido muitas pessoas desprezarem o uso da prtica diria, afirmando 
que preferem permanecer despertas e atentas durante todas suas atividades cotidianas, ainda no conheci ningum capaz de fazer isso. Na condio de seres humanos, 
temos a capacidade de estar totalmente presentes em cada momento, mas  pouco provvel que consigamos fazer durante vinte e trs horas o que no fizemos diariamente 
durante uma hora.  como querer fazer mestrado quando ainda estamos no jardim-de-infncia.
       Minha prtica inclui uma meditao diria sobre as vinte e trs preces da cerimnia da Flauta Sagrada, que aprendi h muitos anos. Sem essa estrutura, haveria 
dias em que minha impacincia e relutncia em me encontrar e me conectar com todos os aspectos do mundo visvel e invisvel reduziriam essa cerimnia a uma ou duas 
preces rpidas. Minha prtica tambm inclui a meditao silenciosa e a escrita, e ambas so feitas durante um perodo de tempo estabelecido. Essas prticas so feitas 
de uma maneira simples - uma meditao que envolve a concentrao na respirao, em estar com o que existe ao meu redor e dentro de mim, e escrever o que surge na 
minha mente, mantendo a mo que segura a caneta em movimento sobre o papel. Em ambos os casos, o compromisso com o tempo me fornece uma estrutura simples que me 
envolve quando o medo ou o desconforto de encontrar a mim mesma no silncio me forneceriam muitas desculpas para fazer outra coisa.
       No mago de qualquer prtica eficaz, seja ela qual for, existe uma estrutura que purifica e mantm abertos um tempo e um espao para moderarmos nossa atividade 
e relaxarmos. Para fazer isso, precisamos conviver com o medo que surge quando nos tornamos conscientes de que tudo que amamos no mundo -nossa prpria vida   impermanente. 
Podemos ficar tremendamente aliviados e repousados ao nos desapegarmos daquilo a que tentamos nos agarrar, quando deixamos de tentar manter imutveis as coisas que 
por sua prpria natureza esto em constante mudana. Isso no significa que amamos a vida e o mundo com menos intensidade. Amar da maneira adequada e viver plenamente 
no  o mesmo que se agarrar s coisas.
       Mas, para nos tornarmos conscientes daquilo a que estamos nos agarrando, e daquilo que precisamos soltar, precisamos moderar nossa atividade. Embora teoricamente 
possa ser possvel viver o dia fazendo uma centena de coisas e mantendo ao mesmo tempo uma enorme sensao de paz interior, isso tambm me d a impresso de ser 
uma tarefa prematura de ps-graduao. Preciso diminuir minha atividade.
       Ns apenas sobrevivemos quando nos deixamos arrastar pela velocidade  nossa volta  quando nos alinhamos com o mundo onde vivemos. E ns vivemos num mundo 
veloz. Se quisermos criar um mundo que no esteja perpetuamente se acelerando, famlias, locais de trabalho e comunidades que ajudem as pessoas a moderar sua atividade 
a fim de permanecer em contato e cuidar de si mesmas e do mundo, precisamos reduzir nossa prpria atividade. Nas palavras de Gandhi, "Voc tem que ser a mudana 
que voc quer ver no mundo". Voc no pode se apressar se deseja criar uma vida com um ritmo mais lento, assim como no  lutando que vai alcanar a paz.
       Quando evitamos o vazio, quando preenchemos a quietude com um excesso de atividades, freqentemente o que estamos tentando fazer  superar a crena, por vezes 
inconsciente, de que quem somos nunca ser suficiente. As coisas a que tentamos nos agarrar  nosso trabalho, nossos relacionamentos, nossa reputao e ganhos  
so aquelas que achamos que iro nos tornar merecedores da vida e do amor, quando nos consideramos bsica e inerentemente defeituosos. Quando conseguimos simplesmente 
conviver com o medo de no sermos suficientes, e com a vastido do que no conhecemos, descobrimos um vazio que no  uma deficincia nossa e sim a origem da plenitude 
de quem e do que somos. Descobrimos que quem realmente somos  seres cheios de compaixo e tolerncia, capazes de estar inteiros em cada momento  sempre foi suficiente.
        simples, mas no  fcil.  mais fcil quando se constri esse processo suavemente, ao longo do tempo, junto com os outros. Eu fiz regularmente as preces 
e meditaes da minha prtica, mas no todos os dias, durante mais de dez anos, sozinha e com outras pessoas, antes que elas se tornassem uma parte integrante e 
reconhecida do tempo que passo sozinha diariamente. E mesmo agora existem dias, como aquele em que Shirley e eu conversamos a respeito do seu acidente, em que eu 
quero ser mais do que sou, oferecer mais do que tenho  dias em que  difcil estar com o vazio de tudo que eu no sei.
       Escolho ficar com o vazio de no saber por que Shirley est paraltica, por que fui estuprada ou por que Catherine sofreu um aneurisma cerebral. E Shirley 
me surpreende quando telefona semanas depois da nossa primeira conversa. Ela me diz que pensou a respeito do que eu disse e quer que eu v visit-la. Estou impressionada 
com sua coragem, assombrada com essa intensa compaixo  essa capacidade de abrir o corao para ns mesmos e para o mundo, e conviver com o que existe  que d 
a ela a fora de decidir conviver com o que  difcil, e mesmo assim escolher a vida.  assim que ns somos. E isso basta.
       Irei at l e estarei com ela, duas mulheres compartilhando suas histrias. E se encontrarmos um momento em que nossa capacidade de estarmos verdadeiramente 
juntas se concretizar, talvez nos sentemos em silncio, na vastido de tudo que no sabemos, e encontremos juntas o vazio sagrado que nos encerra.  isso que eu 
quero: que sejamos quem e o que realmente somos uma com a outra, que dancemos juntas.
       
       No diga "Sim!"
       Pegue apenas a minha mo e dance comigo.
       
       
       
       
MEDITAO PARA MODERAR A ATIVIDADE E SE DESAPEGAR
       
       Sente-se ou deite-se numa posio confortvel e feche os olhos. Respire profundamente trs vezes, inspirando pelo nariz e soltando o ar pela boca, deixando 
que seu corpo relaxe mais um pouco cada vez que expirar. Deixe os ombros carem e faa com que seu peso seja totalmente sustentado pela superfcie que est embaixo 
de voc e pela terra debaixo dessa superfcie.
       Concentre agora a ateno na respirao, respirando normalmente. Tome conscincia do subir do seu corpo ao inspirar e do descer dele ao expirar. Respire normalmente, 
apenas observando o ar que entra e sai do corpo. Se surgirem pensamentos, simplesmente tome conhecimento deles e deixe-os partir com o ar que voc exala, voltando 
a concentrar-se na respirao.
       Agora, ao inspirar, comece a dizer para si: "Calma". A cada inalao, enquanto seu corpo se enche de ar, oua dentro de voc a palavra "calma". Observe sem 
julgar quaisquer sentimentos que surjam quando voc ouvir essa palavra. Inspire esses sentimentos, ficando apenas com eles enquanto repete internamente a palavra 
a cada inspirao: "Calma". Se situaes ou tarefas especficas lhe vierem  mente, simplesmente tome conhecimento delas e deixe-as partir com a expirao, levando 
a ateno de volta para a respirao e repetindo internamente, ao inspirar, a palavra "calma".
       Agora, ainda usando a palavra "calma" ao inspirar, acrescente a palavra "desapegue-se" ao expirar. A cada inalao completa, oua a palavra "calma". E a cada 
expirao completa, repita interiormente a palavra "desapegue-se". "Calma" ao inspirar e "desapegue-se" ao expirar.
       Comece a deslocar a respirao atravs do corpo, comeando pelos ps e depois subindo. Leve o ar at os ps, dizendo "calma" e expire a partir dos ps dizendo 
"desapegue-se". Faa com que qualquer estresse ou tenso nos seus ps sejam liberados quando voc soltar o ar. Leve o ar para as pernas  primeira uma, depois a 
outra  inalando "calma" nas pernas e exalando "desapegue-se". Leve o ar para as coxas  primeira uma, depois a outra, "calma" ao inspirar e "desapegue-se" ao expirar. 
Leve o ar para o abdmen e as ndegas, para toda a regio plvica, dizendo "calma" na inalao e "desapegue-se" na expirao. Leve o ar para a parte inferior das 
costas e depois para a superior, inalando a calma e, ao expirar, desapegando-se de qualquer coisa que possa estar retida nesses lugares. Leve o ar para o peito  
corao e pulmo  repetindo "calma" ao inspirar e "desapegue-se" ao expirar. Se surgirem pensamentos e sentimentos, tome conhecimento deles e leve a ateno de 
volta  respirao e s palavras que voc est repetindo interiormente. Leve o ar para as mos e os braos, dizendo a eles para terem "calma" e se "desapegarem". 
Respire nos ombros e no pescoo, e depois no rosto e na cabea, a cada respirao repetindo as palavras "calma" e "desapegue-se".
       Qual  a atividade em que voc tem medo de diminuir o ritmo? A que est tentado se agarrar? Permita-se ver, sem julgar, onde  fcil ou difcil para voc 
ter mais calma e se desapegar, e respire no corpo todo, repetindo as palavras na inalao e na expirao.
       
       
  

Agradecimentos
       
       Sou imensamente grata queles que possibilitaram que eu vivesse meu sonho de escrever: a Joe Durepos, meu agente, cuja integridade e entusiasmo me mantm 
aberta s possibilidades;  equipe da Harper San Francisco, que enviou minhas palavras para o mundo oferecendo-me um maravilhoso apoio, inclusive o editor Stephen 
Hanselman, pela sua viso e compromisso; ao editor de texto John Loudon, por seu estmulo e amor s palavras; e a Margery Buchanan, Calla Devlin, Kris Ashley, Priscilla 
Stuckey, Lisa Zuniga, Jim Warner e Donna Marie Grethen, por contriburem com seu enorme talento para a criao de A Dana.
       Fui abenoada ao receber orientao e apoio de tantas pessoas cujos conselhos e exemplo me guiaram e cujo humor me fez lembrar que no devo me levar excessivamente 
a srio. Entre essas generosas almas esto Ellen Wingard, Gail Straub, Mark Kels, Elizabeth Lesser, Greg Zelonka, Cheryl Richardson, Jon Kabat-Zinn, Mickey Lemle, 
John 0'Donohue, Wayne Dyer e Ann Petrie. Permaneo grata a Peter e Judey Crawford Smith, por atuarem como anfitries nos meus retiros  tanto os pessoais quanto 
em grupo  com uma organizao impecvel e genuna generosidade. Sou tambm grata queles cujo planejamento habilidoso das conferncias me permitiu encontrar novas 
comunidades, sentindo-me amparada pelo carinho recebido: Stephan Rechtschaffen, Harry Feinberg, Peter Hogan e Paul Calens, do Omega Institute; Robins e Cody Johnson, 
das conferncias Prophets; Karen Thomas, da Mile Hi Church, em Denver; e Jan Marie Dore, da International Coach Federation. Para eles, bem como para o grande nmero 
de homens e mulheres que compartilharam comigo suas histrias em conferncias e retiros, atravs de cartas e e-mails, muito obrigada.
       Quanto s pessoas mais chegadas, sou grata  constante criatividade e eficiente bom humor da minha assistente e amiga, Elizabeth Vervwey, bem como  permanente 
generosidade de uma comunidade solidria que conta com Linda Mulhall, Lise Tetrault, Jude Cockman, Cat Scoular, Vivian Taylor Cvekovic, Philomene Hoffman, Judith 
Edwards, Peter Marmorek, Catherine Mloszewska, Liza Parkinson, Diana Meredith, Teri Degler, Wilder Penfield, Nancy Ross, Carla Jensen, Joseph Lukezich, Christina 
Vander Pyl, Ellen Martin, Mark Dreu e Ingrid Szymkowiak.
       E sempre esto presentes as vozes de amor e apoio dos meus filhos, Brendan e Nathan, e dos meus pais, Don e Carolyn House. Sou imensamente grata pela famlia 
que tenho. E muito obrigada, Jeff  por ter me encontrado, por ainda me amar depois de uma ausncia de trinta anos, por estar inteiro comigo.
       E, finalmente, ofereo uma prece de gratido  presena que  maior do que eu e nunca deixa de me encerrar no seu bondoso corao. Sou agradecida por conhecer 
o toque desse Mistrio na minha vida.
       
   

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1 Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e 
tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.
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